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30/05/2014

O Lapso


E vieram todos os oficiais... e o resto do povo, desde o pequeno até ao grande.
E disseram ao profeta Jeremias: Seja aceita a nossa súplica na tua presença.
Jeremias, XLII, 1, 2.

Não me perguntem pela família do Dr. Jeremias Halma, nem o que é que ele veio fazer ao Rio de Janeiro, naquele ano de 1768, governando o conde de Azambuja, que a princípio se disse o mandara buscar; esta versão durou pouco. Veio, ficou e morreu com o século. Posso afirmar que era médico e holandês. Viajara muito, sabia toda a química do tempo, e mais alguma; falava correntemente cinco ou seis línguas vivas e duas mortas. Era tão universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma teoria da formação dos diamantes. Não conto os melhoramentos terapêuticos e outras muitas coisas, que o recomendam à nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro, nem orgulhoso. Ao contrário, a vida e a pessoa dele eram como a casa que um patrício lhe arranjou na rua do Piolho, casa singelíssima, onde ele morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano, modesto, tão modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem de um conto. Vamos ao princípio.
No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa dos maridos pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal Tomé Gonçalves, homem abastado, e, segundo algumas induções, vereador da câmara. Vereador ou não, este Tomé Gonçalves não tinha só dinheiro, tinha também dívidas, não poucas, nem todas recentes. O descuido podia explicar os seus atrasos, a velhacaria também; mas quem opinasse por uma ou outra dessas interpretações, mostraria que não sabe ler uma narração grave. Realmente, não valia a pena dar-se ninguém à tarefa de escrever algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do século passado, um homem que, por velhacaria ou desleixo, deixava de pagar aos credores. A tradição afirma que este nosso concidadão era exato em todas as coisas, pontual nas obrigações mais vulgares, severo e até meticuloso. A verdade é que as ordens terceiras e irmandades que tinham a fortuna de o possuir (era irmão-remido de muitas, desde o tempo em que usava pagar), não lhe regateavam provas de afeição e apreço; e, se é certo que foi vereador, como tudo faz crer, pode-se jurar que o foi a contento da cidade.
Mas então...? Lá vou; nem é outra a matéria do escrito, senão esse curioso fenômeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o Dr. Jeremias. Em uma tarde de procissão, Tomé Gonçalves, trajando com o hábito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do pálio, e caminhando com a placidez de um homem que não faz mal a ninguém. Nas janelas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na esquina do beco das Cancelas (a procissão descia a rua do Hospício), depois de ajoelhados, rezados, persignados e levantados, perguntaram um ao outro, se não era tempo de recorrer à justiça.
— Que é que me pode acontecer? dizia um deles. Se brigar comigo, melhor; não me levará mais nada de graça. Não brigando, não lhe posso negar o que me pedir, e na esperança de receber os atrasados, vou fiando... Não, senhor; não pode continuar assim.
— Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada, é por causa da minha dona, que é medrosa, e entende que não devo brigar com pessoa tão importante... Mas eu como ou bebo da importância dos outros? E as minhas cabeleiras?
Este era um cabeleireiro da rua da Vala, defronte da Sé, que vendera ao Tomé Gonçalves dez cabeleiras, em cinco anos, sem lhe haver nunca um real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A procissão passara inteiramente; eles ficaram na esquina, ajustando o plano de mandar os meirinhos ao Tomé Gonçalves. O cabeleireiro advertiu que outros muitos credores só esperavam um sinal para cair em cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou a conveniência de meter na conjuração o Mata sapateiro, que vivia desesperado. Só a ele devia o Tomé Gonçalves mais de oitenta mil-réis. Nisso estavam, quando por trás deles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando por que motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tomados de profunda veneração; em seguida disseram que tanto não era doente o devedor, que lá ia andando na procissão, muito teso, pegando uma das varas do pálio.
— Que tem isso? interrompeu o médico; ninguém lhes diz que está doente dos braços, nem das pernas...
— Do coração? do estômago?
— Nem coração, nem estômago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com muita doçura, que se tratava de negócios altamente especulativos, que não podia dizer ali, na rua, nem sabia mesmo se eles chegariam a entendê-lo. Se eu tiver de pentear uma cabeleira ou talhar um calção, — acrescentou para os não afligir, — é provável que não alcance as regras dos seus ofícios tão úteis, tão necessários ao Estado... Eh! eh! eh!
Rindo assim, amigavelmente, cortejou-os e foi andando. Os dois credores ficaram embasbacados. O cabeleireiro foi o primeiro que falou, dizendo que a notícia do Dr. Jeremias não era tal que os devesse afrouxar no propósito de cobrar as dívidas. Se até os mortos pagam, ou alguém por eles, reflexionou o cabeleireiro, não é muito exigir aos doentes igual obrigação. O alfaiate, invejoso da pilhéria, fê-la sua cosendo-lhe este babado: — Pague e cure-se.
Não foi dessa opinião o Mata sapateiro, que entendeu haver alguma razão secreta nas palavras do Dr. Jeremias, e propôs que primeiro se examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idôneo. Convidaram então outros credores a um conciliábulo, no domingo próximo, em casa de uma D. Aninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um batizado. A precaução era discreta, para não fazer supor ao intendente da polícia que se tratava de alguma tenebrosa maquinação contra o Estado. Mal anoiteceu, começaram a entrar os credores, embuçados em capotes, e, como iluminação pública só veio a principiar com o vice-reinado do conde de Resende, levava cada qual uma lanterna na mão, ao uso do tempo, dando assim ao conciliábulo um rasgo pinturesco e teatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta — e não eram todos.
A teoria de C. Lamb acerca da divisão do gênero humano em duas grandes raças, é posterior ao conciliábulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a demonstraria melhor. Com efeito, o ar abatido ou aflito daqueles homens, o desespero de alguns, a preocupação de todos, estavam de antemão provando que a teoria do fino ensaísta é verdadeira, e que das duas grandes raças humanas, — a dos homens que emprestam, e a dos que pedem emprestado, — a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da segunda, the open, trusting, generous manners of the other. Assim que, naquela mesma hora, o Tomé Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns amigos com os vinhos e galinhas que comprara fiado; ao passo que os credores estudavam às escondidas, com um ar desenganado e amarelo, algum meio de reaver o dinheiro perdido.
Longo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os espíritos. Uns inclinavam-se à demanda, outros à espera, não poucos aceitavam o alvitre de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidários deste parecer não o defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não fazer coisa nenhuma; eram os servos do medo e da esperança. O cabeleireiro opunha-se-lhe, e perguntava que moléstia haveria que impedisse um homem de pagar o que deve. Mas o Mata sapateiro: — "Sr. compadre, nós não entendemos desses negócios; lembre-se que o doutor é estrangeiro, e que nas terras estrangeiras sabem coisas que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, só perdemos algum tempo e nada mais." Venceu este parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabeleireiro para entenderem-se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliábulo dissolveu-se na patuscada. Terpsícore bracejou e perneou diante deles as suas graças jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a úlcera secreta que os roía. Eheu! fugaces... Nem mesmo a dor é constante.
No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os três credores, entre sete e oito horas da manhã. "Entrem, entrem..." E com o seu largo carão holandês, e o riso derramado pela boca fora, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o grande médico veio em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava nesse momento uma cobra, morta de véspera, no morro de Santo Antônio; mas a humanidade, costumava ele dizer, é anterior à ciência. Convidou os três a sentarem-se nas três únicas cadeiras devolutas; a quarta era a dele; as outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objetos de toda a casta.
Foi o Mata sapateiro quem expôs a questão; era dos três o que reunia maior cópia de talentos diplomáticos. Começou dizendo que o engenho do "Sr. doutor" ia salvar da miséria uma porção de famílias, e não seria a primeira nem a última grande obra de um médico que, não desfazendo nos da terra, era o mais sábio de quantos cá havia desde o governo de Gomes Freire. Os credores de Tomé Gonçalves não tinham outra esperança. Sabendo que o "Sr. doutor" atribuía os atrasos daquele cidadão a uma doença, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer recurso à justiça. A justiça ficaria para o caso de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que, além de outros achaques humanos, havia o de não pagar as dívidas, se era mal incurável, e, não o sendo, se as lágrimas de tantas famílias...
— Há uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente comovido, um lapso da memória; o Tomé Gonçalves perdeu inteiramente a noção de pagar. Não é por descuido, nem de propósito que ele deixa de saldar as contas; é porque esta ideia de pagar, de entregar o preço de uma coisa, varreu-se lhe da cabeça. Conheci isto há dois meses, estando em casa dele, quando ali foi o prior do Carmo, dizendo que ia "pagar-lhe a fineza de uma visita". Tomé Gonçalves, apenas o prior se despediu, perguntou-me o que era pagar; acrescentou que, alguns dias antes, um boticário lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe até que já a ouvira a outras pessoas; por ouví-la da boca do prior, supunha ser latim. Compreendi tudo; tinha estudado a moléstia em várias partes do mundo, e compreendi que ele estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois senhores que não demandassem um homem doente.
— Mas então, aventurou o Mata, pálido, o nosso dinheiro está completamente perdido...
— A moléstia não é incurável, disse o médico.
— Ah!
— Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a empreguei em dois grandes casos: — um barbeiro, que perdera a noção do espaço, e, à noite estendia a mão para arrancar as estrelas do céu, e uma senhora da Catalunha, que perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas vezes a vida, querendo sair pelas janelas mais altas das casas, como se estivesse ao rés do chão...
— Santo Deus! exclamaram os três credores.
— É o que lhes digo, continuou placidamente o médico. Quanto à dama catalã, a princípio confundia o marido com um licenciado Matias, alto e fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capitão, D. Hermógenes, e, no tempo em que comecei a tratá-la, com um clérigo. Em três meses ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.
Realmente, era uma droga miraculosa. Os três credores estavam radiantes de esperança; tudo fazia crer que o Tomé Gonçalves padecia do lapso, e, uma vez que a droga existia, e o médico a tinha em casa... Ah! mas aqui pegou o carro. O Dr. Jeremias não era familiar da casa do enfermo, embora entretivesse relações com ele; não podia ir oferecer-lhe os seus préstimos. Tomé Gonçalves não tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar o médico, nem os credores podiam tomá-la a si. Mudos, perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabeleireiro, exprimiram este alvitre desesperado: cotizarem-se os credores, e, mediante uma quantia grossa e apetitosa, convidarem o Dr. Jeremias à cura; talvez o interesse... Mas o ilustre Mata viu o perigo de um tal propósito, porque o doente podia não ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angústia; tudo parecia perdido. O médico rolava entre os dedos a boceta de rapé, esperando que eles se fossem embora, não impaciente, mas risonho. Foi então que o Mata, como um capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as suas primeiras palavras tinham comovido o médico, e tornou às lágrimas das famílias, aos filhos sem pão, porque eles não eram senão uns tristes oficiais de ofício ou mercadores de pouca fazenda, ao passo que o Tomé Gonçalves era rico. Sapatos, calções, capotes, xaropes, cabeleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e saúde... Saúde, sim, senhor; os calos de suas mãos mostravam bem que o oficio era duro; e o alfaiate, seu amigo, que ali estava presente, e que entisicava, às noites, à luz de uma candeia, zás-quedarás, puxando a agulha...
Magnânimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos úmidos de lágrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expansões de um coração pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a ciência ao serviço de uma causa justa. Demais, a vantagem era também e principalmente do próprio Tomé Gonçalves, cuja fama andava abocanhada, por um motivo em que ele tinha tanta culpa como o doido que pratica uma iniquidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em rapapés infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do médico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a almoçar, obséquio que eles não aceitaram, mas agradeceram com palavras cordialíssimas. E, na rua, quando ele já os não podia ouvir, não se fartavam de elogiar-lhe a ciência, a bondade, a generosidade, a delicadeza, os modos tão simples! Tão naturais!
Desde esse dia começou Tomé Gonçalves a notar a assiduidade do médico, e, não desejando outra coisa, porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou por atá-lo de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era completo; tanto a ideia de pagar, como as ideias correlatas de credor, dívida, saldo, e outras tinham-se-lhe apagado da memória, constituindo-lhe assim um largo furo no espírito. Temo que se me argua de comparações extraordinárias, mas o abismo de Pascal é o que mais prontamente vem ao bico da pena. Tomé Gonçalves tinha o abismo de Pascal, não ao lado, mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam nele mais de sessenta credores que se debatiam lá em baixo com o ranger de dentes da Escritura. Urgia extrair todos esses infelizes e entulhar o buraco.
Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperá-lo, começou a aplicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um tratamento subsidiário, porque a cura operava-se de dois modos: — o modo geral e abstrato, restauração da ideia de pagar, com todas as noções correlatas — era a parte confiada à droga; e o modo particular e concreto, insinuação ou designação de uma certa dívida e de um certo credor — era a parte do médico. Suponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O médico levava o doente às lojas de sapatos, para assistir à compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a ação de pagar; falava de fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os preços do calçado naquele ano de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta anos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes à casa de Tomé Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabeleireiro, o segeiro, o boticário, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela razão natural de estar a doença mais arraigada, e lucrando os últimos com o trabalho anterior, donde lhes vinha a compensação da demora.
Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se transcrevem as bênçãos com que eles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece coisa de feitiçaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Tomé Gonçalves, pasmado de tantas dívidas velhas, não se fartava de elogiar a longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela acumulação.
— Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.
— Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os credores.
Restava, entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o próprio Dr. Jeremias, pelos honorários naquele serviço relevante. Mas, ai dele! a modéstia atou-lhe a língua. Tão expansivo era de coração, como acanhado de maneiras; e planeou três, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E aliás era fácil: bastava insinuar-lhe a dívida pelo método usado em relação à dos outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe metia à cara, entrou a rarear as visitas; mas o Tomé Gonçalves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a cear, a falar de coisas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a ideia de lembrar a dívida, não chegariam a fazê-lo, porque a supunham paga antes de todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas fórmulas da sabedoria popular: — Mateus, primeiro os teus — A boa justiça começa por casa — Quem é tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade é que o Tomé Gonçalves, no dia em que falecera, tinha um só credor no mundo: — o Dr. Jeremias.
Este, nos fins do século, chegara à canonização. — "Adeus, grande homem!" dizia-lhe o Mata, ex-sapateiro, em 1798, de dentro da sege, que o levava à missa dos carmelitas. E o outro, curvo de velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés: — Grande homem, mas pobre diabo.

Machado de Assis


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27/05/2014

CONSIDERAÇÕES - Mochila Literária DF


Bom dia, leitores!
                No último sábado foi realizado o evento Mochila Literária 2014 – Etapa Brasília! O Evento foi organizado pela querida parceira Jéssica do Blog Leitora Sempre e por este que vos escreve. Vou contar para vocês agora os bastidores e as melhores partes do evento que foi (modéstia a parte) muito elogiado pelos autores participantes e pelo público.

Bastidores

                O dia foi de correria. Na verdade, a semana foi de correria. Se eu posso corrigir mais uma vez, desde que concordamos em organizar esse evento foi tudo uma correria. Acordamos cedo, chegamos cedo, arrumamos tudo e mesmo após tudo pronto, ainda ficávamos de um lado para o outro, garantindo que os autores e o público tivessem uma boa estrutura para o evento.
                Para nós, o momento de maior tensão com certeza foram os 60 minutos que antecederam o início do evento. Vai ali, vem aqui. Resolve isso, resolve aquilo. Procura autor tal que está perdido, procura funcionário tal que sumiu. Testa o som, testa o projetor. Momento desespero: o notebook que seria usado não tem entrada para o cabo do projetor. Arruma outra CPU, salva a apresentação em uma versão mais antiga, passa pro outro PC (obviamente, desconfigurada...), reconfigura as fontes usadas na apresentação. Traz a água, organiza os brindes, dobra os panfletos, monta os crachás. Mais cadeiras: coloca cadeira aqui, coloca cadeira ali. Organiza os livros nas mesas para a sessão de autógrafos. Mesas pequenas, muitos autores (aperto!!!!): arruma espaço para todo mundo...
                A equipe organizadora do evento está de parabéns pelo empenho. Jéssica Rodrigues, a mais ansiosa/stressada/tímida/responsável por esse evento elogiado por todos. Jéssica Brenda, o nosso “telefone sem fio” de contato que conseguia falar com a livraria em tempo recorde. Helkem Araújo pelas ideias, pelo banner, pela parte gráfica e visual, pelo empenho e por escutar minhas ladainhas sobre o que estava acontecendo de bom e ruim no evento. Carolina Bitterncurt por estar presente e nos dar a maior força ao longo do evento. Livraria Cultura por ceder o espaço e a Thais Borges por ter saído do outro lado da cidade para ajudar o fotógrafo a aparecer em algumas fotos :)

Autores
            O motivo de tudo isso. A divulgação e apreciação das obras nacionais. O Evento Mochila Literária veio com a proposta de levar ao leitor brasileiro as obras de nossa terra, muitas vezes subestimadas pelas editoras e pelos grandes veículos de divulgação. E é também o motivo pelo qual criamos a Academia Literária-DF. Eles vieram de vários estados, alguns de muito longe, outros de mais perto, outros mesmo aqui de Brasília. Vieram pela chance de tornar público os seus trabalhos como autores, de mostra sua obra. De angariar mais leitores, mais gente que se interesse por literatura. E eles deram um show de simpatia, conhecimento e humildade ao subirem ao palco.
      Em nome da Academia Literária-DF quero agradecer imensamente a vinda de todos vocês e adoraria poder reencontrar mais vezes cada um de vocês. A Academia está aberta a novas parcerias e seria muito gratificante para nós podermos divulgar o trabalho de cada um. Obrigado pela paciência, pela compreensão e pelo amor que vocês têm pela literatura.


Mediador

                Marcos Linhares. Esse é o nome do homem que depositou sorrisos descontraídos e alegres no rosto de pessoas cansadas ao fim de um puxado evento de quatro horas de duração. O Jornalista que com um bloco de papel e uma caneta na mão, anotava ali na hora o que os autores estavam falando para usar como gancho para as suas perguntas. O cara da voz de locutor que não precisa de microfone para ser ouvido. O cara que mesmo com o desespero dos organizadores (por ser o nosso primeiro evento) mantinha-se calmo e com um semblante de “tudo vai dar certo” no rosto. Quero deixar meu registro de agradecimento a você que tanto nos ajudou e nos orientou na reta final de preparação do evento. Para mim, você foi praticamente um mentor. Se possível, gostaria que essa fórmula tão acertada no Mochila Literária fosse usada em eventos futuros que por ventura possamos organizar. E, principalmente, gostaria de contar com o seu carisma como mediador. Fica aqui registrado o convite.  Foram muitos os elogios, tanto dos autores como do público, e não sei se tudo teria dado tão certo sem sua  imprescindível colaboração.


Público

                No começo, como em muitos eventos literários, a maior preocupação dos autores e da organização era com o público. Infelizmente, ocorreu um atraso no início do evento, justamente pela quantidade baixa de público que estava lá no horário combinado. Mas nós, organizadores, mediador e autores, colocamos a cara a tapa e começamos mesmo assim. Creio que estava batendo na casa das 15 pessoas quando começamos. Ficamos apreensivos e com razão, mas à medida que o evento era tocado para frente, foram aparecendo mais e mais pessoas. Pouco antes do terceiro e último bloco chegamos à marca de 82 pessoas presentes (fora autores e organização), contando com esses, foram 104 pessoas. Um público muito bom para os padrões de Brasília. Ficamos muito satisfeitos e gratos por cada pessoa que compareceu!  


Sorteios

                Os sorteios, acho que todos irão concordar, foram um show a parte. Mais uma vez devo bater palmas para a mediação brilhante do Jornalista/Autor Marcos Linhares, que transformou o que seria um simples sorteio de brindes num divertidíssimo “bingo” digno de rodadas de um Cassino em Las Vegas. A cada sorteio (depois que a Jéssica anunciava o que era) era uma atuação diferente. Quando ela aumentou os prêmios então, ninguém mais segurava Marcos Linhares. Eu espero muito sinceramente que alguém tenha registrado em vídeo, pois foram momentos impagáveis que só quem estava lá vai poder saber com exatidão o que eu estou falando aqui.


Conclusão

              A literatura brasileira está mudando e estamos sendo testemunhas disso. A cada dia que passa mais jovens promessas aparecem e mais leitores vorazes surgem pedindo por mais obras nacionais. A valorização e o fomento da nossa literatura não começam nas editoras e sim na vontade que cada um tem de realizar o seu sonho. Seja ele escrever um livro ou divulgar um livro. Acredito que eventos como o Mochila Literária trazem muito disso. Em uma de nossas muitas reuniões, eu disse a Jéssica que não poderíamos fazer nada sozinhos. Teríamos de nos unir, de juntar forças para tornar nossos sonhos e desejos possíveis. Esse evento provou que a união faz a força, que juntos podemos mais. Espero que cada autor e leitor tenha levado para si uma boa lembrança das mais de quatro horas que passamos juntos.





     A Leitora Sempre está aí para formar novos e eternos leitores e a Academia Literária-DF está aí para trazer novas promessas.

                Vocês ainda vão ouvir muito falar de nós.

                Até a próxima, leitores.

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26/05/2014

O que é um livro digital?


O que é um livro digital?


Nós sabemos que o mercado de livros digitais é uma tendência que cresce no Brasil. Mas será que as pessoas sabem o que é um livro digital? Será que o livro digital vai substituir o amado e querido Livro de papel? A Academia Literária decidiu trazer notícias sobre esse mercado e quer saber de vocês leitores o que vocês acham do livro digital. Então vamos ao conhecimento.

Segundo os dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil", realizada pelo Instituto Pró-Livro, 70% dos entrevistados nunca ouviram falar em livros digitais ou e-books.

A diretora da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Susanna Florissi, garante que o livro digital, ou e-Book, já é uma realidade, mas tanto o mercado editorial como os consumidores ainda precisam se adaptar à nova plataforma de leitura.
        
Os Livros Digitais tem vários formatos. Uns são mais simples, como o próprio PDF, que muitos profissionais não consideram como livro digital mas nós leitores consideramos; temos o ePub; e existem também livros digitais muito mais elaborados, que são mais caros de serem produzidos, como os livros interativos, que tem som, movimento, vídeo no livro.

O PDF é um formato mais "duro”, sem adequação, por exemplo, do tamanho da letra, mas é de fácil acesso e compatível com praticamente todos os computadores, tablets e smartphones. O ePub é a plataforma mais popular para eBooks, é estático e oferece adequação do tamanho da letra. Já os aplicativos são produtos desenvolvidos para ter mais interatividade e possibilidades, como movimento, áudio e vídeo


Você já deve ter encontrado vários termos que fazem alusão ao termo “e-book”, tais como:

  • e-book;
  • ePub;
  • PDF;
  • MOBI.



Provavelmente, essa quantidade gigantesca de termos acabam confundindo o visitante, não permitindo que ele saiba o que está baixando (gratuitamente) ou comprando. A verdade é que todos esses termos remetem a um único: Livros Distribuídos em Forma Digital, ou seja, não impressos.

Portanto, o livro digital nada mais é do que uma outra forma de distribuição do texto produzido por um autor, seja ele um livro didático, livros de literatura, jornais, revistas, HQs, textos ou áudio-livros. Seja qual for o material lido, o livro digital acaba englobando todos.

Vale lembrar que não devemos confundir o Livro Digital com o Livro Eletrônico. Apesar do termo “livro eletrônico” ser muito utilizado para se referir ao Livro Digital, é uma forma errada de se falar, levando o consumidor ao erro, pois o livro digital não é um livro eletrônico, mas sim um livro distribuído de forma eletrônica.

Assim, já que determinamos a terminologia correta, vejamos o que é cada item:


  • E-BOOK
O e-book é o termo americano para “livro digital”. E como já vimos, livro digital é uma forma de distribuição de textos. No entanto, muitos acreditam que e-book é um formato de livro, quando na verdade ele não passa de um termo, não de um formato, eis a grande confusão.
Um e-book pode ter diversos formatos, sendo os mais comuns o ePub, o MOBI e o PDF, que serão interpretados de forma diferente pelos dispositivos (computadores, iPad, iPhone e Kindle) para sua leitura. 


  • ePUB

A forma correta de escrever é “ePub”, e quer dizer “Publicação Eletrônica”. O ePub é um formato aberto, criado pelo Fórum Internacional de Publicação Digital – IDPF. A ideia do ePub é permitir que a experiência de leitura seja similar em qualquer tamanho de tela do dispositivo de leitura.
Por ser totalmente feito em HTML e CSS, a versatilidade que o ePub fornece é gigantesca! Com esse formato você pode fazer pesquisa de um termo no texto, aumentar ou diminuir o tamanho da fonte, alterar o tipo de fonte utilizada, e até alterar a cor que a fonte irá utilizar. Tudo isso pra ser mais adequado ao padrão de leitura do usuário.


  • PDF

O formato PDF é muito difundido na internet, principalmente por já ser utilizado em larga escala. Porém, infelizmente, não é um formato ideal para leitura em dispositivos móveis. O seu grande problema está em não se adequar às necessidades do leitor, como o ePub faz.
O PDF é um formato para arte final, isto é, uma vez produzido o arquivo, não há como alterá-lo. Desse modo, ler um livro em PDF em um iPhone, por exemplo, pode se tornar algo irritante. É necessário dar zoom in e out a cada parágrafo. Diferente do ePub que permite aumentar ou diminuir a fonte sem muita dificuldade, mantendo a escolha por todo o texto.


  • MOBI

O MOBI é um padrão utilizado somente pelo dispositivo da Amazon, o Kindle. O funcionamento do MOBI é muito similar ao ePUB, porém, por ser utilizado somente no Kindle, podemos dizer que é um formato “fechado” e muito pouco conhecido. Muito diferente do ePub e do PDF.





A Academia Literária DF também deu 5 dicas para publicar seu livro digital, Clique Aqui!
 Se você tem algum livro digital publicado, por favor deixe o seu feedback.



Espero que com essas explicações, não haja mais dúvidas sobre o que é um livro digital (e-book). Agora é só montar a sua estante ou biblioteca e ler nas horas precisas e vagas. Mas se ainda estiver com dúvidas, por favor, não hesite em perguntar nos comentários.

Digam-me leitores: vocês preferem Livros e papel ou Livros digitais? Responda nos comentários e boa leitura!






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25/05/2014

PROMOÇÃO: Você e os personagens de "Entre o céu e o Mar"


Bom dia, leitores!
Hoje eu trago para vocês uma promoção, daquelas que mesmo os que não gostam de promoções (alguém não gosta de promoções?) não pode perder!

Vocês conhecem o nosso parceiro da Academia +Robson Gundim não é? Se não, confiram nossas postagens de parceria clicando aqui.
Ele, junto com a Academia e outros blogs parceiros se uniram para te dar uma oportunidade única: ter uma imagem feita pelo próprio autor, com você ao lado de seu personagem preferido!


Isso mesmo. O autor dessa ilustração ai acima vai desenhar VOCÊ ao lado dos personagens de seus romances.
Para concorrer é muito simples:


- Curta a página do livro Entre o céu e o mar;

- Preencha o formulário com o nome de sue personagem preferido (veja descrições mais abaixo) e e-mail para contato.

- A promoção vai até o dia 24 de junho;

E pronto! Para mais chances é só preencher o formulário com as outras opções, mas não é obrigatório!


Vamos conhecer agora, os personagens que ganharam vida através dos traços desse excelente escritor/ilustrador:
Clique aqui

Annette Legrand

Possui um caráter especial. Bela, aventureira e muito corajosa, ao deixar o colégio ela preferiu os campos a
ter de viver na cidade grande. Apesar da bravura, é dona de um bondoso coração e admite não suportar os costumes exagerados da nobreza que oprimiu a sua mocidade. Annette é muito curiosa, pensativa e sempre tem as palavras corretas para desvencilhar-se das bruscas perguntas, no entanto, carrega um espirito sensível que muitas vezes a permite fraquejar. Ela possui duas fases, sendo tanto camponesa quanto pirata, e em cada situação apresenta o melhor de sua personalidade!





                                                                               Richter Belmont

É o último sangue vivo dos Belmonts, tão livre quanto o vento, indomável quanto o tempo, poderoso quanto
o sol, enlaça a vida da mulher que nunca pôde esquecer, entregando-se a um sentimento o qual jurava nunca ter conhecido ou, tampouco, ouvido falar. Richter passou por um grande trauma ainda quando criança, e por essa razão é reservado por natureza. Domina uma forte personalidade e ao tempo em que é uma pessoa amigável, também pode ser tornar uma criatura feroz. Somente Annette, dentre todas as belas, é quem consegue dominar essa “fera”.




Nicholas Willefort

É o nobre herdeiro do império Willefort, muito elegante, cortês e amigável. Conheceu Annette no sofisticado colégio da grande cidade, onde, com o passar do tempo, tornaram-se noivos. Embora seja proveniente do berço da nobreza, ao contrário da irmã e dos pais, Nicholas carrega uma alma solenemente humilde e piedosa. É pensativo, inteligente, mas muito dependente e solitário. Essa característica unânime o trará graves problemas no decorrer da trama...







                                                                               Vasseur Legrand


Vasseur Legrand é irmão de Annette, e embora apareça apenas no segundo volume, não deixa de ser um
dos personagens centrais. Vasseur, desde pequeno, já demonstrava dotar de um caráter inquestionável por desejar uma vida sem regras, tampouco imposta pela sociedade. Ele é do tipo que não recebe (ou melhor, não aceita) ordens, mas seus atos por vezes se igualam aos de um cidadão respeitoso.






Charlotte Renard

A jovem Srta. Renard sabe como tirar proveito da feminilidade. Roubou o coração de Vasseur, quando o mesmo a libertou de uma vida rigorosa num dos mais longínquos vilarejos da Romênia. Ao tempo em que é bela, também possui incríveis habilidades disfarçadas pelo seu olhar sedutor...












Adrian

Seu passado é uma incógnita. Sua existência é obscura. Seu nome é Adrian, apenas... Nada sabemos sobre
ele, senão que é um pirata que velejou por anos e conseguiu escapar do mar negro em busca do desbravamento do mundo. Dizem que ele não conhece o medo, apenas a dor; e que o seu olhar tem a grandeza de sondar qualquer alma feminina.





Escolham já o seu personagem!
Vocês não podem perder, leitores!

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23/05/2014

O Diabo




Tinham metido tantas caraminholas na cabeça da pobre Luizinha, que a coitada, quando, às dez horas, apagava a luz, metida na cama, vendo-se no escuro, tinha tanto medo, que começava a bater os dentes... Pobre Luizinha! Que medo, que medo ela tinha do diabo!
Um dia, não pôde mais! E, no confessionário, ajoelhada diante de padre João, abriu-lhe a alma, e contou-lhe os seus sustos, e disse-lhe o medo que tinha de ver uma bela noite o diabo em pessoa entrar no seu quarto, para a atormentar...
Padre João, acariciando o belo queixo escanhoado, refletiu um momento. Depois, olhando com piedade a pobre pequena ajoelhada, disse gravemente:
 Minha filha! Basta ver que está assim preocupada com essa ideia, para reconhecer que realmente o Diabo anda a perseguí-la... Para o tinhoso amaldiçoado assim é que começa...
 Ai, senhor padre! Que há-de ser de mim!? Tenho a certeza de que, se ele me aparecesse, eu nem forças teria para gritar...
 Bem, filha, bem... Vejamos! Costuma deixar a porta do quarto aberta?
 Deus me livre, santo padre!
 Pois, tem feito mal, filha, tem feito mal... Para que serve fechar a porta se o Amaldiçoado é capaz de entrar pela fechadura? Ouça o meu conselho... Precisamos saber se é realmente ele que quer atormentá-la... Esta noite, deite-se, e reze, deixe a porta aberta... Tenha coragem... Às vezes, é o Anjo da Guarda que inventa essas coisas, para experimentar a fé das pessoas. Deixe a porta aberta esta noite. E, amanhã, venha dizer-me o que se tiver passado...
 Ai, senhor padre! Eu terei coragem?...
 É preciso que a tenha... é preciso que a tenha... vá... e, sobretudo, não diga nada a ninguém... não diga nada a ninguém...
E, deitando a bênção à rapariga, mandou-a embora. E ficou sozinho, sozinho, e acariciando o belo queixo escanhoado...
E, no dia seguinte, logo de manhã cedo, já estava o padre João no confessionário, quando viu chegar a bela Luizinha. Vinha pálida e confusa, atrapalhada e medrosa. E, muito trêmula, gaguejando, começou a contar o que se passara...
 Ah! Meu padre! Apaguei a vela, cobri-me toda muito bem coberta, e fiquei com um medo... com um medo... De repente, senti que alguém entrava no quarto... Meu Deus! Não sei como não morri... Quem quer que fosse, veio andando devagarinho, devagarinho, devagarinho, e parou perto da cama... não sei... perdi os sentidos... e...
 Vamos, filha, vamos...
 ...depois quando acordei... não sei, senhor padre, não sei... era uma cousa...
 Vamos, filha... era o Diabo?
 Ai, senhor padre... pelo calor, parecia mesmo que eram as chamas do inferno... mas...
 Mas o que, filha? Vamos!...
 Ai, senhor padre... mas era tão bom que até parecia mesmo a graça divina...

Olavo Bilac

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22/05/2014

Parceiro da Academia - Renan Carvalho - A Estrela dos Mortos


E por último, mas não menos importante, só nos resta esperar pelo lançamento de “A Estrela dos Mortos”, segundo livro da série SuperNova. Com lançamento para 2014, já descabelando seus fãs por não ter uma data definida, mas o autor muito bom já adiantou a Sinopse e o Prólogo para acalentar os corações.

Então no post de hoje, vou falar sobre “A Estrela dos Mortos”, continuação de "O Encantador de Flechas", do nosso parceiro Renan Carvalho. Importante informá-los que o livro ainda não teve a capa divulgada, o que gera mais ansiedades nos fãs. Antes de conhecer a obra vamos seguir uma dica do autor:
 "Coloquem o som na caixa e experimentem as primeiras páginas de A ESTRELA DOS MORTOS"
Música ideal para entrar no clima do livro - Clique aqui



Supernova – A Estrela dos Mortos


APRESENTAÇÃO
Novos Desafios

O mundo de Supernova é um lugar complexo, belo pela diversi­dade que apresenta e perigoso pelos desafios que contém. As cidades imensas trazem profundos problemas sociais, povos diferen­tes lutam por soberania, conflitos políticos se estendem até batalhas sem motivos e pessoas tiranas fazem de tudo para conseguir o tão almejado poder; algo comum na natureza do ser hu­mano.

A civilização do homem cresceu rapidamente, dominou os polos e todas as áreas centrais do globo. Hoje, beira uma guerra civil, na qual humanos matam humanos por causas cada vez mais banais.

É nesse ínterim que o segundo livro da série se contextualiza. Novos desafios serão enfrentados, outra vez de perspectivas diferentes: de um lado Leran, que após a ascensão de Nagisa e Babo ao poder de Acigam, viu-se obrigado a deixar a cidade com sua irmã, evitando ser preso por crimes que não cometeu. Do outro lado a trama apresenta Tlavi, mestra da Ordem dos Paladinos e Estrela da Cura, que enfrenta os mistérios de um inimigo perigoso que desperta as forças das trevas no território pacificado de Sonatri — O Reino Central.

O caminho destes personagens está ligado pelo destino. Será que poderão lutar juntos para descobrir como vencer os novos inimigos? Poderá Luana despertar sua verdadeira força? E Leran, como agirá diante da evolução dos poderes da irmã? É isso que vamos descobrir em “A Estrela dos Mortos”, o segundo livro de Supernova.







Prólogo
“Há milhões de anos, seis deuses irmãos criaram o mundo. Preencheram-no com suas energias e suas maiores virtudes. Conforme haviam consentido, cada um controlaria uma parte da criação, isolados. Ao se materializarem naquele lugar, eles assumiram identidades mais adequadas ao novo ambiente e em seguida, deram vida a seres diversos, que seguiram a forma de seus criadores. Terra foi o primeiro a seguir para a criação. Lá, o deus moldou um enorme deserto e se embrenhou no solo, ajustando seu corpo em um inseto vigoroso de carapaças rígidas e fortes. Seu poder gerou animais que habitaram as areias, além de plantas exóticas e inúmeras florestas nos arredores do domínio árido. Ar voou para perto das encostas e lá fundou um gigante ninho para que seus filhos crescessem. Dotado de penas e grandes asas, o deus dominou os céus e povoou seu recanto com aves belas. O fundo do oceano foi a escolha de Água. Escamas, guelras e tentáculos brotaram na deusa. Suas crias a seguiram para as profundezas mais escuras e se multiplicaram, habitando as águas. Fogo, por sua vez, viajou para o alto das montanhas mais quentes e tomou a forma de um feroz réptil alado, com bocarra imensa, longa cauda e um perigoso hálito fervente. Seu poder trouxe ao mundo outros seres cheios de escamas que se espalharam pelas terras escaldantes. Luz ergueu seus domínios sobre as amplas planícies, lugar onde o sol brilhava incessantemente. Sua forma era bela, a pele brilhava como o cristal e os olhos emanavam cores encantadoras. Por aquelas terras, mamíferos corriam e se alimentavam da relva. Por fim, Treva buscou o lugar mais sombrio para se instalar. Encontrou, no extremo sul, um grande abismo e lá seus filhos macabros nasceram. Longe da luz e do calor, a deusa era pálida, quase translúcida, através da pele via-se parte dos órgãos funcionando. Sua cria tinha as mesmas características: anfíbios e vermes de forma decadente. Em pouco tempo, os deuses também deram vida a seres inteligentes e cada um dos domínios se tornou lar de uma civilização. Tais povos eram formados por criaturas semelhantes e devotas a cada um dos deuses que as criaram. Os seis senhores do mundo governaram seus recintos, sem interferir nos domínios dos irmãos. Mas mesmo que não tivessem a intenção de expandir seus territórios, suas energias eram grandiosas demais para se limitarem a pequenos lotes de terra. Aos poucos, o poder dos deuses se espalhou, mesclando as diferentes energias, o que trouxe consequências. A maior e mais importante delas foi o aparecimento de uma nova raça inteligente, banhada pelas seis forças, filha de todos os deuses ao mesmo tempo. Logo essa prole ficou mais forte e decidiu dominar as demais. Em pouco tempo, os deuses assistiram seus filhos lutarem em uma guerra violenta que resultou na extinção de muitas raças. Sobrou apenas a última, aquela cuja estrutura era mais dinâmica, mais adaptável às diferenças do mundo: a raça humana. Sem mais contar com seus seguidores fiéis, os deuses voltaram a atenção para os homens. Queriam dominá-los como faziam com seus primeiros filhos. Mas estes seres eram diferentes dos anteriores. A força dos deuses não surtia o mesmo efeito sobre eles. Os humanos precisavam ser seduzidos, doutrinados. Assim, os senhores do mundo mudaram suas estratégias para conquistar a nova raça. Todos conseguiram fiéis, mas dois deles foram muito mais efetivos nessa aproximação. O primeiro recebeu dos humanos o nome de Phelgor — o Pai Sol, o Senhor do Dia —, a segunda fora batizada de Shazp — a Mãe da Escuridão, a Lua que Míngua — e entre eles, a maior batalha se iniciou no berço da civilização humana. De um lado, os homens que cultuavam as Trevas, poderosos dominadores das energias negras, modeladores da morte, manipuladores da discórdia e do pânico. Do outro, os seguidores da Luz, os que se guiavam pelo sol, purificavam os malditos e orientavam a cura. A batalha foi longa e sangrenta, mas Shazp acabou derrotada, sendo banida do Reino Central, de volta ao abismo. Seus seguidores foram condenados à guilhotina, sem nenhuma piedade. Phelgor pensou ter livrado a raça humana de sua maior inimiga, mas ele não imaginava que o isolamento nas sombras falharia em enfraquecer a Senhora da Escuridão, assim como a morte não era suficiente para àqueles que foram devotos a ela. O deus deveria saber que o Equilíbrio daria à Shazp uma chance de ressurgir. Afinal, no mundo tudo acontece em ciclos… e um novo ciclo, desta vez guiado por trevas, não demoraria a surgir.” — Mitologia Antiga — Acervo da Biblioteca de Nuanto

Opinião do Leitores: 

Carla Caroline 
“OH DEUSES! Mega Ansiosa pelo segundo livro! Será tão bom e surpreendente quanto o primeiro!”

Igor Lima
"Uhuuuu :3 finalmente uma parte do livro 2! Agora so falta o livro fisico!"

Pedro Natanael
Aguardando atentamente, não vejo a hora de loder ler esse livro *-*


Ansiosos? Também estamos, queremos ver a continuidade da série e agradecemos ao autor pela parceira e toda atenção dada. A Academia deseja sucesso para você Renan! E agora só falta, o Booktrailler e que venha logo o livro.
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20/05/2014

RESENHA - Herança de sangue (Priscila Xavier)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: XAVIER, Priscila. Herança de Sangue. 1ª edição. Campo Grande, Modo Editora, 2013. 148 páginas.
Gênero: Romance Sobrenatural.
Temas: Bruxaria, vingança, seres sobrenaturais, segredos familiares.
Categoria: Literatura Nacional.
Ano de lançamento: 2013













“Eu engoli à seco. Era uma coisa espantosa – como ela sabia de tudo? Eu havia me esquecido o detalhe de ela ser uma bruxa.
Ela segurou minha mão e disse que eu teria de ter o maior cuidado daquele dia em diante, pois eu estava sendo vigiada por espíritos malignos, e que quem os mantinha perto de mim, não estava brincando. Eu teria que aprender o que me fora dado por herança, pois minha vida dependia de aprender o meu legado, minha sina.”
*Herança de Sangue (pág. 65).


                Ana vivia em uma cidade interiorana, tinha uma melhor amiga/sócia que era quase uma irmã e estava contente com os últimos preparativos para a festa de inauguração de sua pousada. Envolvida pelo trabalho, começou a sentir uma presença estranha que a rondava onde quer que estivesse e, simultaneamente, eventos bizarros começam a acontecer. Uma noite, numa balada, conhece uma homem misterioso e sedutor que jamais passaria de um ilustre e encantador desconhecido não fosse o fato de ele tê-la socorrido após um acidente de carro horas depois. Em poucos dias, Ana vê sua vida ser tomada por forças que obviamente queria lhe fazer mal. No auge do desespero, uma revelação tão inesperada quanto assustadora: sua mãe foi uma grande bruxa que se enamorou por um bruxo das trevas; e ela teve uma irmã mais velha que, corrompida pelo pai, tornou-se cruel e maligna. A razão de Ana não conhecer sua origem? Sua mãe havia fugido do marido e da primogênita a fim de salvar a vida da criança que carregava no ventre – Ana – e que ambos desconheciam. A razão para os estranhos acontecimentos e para a presença maligna que a rondava nos últimos tempos? Sua irmã, julgando ter sido abandonada e desprezada pela mãe, queria vingança e desejava tomar pra si o poder latente em Ana e se tornar a bruxa mais poderosa dos últimos tempos. A razão para o encantador desconhecido estar sempre por perto? Ele era um antigo amigo de sua mãe que jurou protegê-la. Diante de tamanha reviravolta em sua vida, Ana terá que aceitar a existência de seres e poderes sobrenaturais, aprender a usar os dons que herdou de sua mãe – e que nem mesmo sabia possuir – e enfrentar sua maior inimiga: sua irmã Eva.
                “Herança de sangue” é a história de uma mulher comum cuidando dos assuntos comuns de uma vida corriqueira que descobre de maneira inesperada a existência de todo um mundo fantástico e sobrenatural. E descobre da pior maneira possível: sua irmã (que sequer sabia existir!) é uma bruxa maligna que pretende roubar seus poderes (que ela também não sabia possuir!!) e matá-la no processo. E a história se desenrola tendo Ana como foco principal enquanto ela tenta compreender esse mundo novo e, simultaneamente, aprender feitiços e segredos a fim de se defender de sua irmã Eva e proteger sua própria vida e de seus amigos.
                A obra da brasileira Priscila Xavier apresenta uma trama muito interessante e promissora, mas peca no desenvolvimento. Há uma personagem chamada Domitila – com participação importante na história – que é integrada à trama de maneira inesperada e sem maiores explicações; personagens comuns (leia-se humanos sem qualquer vínculo ou noção de magia ou assuntos sobrenaturais) tomam conhecimento ou presenciam os eventos bizarros envolvendo a protagonista sem apresentarem ao menos o mínimo de estranheza ou receio que seria de se esperar; o cãozinho de Ana, seu companheiro, desaparece e reaparece dias depois sem qualquer esclarecimento. Os acontecimentos ocorrem de forma muito acelerada e pouco elaborada (e isso nada tem a ver com o fato de o livro ser relativamente curto – 148 páginas). Mesmo as reviravoltas, as revelações e o clímax são excessivamente sucintos e pouco impactantes. Superficialidade: esta é a palavra que melhor define esta obra, tanto no que diz respeito ao desenrolar da trama quanto à criação dos personagens. Não que faltasse criatividade para tanto. A impressão que se tem é que o livro foi todo escrito de um fôlego só, como se fosse um roteiro para ser reescrito posteriormente. Entretanto isso não aconteceu. E o que o leitor tem em mãos é uma obra com um bom enredo e com grande potencial cujo desenvolvimento mal elaborado e o excesso de furos estragam o que poderia ser uma excelente leitura.
                Narrado em 1º pessoa, tendo Ana como narradora/personagem, “Herança de Sangue” apresenta-se como uma narrativa linear. A autora acertadamente opta pelo coloquialismo. Entretanto, o texto carece de uma revisão cuidadosa evidenciada pelos erros de pontuação, principalmente pelo excesso de vírgulas mal posicionadas.  A diagramação do livro merece todos os elogios: capa bonita e intrigante, ilustrações de início de parágrafo e letra capitular, pequenas imagens com referência à magia em todas as páginas.
                A autora dessa obra é a fluminense Priscila Xavier, nascida na cidade de Pirai (RJ). Promotora de vendas, locutora de eventos, professora primária, casada e mãe de duas meninas, Priscila faz sua estreia no cenário literário nacional com “Herança de Sangue”. Com temática mística e sobrenatural, uma leve pitada de romance e um segredo de família que muda tudo o que a protagonista conhece, essa obra possui os elementos que interessam aos leitores que apreciam histórias que apresentam uma alternativa à realidade cotidiana. Para finalizar, é válido revelar: o desfecho deixa um interessante gancho para uma possível continuação. É uma ótima oportunidade para a autora corrigir os erros desse primeiro volume e aproveitar todo o potencial da história de Ana e, desse modo, elaborar uma história que cative irremediavelmente seus leitores.





Bibliografia de Priscila Xavier (ordem cronológica):

Livros:

  • Herança de Sangue – Modo Editora (2013).
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PROMOÇÃO: Aniversário do blog Leitora Sempre


Boa tarde, leitores!

A blogueira parceira Jéssica Rodrigues, do blog Leitora Sempre vai comemorar o aniversário de dois anos do blog dela! E vamos cantar parabéns presenteando nossos leitores com DOIS sorteios! Nós, junto com outros blogs amigos estamos sorteado várias obras para dois sortudos. A promoção de niver será válida até 20/06 e será um ganhador por kit.



Regras:

- Preencher o Rafflecopter corretamente.

- Os blogs terão o prazo de 40 dias para enviar seus respectivos prêmios.

- Os vencedores deverão responder o e-mail com seus dados no prazo de 3 dias após seu recebimento, caso contrário será feito um novo sorteio.

- O vencedor deverá residir em território nacional e não nos responsabilizamos por extravio dos correios.





KIT 2

Caminhos InfernaisEsconda-seHerança de Sangue


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Boa sorte, leitores.

E Feliz Niver, Leitora Sempre!!!!


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16/05/2014

A Cabeça do Tiradentes


Tradição mineira

Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio?
Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei, como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens.
Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo.
A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos.
Ah! falei-vos em caveira!...
E não é, que esta ideia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?!
Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto.
E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.
Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes.
É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra.
Essa história eu a poderia intitular:

História de uma Cabeça Histórica
I

Era pelos fins do século passado; em 179...
Nesse tempo, esta capital de Minas, que então com justa razão tinha o nome de Vila Rica, era opulenta e populosa, como bem poucas cidades se podiam contar no Brasil.
Os governadores e fidalgos dessa época rodavam em ricas carruagens tiradas por possantes mulas por essas ladeiras, onde hoje só rincham pesados carros puxados a bois.
Havia quase sempre curros ou touradas, e cavalhadas magníficas; procissões de esplendor e riqueza deslumbrantes; espetáculos teatrais, em que a arte suntuosamente protegida pelos governadores era cultivada com esmero no gosto da época; uma literatura própria, se bem que um tanto abastardada pela imitação do classicismo lusitano, literatura de que foram dignos representantes nomes até hoje célebres.
Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa são glórias, que nunca mais se eclipsarão.
Havia regozijos e festas de toda a espécie, muito luxo, comércio interior ativo, e o povo nadava na abundância.
E tudo isso por quê?
Porque naquela época o ouro por essas montanhas como que brotava à flor da terra.
O ouro era tão abundante, que os próprios pretos cativos, com as migalhas que escapavam das lavras de seus senhores, edificaram mais de um templo magnífico, que até hoje aí estão, e as pretas, quando iam às suas festas costumeiras, polvilhavam a carapinha com areia de ouro.
Mas em contraposição a tudo isso, o povo gemia debaixo da mais vil, da mais infamante escravidão. 
O bem-estar material era grande; mas a degradação moral era profunda.
Ali sobre aquele morro se erguia o vulto sinistro e ameaçador da forca, que nunca se desarmava, e em que a um simples aceno da tirania, apenas com uma aparente forma de processo, se imolava tanto o criminoso como o inocente.
Acolá, no meio daquela praça pública, em face de um templo cristão, – como um sarcasmo vivo, – até bem pouco tempo se achava alçado o pelourinho, ainda mais infamante, em que o cidadão era azorragado publicamente, como o mais vil escravo.
Os capitães-mores também de sua parte castigavam arbitrariamente com açoutes, com o tronco e até com a palmatória as mais leves faltas de seus governados.
O ouro extraído das minas pelo braço do povo era na sua maior parte destinado a alimentar o luxo e a cobiça de seus opressores.
Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada em proveito da metrópole.
O povo era uma turma de escravos, que trabalhavam debaixo do azorrague de seus feitores, – os governadores, capitães-mores, guardas-mores etc.
A fazenda prosperava; mas os escravos indóceis começavam a se enfadar de arroteá-la só para benefício de seus senhores.

II

E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça humana dessecada, cravada sobre um alto poste.
Este poste e esta cabeça eram noite e dia guardados por uma sentinela.
E à noite uma lanterna se acendia para alumiar o lúgubre espetáculo.
Havia dois ou três anos que este sinistro padrão da mais brutal e feroz tirania existia ali hasteado.
E por que razão esse cuidado em conservar ali tão guardado, tão vigiado, aquele triste e miserando resto de uma vítima há tanto tempo sacrificada?...
Para que aquela sentinela ali postada constantemente dia e noite?...
Temiam acaso que aquele crânio oco e ressequido onde há tanto tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal da revolta ao povo oprimido?...
Ou receavam que esse crânio, hasteado na ponta do estandarte da emancipação, fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse célebre tambor que os soldados húngaros fizeram da pele de seu bravo chefe Ziska, morto no campo da batalha, tambor que quando rufava à frente deles, era seguro prenúncio da vitória?
Pobre Tiradentes!... ainda que não fosse tão nobre e santa a causa por que te imolaste, a morte afrontosa que sofreste, e a crueldade, direi asquerosa, com que profanaram teus miserandos restos, eram motivos bastantes para abençoarmos tua memória e execrarmos a de teus algozes.

III

Era uma noite tenebrosa, horrenda, como essa que aí vai correndo.
Impetuosa ventania, zunindo pelos tetos da antiga e opulenta Vila Rica submersa no sono e no silêncio, impelia pelos ares camadas e camadas de espessa e frigidíssima neblina, e fazendo oscilar sobre seu poste a caveira do mártir da liberdade com sinistro estrépito, agitava-lhe os compridos cabelos castanhos ainda aderentes ao crânio.
Parecia que aquela cabeça heroica, bafejada pelo sopro da liberdade que rugia das montanhas, em seu fúnebre oscilar ameaçava ainda os tiranos, e lhes predizia a próxima ruína.
O pálido clarão da lanterna, que balouçava ao vento, ondulava lúgubre sobre a ossada branquicenta, desenhando ao vivo as cavidades negras dos olhos e a dentadura amarelada.
O pobre sentinela, talvez considerando que estava de guarda a um crânio ressequido que a ninguém podia fazer mal, e que longe de excitar a cobiça, só poderia inspirar horror, o sentinela sentado no chão, recostado sobre uma pedra, e com a arma sobre os joelhos, deixava-se furtar do sono.
Um vulto todo rebuçado surge por entre as trevas, e se aproxima cautelosamente do tremendo poste.
Com uma comprida vara que trazia, faz saltar do poste a caveira, apanha-a rapidamente, e de novo desaparece com o favor das trevas e do nevoeiro.
Tudo isto foi feito com tal presteza, que quando o guarda, despertado pelo som rouco da caveira ao cair, deu fé do ocorrido, já era tarde. Viu apenas uma sombra engolfar-se e desaparecer através do nevoeiro.
Um instante depois o relógio da cadeia badalava meia-noite.
O guarda contou que um fantasma de fogo, esvoaçando pelos ares, havia roubado o crânio, e desaparecera nas nuvens.
As sentinelas da cadeia atestaram o fato e o guarda do poste foi acreditado, e não sofreu castigo.
Não era mesmo para acreditar que o anjo do Brasil viesse reivindicar aquela relíquia veneranda do mártir da liberdade?...

IV

Conheceis essa comprida rua, que na extremidade ocidental desta cidade se estende isolada por uma encosta acima, como a cauda de um lagarto.
Chama-se a rua das Cabeças.
A origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos.
– Para servir de exemplo e escarmento aos povos – diziam os tiranos.
Mas os fatos vieram depois comprovar-lhes, que erravam, procedendo assim.
No alto dessa rua, não há muitos anos, existia ainda um velho de vida misteriosa e retraída, a quem o povo olhava com respeito e curiosidade.
Vivendo sozinho em uma casa quase arruinada, comunicando-se raras vezes com seus semelhantes e só em caso de necessidade, parecia um anacoreta ou um homem possuído de singular monomania.
Entretanto os curiosos, que nunca faltam nas cidades, espiolhando um dia pelas fendas das arruinadas paredes da morada do velho, devassaram um singularíssimo segredo de sua vida íntima.
Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou de um armário praticado na parede, tirar dele um crânio humano branco e mirrado, depô-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em frente a um oratório, e ajoelhando-se depois com os braços encostados sobre a mesa, assim ficar por largo tempo, em atitude de profunda meditação, ou no êxtase de uma oração.
Mas esta descoberta, como bem se pode ver, em nada veio dissipar o mistério que pairava sobre a vida do velho. Pelo contrário vinha ainda rodeá-la de mais um sinistro prestígio, e em vez de acalmar a curiosidade do povo, concorreu para mais excitá-la.
Que crânio seria esse, que o velho guardava, e parecia venerar com religioso acatamento?
Seria relíquia de algum ente amado?
Seria o velho algum assassino, que em expiação de seu crime queria ter sempre diante de si o crânio da sua vítima para lacerar continuamente a consciência com o cilício do remorso?...
Seria algum cenobita imitador de S. Jerônimo, que tinha sempre diante de seus olhos uma caveira humana a fim de conservar de contínuo presente ao espírito o nada da existência?
A maior parte do povo porém ficou tendo o pobre velho por um grande feiticeiro, e por isso tinha-lhe medo e o respeitava.
Assim pois, descobrindo aquele segredo da vida do velho ainda a tornaram mais misteriosa e quase sinistra.
Pouco tempo depois morreu o velho, foi pobremente enterrado no adro relvado da capela do Senhor Bom Jesus, sita na mesma rua, e sua casa tombando em ruínas, ficou abandonada, pois se já em vida de seu dono era objeto de terror para o povo, muito mais o ficou sendo depois de seu falecimento.
Não foi senão alguns anos depois, que se veio no conhecimento, de que o velho misterioso não era outro senão o ousado roubador da cabeça do Tiradentes, e que a caveira, que com tão religioso cuidado guardava e venerava, era a daquele ilustre e desditoso mártir do primeiro movimento emancipador.
Contou depois isto alguém, que era o único depositário do segredo do velho, e que por ignorância ou indiferença ligava pouca importância a um fato tão curioso.
Que é feito porém desse crânio histórico, que tão generosos pensamentos abrigou outrora em seu seio?
Quereria seu possuidor em sua fanática veneração pela liberdade e por aquela relíquia do seu principal mártir, que ela fosse com ele enterrada, e seria cumprida a sua última vontade?
Ou ficaria essa relíquia, – digna de ser encerrada em uma urna de ouro, – calcada debaixo dos entulhos das paredes esboroadas da habitação do velho?...
Ninguém o sabe.
Os fatos, que acabo de narrar, posto que pouco conhecidos, são tradicionais.
Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns moços mais curiosos, das coisas antigas da nossa terra, e se convencerão de que esta história não é de minha lavra.

Bernardo Guimarães



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