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29/08/2014

Uma Vingança




I

Num baile — já pouca gente; muitas cadeiras vazias.
Ela, sentada, um tanto abatida, identificada com o enfado e a fadiga de uma festa a acabar, a ouvir como por favor e com ar de sensível amuo e impaciente condescendência um homem no vigor dos anos a falar, ardente, arrebatado, numa grande agitação, sombrio, desconfiado, mas sóbrio nos gestos a conter-se calculadamente — ambos longe, bem longe daquele ambiente de alegrias e despreocupação, hostis um com o outro.
— Precisava, observava ele, explicar-me com toda a liberdade. Desde que cheguei do Rio da Prata, não achei uma única ocasião. Verdade é que a senhora tem feito estudo especial para não me consentir o menor ensejo. Isto não pode continuar assim; prefiro então romper de uma boa vez. Declaremo-nos logo inimigos irreconciliáveis.
— Pois fale; diga o que tem, o que de mim deseja.
— Aqui? Agora?
— Por que não? Onde quereria que fosse?
Esboçou Sofia Dias um movimento de displicência e incredulidade.
Inclinando-se para ela, lembrou então Mário Campos, com voz soturna e emocionada, cenas do passado e passado bem próximo ainda — meses quando muito — a sua posição de homem casado, e bem casado uns bons pares de anos, ante as seduções e inexplicáveis faceirices, quase facilidades de moça formosa e solteira. Tanto fizera — oh! escusado era querer protestar; a sociedade toda havia sido testemunha e sabia ser justa — que afinal perdera ele a cabeça, e lhe consagrara paixão cega, invencível, de inaudita violência.
Mera vítima ou não do artifício e dolo, durante não pouco tempo se supusera deveras amado. Rico, feliz, esposo de uma mulher bondosa, bonita e terna, de repente se sentira, sob o influxo daquele sentimento novo insuflado com raro talento sugestivo, o ente mais desgraçado do mundo, avassalado irremediavelmente por influência que zombara de todo o seus planos e tentativas de resistência. Que fazer então da vida, longa, tão longa naquele horrível desencontro! Como readquirir a felicidade perdida para todo sempre?
— Oh! interrompeu ela irritada e sardônica, há tantos modos de ser feliz...
Podia ser, sobretudo para aqueles que não calculavam o enlace dos atos e palavras. E por falar em palavras... certa noite, por exemplo, numa volta de bond do Jardim Botânico, ao luar, dissera-lhe ela uma frase, que lhe havia calado no espírito para nunca mais de lá sair. Fixara-se-lhe dentro d'alma com letras de fogo, que a cada momento do dia e da noite lhe luziam ante os olhos deslumbrados. Não se lembrava?
— Não; respondeu Sofia com sinceridade e algum assombro. Que poderia eu ter dito tão terrível e sinistro? Não me mete medo.
Quis sorrir; mas o sorriso pairou-lhe indeciso, frouxo, à flor dos lábios, desses sorrisos chamados amarelos.
Tivesse ela ou não medido o efeito, houvesse ou não sido mais uma simples leviandade, a sua boca a proferia, lembrasse-se bem do seu dito: "Ah! se você fosse livre!"
— Ora, protestou Sofia, empalidecendo seu tanto, uma hipótese...
E agora não estava ele livre, bem livre? Que significava, nessa nova situação o seu inopinado retraimento? Por que se mostrava ela tão esquiva, tão indiferente dos tempos de outrora, decorridos apenas seis meses empregados nessa indispensável — e apoiava no vocábulo — viagem ao Rio da Prata? Quando supunha encontrá-la vibrante de amor e saudades como ele, quando julgava alcançar a felicidade almejada a que tinha feito jus — oh! sim, tudo, tudo empenhara para consegui-la — aí a achava radicalmente mudada, outra, de todo outra! Por quê? De que servira então aquele ano de ardente afeto, pelo menos assim acreditara, de tamanhas promessas e juras? Não teria ele sido senão mero joguete de passageiro capricho, pretexto para ensaiar simples armas de namoradeira?
Sofia Dias mostrava-se cada vez mais impaciente. Fez até gesto de quem ia levantar-se.
Por que se dera toda aquela comédia? A sua infeliz mulher alvo de tantos remoques, motivo de contínuos reparos e críticas, exposta a incessante ridículo, até se lhe tornar positivamente insuportável. Não tinha gosto, não sabia vestir-se, escolher chapéus; inúmeras setas farpadas, envenenadas, na sua mal ferida vaidade de marido. Meros gracejos? Brinquedos de um coração mau, ardiloso, cruel, insensível? Oh! tomasse tento, aquela hora era decisiva. Passada ela, tiraria vingança tremenda; era de raça dos que não perdoavam.
E, ofegante, numa frase curta, dura, contava episódios até da infância, em que se afirmara a irresistível disposição ao desforço violento por qualquer ofensa ou injúria recebida. Sua mãe lhe dissera um dia: "Menino, você com este gênio há de acabar mal!" Quem sabia se o horóscopo não se ia realizar. Uma cousa lhe jurava. Alguém havia de pagar. Não se adiantara tanto, para ficar, perante todos, como triste símbolo de irrisão e escárnio, menosprezo e miséria.
E os seus olhos chamejavam, dolorosa crispação dos lábios lhe erguia o canto da boca. De longe, parecia estar sorrindo, todo entregue a animada, ainda que banal, conversa de baile.
Sofia o ouvia com expressão de extremo cansaço. Afinal rompeu o silêncio.
Confessava que a ele assistia alguma razão. Andara mal, concordava; solteira e pretendida por não poucos, não devera nunca ter alimentado um sentimento reprovável, que não tinha razão de ser. Saíra do seu papel natural e pagava as culpas da leviandade, sempre amarga. Naquele tempo não media as consequências de uns olhares mais quebrados e imprudentes e os efeitos perigosos de qualquer namorozinho. Aquilo lhe serviria de lição. Fora, aliás, bem sincera na hora em que pronunciara aquelas palavras, sem contudo lhes dar maior significação. Aludira, com real pesar, a cousa irreparável e contra a qual não havia lutar. E fora essa convicção que, pouco a pouco, lhe abrira os olhos, desviando-a do caminho errado que seguira. Não diz o provérbio que o que não tem remédio, remediado está? Na ausência dele, Mário, tanto lhe girara no pensamento essa verdade, que afinal pudera dominar-se. Quem, aliás, havia de imaginar, que tão cedo a pobre D. Beatriz sairia deste mundo, desligando com o seu desaparecimento laços que deviam ser eternos? Nisso o Barroso pleiteara a sua mão e ela não achara motivos para o repelir, bem parecido, inteligente, em bela posição política, ministro talvez breve; que dizer contra esse candidato?
— E você o ama, Sofia? Perguntou a custo, arquejante, o mal aventurado Mário.
— Amá-lo, não, mas enfim gosto dele, não há duvida. Creio que sou refratária a paixões violentas, arrebatadas. É outro o meu gênero...
— Sim, observou Mário, ludibriar aqueles a quem prende na rede dos seus olhares fatais.
Sofia deu um muxoxozinho:
— Bom, temos melodrama...
Amiudadas vezes passava o moço o lenço pelo rosto, limpando gotas de frígido suor. Insistia, porém.
Por que deixar de realizar o que era tão natural, uma vez apartado o único obstáculo que se interpusera entre os dois? Por ventura, valia ele menos do que esse intruso, o tal Barroso? Era, decerto, um pouco mais velho; mas tinha por si a precedência. Ninguém estranharia aquele casamento com quem tanta corda lhe dera numa época em que não deveriam ter sido aceitas as suas assiduidades. Culpa tivera ela, induzindo em erro tanta gente.
Sofia ensaiou um gracejo e com tom de remoque: — Para nós, solteiras, o senhor... você tem um grave defeito: é viúvo.
Pelos olhos de Mário relampejou um raio de ódio e ferocidade tão visível e intenso, que a moça estremeceu. Com os dentes apertados sibilou a resposta:
— Quem me fez viúvo, ouviu? Não tem o direito de me atirar isto em rosto, compreende?
E o seu olhar torvo, dardejante, desvairado, buscava ir ao íntimo de Sofia, explicando-lhe talvez mistérios terríveis, possibilidades de apavorar, completando a confissão confusamente bosquejada.
Por instintiva defesa fechou-se a moça, fazendo poderoso esforço para conservar-se calma, serena, alheia e superior a qualquer conivência, por longe que fosse. Via-se subitamente envolvida em tenebrosas complicações, ameaçada de perigos de que nunca pudera cogitar, e cujo alcance não lhe era dado medir; tudo isso vago, indefinido na mente conturbada.
Ao mesmo tempo surgia-lhe medo imenso, incoercível, daquele homem, cruel alvoroço por toda ela, penosas explicações, arrependimento indizível da sua leviandade e inconsideração, levada só e só pela ânsia das homenagens, viessem de onde viessem, o gosto de dominar e ser requestada.
Continuava Mário Campos ameaçador.
Tudo caminhava para a tragédia; assim pressentia. Quando quisesse ter mão em si, havia de ser tarde. Avisava...
— Então, interrompeu Sofia fingindo indiferença, temos agora intimidação? Quer levar-me pelo terror?
Ele, de súbito, muito manso e cordato, sem transição, pedia perdão dos seus arrebatamentos. Prometia ser brando como um cordeiro. Queria só o que lhe parecia justiça. Implorava se preciso fosse, compaixão, misericórdia. Tivesse Sofia pena da sua desgraça, de que fora a causa. Contara tanto com o seu amor, a sua lealdade, e agora... Que é que o esperava neste mundo, se se visse repelido, enxotado, quando arquitetara toda a existência numa base única, indispensável, aquele casamento. Para o tornar possível, não recuara diante de consideração alguma. Tudo, tudo antepusera a isso —tudo, tudo, estivesse certa.
E recomeçavam as reticências, as alusões vagas, mal indicadas, que deixavam Sofia toda fria, — não poderia dizer como, com verdadeiros calafrios pelo dorso, desses que, no dizer do povo, anunciam o esvoaçar da morte por perto.
Então, prosseguia Mário, de nada valiam provas do que existira entre eles?
— Que provas? Protestou altiva e surpresa a moça.
— Ora, as murmurações e o reparo da sociedade, durante mais de ano.
Sofia levantou os ombros com desdém.
— E as suas cartas, ardentes, incendiárias. Ah! Mostrá-las-ei ao mundo inteiro, a todos, a esse Barroso do inferno...
— Fora indigno da sua parte. O cavalheirismo...
Cavalheirismo? Replicava Mário Campos impetuoso, cheio de fel e ironia, quando tudo lhe tiravam, lhe arrancavam, lhe roubavam?! Depois do que lhe sucedia, não era, não podia ser um homem como qualquer outro. Havia de tomar o seu desforço do modo que melhor lhe aprouvesse, como um vilão, um miserável, uma fera. Dependia dela. Dos seus lábios estava suspensa a sua vida. Não lhe diria jamais tudo; mas a morte pairava sobre ambos...
— Sofia, Sofia! Implorava o mísero.
A moça, porém, abanava implacável a cabeça, pálida, os olhos sem fulgor, meio
cerrados, inquietos, mas enérgica, de tensão firme, inabalável.
— Não, não; não é mais possível...
Nisto um cavalheiro veio lembrar-lhe o compromisso de uma valsa.
— Tenho certo escrúpulo, disse ele um tanto malicioso, de interrompê-los; conversavam tão animados...
— O Sr. Mário Campos, replicou Sofia com toda a naturalidade, estava me contando a sua viagem ao Rio da Prata... bem interessante.
E lá se foi ela envolvida nos lânguidos eflúvios de cadenciada e vaporosa música.

II

Que existência a do desprezado Mário Campos!
Pareceu-lhe aquilo, a princípio, um sonho, um pesadelo, esse tremendo e inopinado capricho de loureira a perturbar-lhe todos os planos e cálculos e a exasperar-lhe a paixão por modo inacreditável.
Fez ainda algumas tentativas, procurou encontros, entrevistas; mas achou todas as portas fechadas, as valsas cortadas, esbarrando com uma resolução tão valente e decidida como a sua. Empenhava-se Sofia em mostrar-se de posse do maior sangue-frio; e a sociedade, curiosa e atenta, observava aquela espécie de duelo travado repentinamente entre dois entes, que, pouco antes, tanto lhe dera que falar em sentido bem diverso.
Caiu depois o moço em profundo abatimento. Tudo se lhe afigurou perdido, a mesma natureza em vésperas de definitiva destruição, apesar dos rutilantes esplendores dos mais formosos e festivos dias. Encerrado em casa semanas e semanas, nessa casa cheia de conforto e luxo em que não soubera dar o devido apreço à suave afeição da perdida esposa, reconcentrava-se num desespero medonho, tétrico; a sós com os mais negros pensamentos. Não lograva um momento de sossego, e, para conciliar uma ou duas horas de acabrunhado torpor, tinha que recorrer, após noites de absoluta insônia, a elevadas doses de morfina.
Aí emergiu-lhe das mais fundas entranhas ódio imenso, àquela mulher, e com ele sede ardente, incontentável, de estrepitosa vindicta. Ah! sim, queria, precisava por força vingar-se, mas de modo único, nunca visto, inexcedível, nem sequer imaginado. E tornou-se-lhe prazer exclusivo procurar que desforço seria esse, capaz, só em ideá-lo, de lhe aplacar um pouco tamanhas ânsias, fogo tão devorador e indomável.
Matá-la-ia sem vacilar; oh, sim! mas como fazê-la sofrer mil mortes, numa agonia intérmina, à maneira dessas aves de rapina, cruentíssimos açôres, que, por instinto infernal, dilaceram as vítimas membro a membro, pedaço por pedaço, lenta e quase cientificamente, poupando com cautela os órgãos essenciais à vida, a fim de se saciarem, dia a dia, de carne sempre sangrenta e palpitante?
Mataria, oh, sim! aquele homem... Tudo isso, porém, não fora tão banal? Que valia esse rival de ocasião? Eliminado da cena, outro o substituiria sem demora. Por tão pouco não se abate nem recua a perfídia da mulher. Para que, aliás, essa supressão de vida? Em muitos casos não é um favor a morte? Não representa a cessação da dor, do sofrimento, da vergonha? Por ela não suspirava ele, como supremo bem? Sim, também tinha que morrer. No perpassar de todas as odientas combinações, intolerável se lhe afigurava continuar a existir. Reservava essa tortura para Sofia; mas como transmudar tamanha concessão em martírio constante, em angústias sem nome, em indizível suplício, calcando para sempre nos pés o seu orgulho, conspurcando-a perante a sociedade toda, arrastando-a com eterno labéu, imprimindo-lhe na fronte sinal de inapagável ferrete?
Como?
Comparava os tempos anteriores ao amaldiçoado amor com tudo quanto ocorrera, uma vez ateada a criminosa e já tão flagiciada paixão. E a lembrança da esposa, tão boa em sua discreta feição, o enchia de pavor. Fugia de aprofundar consigo mesmo o incerto mistério... aquela janela aberta por noite frigidíssima, em Buenos Aires, ela a dormir fraca dos pulmões, presa então de perigosa bronquite... depois a pneumonia dupla... as vascas de terrível agonia num estreito quarto de hotel... Que momentos agora tão claros à sua memória...Parecia os estar vendo; bastava fechar os olhos. A pobrezinha, resignada, quase a sorrir, enquanto as lágrimas lhe rolavam silenciosas pelas faces, apertando a mão assassina, implorando proteção contra a morte que chegava... ele, com o pensamento fixo no Rio de Janeiro, ardendo de impaciência, brutalizando-a, doido por ver tudo acabado, concluso, findo, espreitando, espiando o último estertor, o derradeiro suspiro, a convulsão suprema, que ia desatar as cadeias do abominado cativeiro... Que indigna contraposição! De um lado tanta pureza e resignação; do outro tamanha maldade, tão satânica e baixa ferocidade. E para que o monstruoso atentado? Dele agora emergiam obrigatoriamente outros crimes, novas infâmias.
Sentia-se condenado. Justiça inteira havia de ser feita e pela própria mão. Era ponto decidido, indiscutível já no seu espírito. Ficaria, porém, impune a causa de tantos males? Impossível! Para benefício de todos, cumpria esmagar ente tão pernicioso, inutilizar de vez encantos tão perigosos e letais.
E parafusava, sem se lhe deparar nada que apaziguasse um tanto as iras exasperadas, em fremente ebulição. Depois... serenou. Mostrou-se por toda a parte altivo, calmo e indiferente. Tornou a frequentar teatros e lugares, falando no próximo enlace de Sofia com desembaraço e naturalidade, aplaudindo-o até. Declarou-se curado de mal entendidas e pueris veleidades. Chegou a cumprimentar a moça e, uma feita que se encontrou cara a cara com ela apertou-lhe a mão sem nenhum constrangimento ou perturbação.
A vários amigos falou em próxima partida para terras longínquas, e às rodas habituais levou um todo, senão risonho, pelo menos de tranquila e digna compostura. Publicaram-se então os primeiros proclamas do casamento de Lúcio Barroso com Sofia Dias, a qual se supunha afinal livre de qualquer complicação, toda radiante de alegria e felicidade, cada vez mais formosa, faceira e sedutora, nos lábios sempre róseo sorriso sobre nacarados dentes, boca úmida e apetitosa de tentar um santo.
Numa bela manhã, sobressaltou-se a cidade em peso. Acabara de suicidar-se com um tiro de revólver Mário Campos.
Sem declarar o motivo desse ato, recomendava que dessem imediata publicidade e pronta execução ao testamento por ele depositado, dias antes, no cartório do tabelião Matheus.
Nesse documento, feito de acordo com as mais restritas formalidades, distribuía vários donativos a institutos de caridade e legava alguns bens a parentes de sua mulher. Terminava, porém, pelas seguintes e terríveis palavras, que causaram escândalo enorme, ecoando por todos os cantos da capital:
"Eternamente grato a não poucas provas de afeição e condescendência, deixo os remanescentes, que calculo em 200 contos de réis, à minha amante D. Sofia Dias, devendo esse legado transmitir-se em qualquer tempo à sucessão legítima ou ilegítima, verificada em regra a filiação. Caso não seja a quantia reclamada logo, entregar-se-ão anualmente os juros à Misericórdia."
Dentro, duas cartas da imprudente moça, que se prestavam a muitas interpretações.
No meio da indignação geral, do profundo abalo de uns, revoltado pasmo de outros, da pungente ironia dos maldizentes e da compungida piedade dos bondosos, rompeu Lúcio Barroso com estrondo o casamento; e a mal aventurada Sofia, salteada de febre cerebral, por largas semanas esteve entre a vida e a morte.
Rumorejou-se as possibilidades de melindrosa justificação perante os tribunais; mas, afinal, a família toda, mãe e duas filhas menores, depois de meses e meses de sumiço, partiu para a Europa. Nunca mais se ouviu falar, senão vagamente, em Sofia Dias; parece que por lá se casara.
Ainda não foi até hoje levantada a ominosa herança... Quem nos diz, que será sempre repelido o maldito e infamante legado?
Assim seja!

Visconde de Taunay


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28/08/2014

GELADEIROTECAS







Geladeirotecas para trocas e empréstimos de livros livres.

Servido? Geladeira que funciona como biblioteca desperta curiosidade e incentiva leitura no DF.

Uma geladeira atrai toda atenção em uma praça pública do Guará II - QE 32. Dentro dela nada de comida,
mas sim uma infinidade de obras literárias e todas prontas para serem degustadas.

A ideia é exatamente essa "Abra a geladeira e devore um livro".  


O projeto surgiu de um grupo de quatro amigos do Guará II. A geladeira velha era do videoartista Lucas Rafael e, segundo ele, funcionava como um armário para guardar produtos de limpeza. E como surgiu essa ideia, Lucas relata: 

"Tive um insight de tirar da minha casa e expor ao público com conteúdo cultural que pudesse funcionar"


Cada amigo contribuiu para que esse projeto fosse para frente e mais pessoas tivesse conhecimento sobre a geladeiroteca. Julimar do santos, grafiteiro, realizou a arte na geladeira e Bruno Formiga, operador de áudio, ajudou a divulgar o projeto e promoveu uma festa com música e arte.







A divulgação ocorreu no dia 09/08/2014 e pode ser vista como aqui no Facebook.











A geladeira mantêm a integridade do livro e contém clássicos brasileiros como Machado de Assis. Você pode pegar um livro e sentar no banco da braça para ler ou pode levar para casa e devolver ao seu término.



Confira a entrevista sobre a Geladeiroteca do Guará II:
http://videos.r7.com/geladeira-guarda-livros-no-meio-da-praca/idmedia/53f686720cf23dee1298fc67.html

Em Santa Catarina eles também começaram a divulgar essa ideia só que em ponto de ônibus. Se quiserem saber mais sobre essa matéria cliquem aqui (http://www.bibliotecasdobrasil.com/2014/08/duas-geladeiras-tornaram-se-bibliotecas.html)




Os livros e a leitura são nossas paixões e nos acompanham em vários momentos de nossas vidas. É animador saber que em uma cidade do Brasil terá uma biblioteca versátil e que qualquer pessoa pode usar os livros. Sem contar que esta funcionará em um horário tão amigável para aqueles que não podem se deslocar até uma biblioteca durante a semana.


Para que as bibliotecas livres continuem funcionando os leitores precisam fazer com que seus livros circulem. Leia, empreste ou devolva. Faça um exercício de desapego e doe alguns de seus livros. Vamos manter o ciclo da leitura sem interrupções.




Essa ideia comprova que "Nada se Perde Tudo se transformar", e aqui ela tem uma boa causa.
Tomara que o público saiba preservar, aproveitar e apoiar essa iniciativa.

Parabéns pela Bela iniciativa!

Você conhece outras bibliotecas livres e versáteis? Tem informações sobre ela? Escreva-nos contando os detalhes. Envie um e-mail para academialiteráriaDF@gmail.com ou escreva no comentários.


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27/08/2014

Pesquisa aponta que leitura na infância favorece a inteligência



Olá, estimados leitores.
                Você aí do outro lado da tela tem filhos, afilhados, sobrinhos, netos, primos ou mesmos irmãozinhos menores? Tem alguma criança em casa? Sim? Então temos uma boa notícia pra você. Sabe esse delicioso hábito que adoramos cultivar, a leitura? Pois pesquisadores do Reino Unido constataram que “uma boa relação com a literatura no início da vida afeta positivamente diversas habilidades cognitivas na adolescência”. É isso mesmo que você entendeu, caro amigo leitor: ler favorece a inteligência!!!!
                Ou seja, além de proporcionar ótimos momentos de lazer ao seu filho, incentivar os pequeninos a ler desde novinhos é também um excelente método para ajuda-los a aguçar suas mentes. Quer saber como isso é possível? Então confira abaixo a transcrição da matéria escrita por Roberta Machado e publicada pelo Correio Brasiliense.

***

                Um estudo realizado com gêmeos idênticos no Reino Unido mostra que ler bem no início da infância pode afetar positivamente a inteligência da pessoa para o resto da vida.  A pesquisa, conduzida pela Universidade de Edimburgo e pela King’s College de Londres, comparou o nível de leitura de 1890 pares de irmãos por nove anos e constatou que os indivíduos que se davam bem com os livros a partir da fase da alfabetização desenvolveram habilidades cognitivas superiores na adolescência. A vantagem intelectual dos leitores, aponta o estudo, não foi restrita ao jeito com as palavras e se estendia também à capacidade de raciocínio em testes não relacionados à literatura. Os resultados podem influenciar na forma como especialistas lidam com a educação infantil.
                As crianças acompanhadas foram submetidas a testes de leitura e de inteligência aos 7, 9, 10, 12, e 16 anos. Eles passavam por testes de vocabulário e compreensão de texto, além de terem o conhecimento sobre autores populares sabatinado. A desenvoltura não verbal também foi testada em atividades que mediam o pensamento abstrato e a lógica dos pequenos. Como resultado, aqueles que liam melhor que seus irmãos também tinham desemprenho superior em testes de inteligência em cada fase da vida.
                “Podemos apenas especular as causas”, ressalta Stuart Ritchie, pesquisador de psicologia da Universidade de Edimburgo e principal autor do trabalho, publicado recentemente em Child Development. Ele aponta que  há duas causas principais que possam ligar a leitura ao desenvolvimento da inteligência: “Primeiro, ler permite que as crianças pratiquem habilidades de pensamento, como imaginar outras pessoas, momentos, lugares e objetos que não estão necessariamente na frente delas. Essas habilidades abstratas podem ser úteis em testes de inteligência e na performance intelectual de forma geral. Segundo, ler pode levar crianças a praticares a concentração e o tipo de habilidades necessárias em situações nas quais testes de QI são feitos.”

INFLUÊNCIA GENÉTICA

                A participação de gêmeos idênticos no estudo permite que os pesquisadores minimizem a influência de diferenças genéticas ou de criação no desenvolvimento das crianças. “Nunca dá para se excluir fatores genéticos, e acho que os pesquisadores não pretendem fazer isso. Por isso usuram gêmeos. Mas a questão é que a leitura é um fator determinante, com certeza, pois as crianças que não tinham essa habilidade tão desenvolvida ficaram um pouco para trás, mesmo sendo gêmeo”, analisa Augusto Buchweitz, pesquisador do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul. “Eles trabalharam com crianças que estavam num ponto inicial com o mesmo nível de inteligência, mas que, depois da aprendizagem da leitura, manifestaram diferenças”, ressalta o especialista.
                As desigualdades de inteligência e de talento para a leitura testadas resultariam, portanto, das experiências que os gêmeos não partilharam, como um professor ou um grupo de amigos. De acordo com o estudo, as influências positivas fazem a diferença desde os 7 anos de idade, quando o destaque da leitura já resulta em melhor desenvolvimento cognitivo.
                Para Buchweitz, o segredo está na plasticidade do cérebro infantil. No início da vida, a mente é especialmente receptiva a novos estímulos e tem uma grande capacidade de adaptação. “Nosso cérebro não está programado para ler. Ele não aprende naturalmente como a gente aprende a falar”, explica o brasileiro. “ A criança tem de se adaptar a algo que  não é natural a ela, ou seja, a leitura, e isso faz com que o cérebro dela se adapte e desenvolva  outras habilidades.”
                Para os autores do trabalho, a descoberta pode ser uma importante ferramenta para pais e educadores. Como leitura é um talento que pode ser aprendido e desenvolvido, investir nessa atividade desde o início da infância poderia influenciar a inteligência de forma positiva até a vida adulta. Alunos que não recebem incentivo à leitura desde cedo poderiam sofrer não somente no processo de  alfabetização, como também teriam a inteligência prejudicada de forma geral.
                Educadores ressaltam que o contato com a leitura, dentro e fora da escola, é fundamental. E esse contato se dá de muitas formas além da de ter um livro nas mãos. A relação com as palavras começa muito antes da alfabetização, como quando o pequeno vê os pais lendo algo ou ouve uma história contada por um adulto. “A atividade de leitura fica carregada de sentido. Se alguém lê um livro para mim, um dia eu poderei ler sozinha. Não é o objeto em si que faz a mágica. O que faz sentido é aquilo que muda a relação que o ser humano tem com esse objeto”, afirma Maria do Rosário Longo Mortatti, presidente da Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf) no biênio 2012-2014.

NUNCA É TARDE

                Embora o estudo reforce a importância da leitura desde cedo, os resultados não apontam claramente para uma idade ideal de alfabetização. “Podemos dizer que, ao menos nos termos das variáveis que analisamos, nós não encontramos nenhum efeito negativo na leitura em idade precoce”, ressalta o pesquisador Stuart Ritchie. A vantagem na inteligência foi constatada, inclusive, em crianças que se destacaram em fases posteriores da infância, mostrando que o investimento na literatura também gera frutos em crianças que receberam o estímulo um pouco mais tarde.
                No Brasil, o Ministério da Educação estipula que as crianças sejam alfabetizadas até os 8 anos, mas não especifica em que idade esse processo deve ser iniciado. A especialista Maria do Rosário Moratti, que também é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, acredita que o estímulo da leitura deva ser reforçado desde a primeira infância, muito antes de o processo formal de alfabetização ser iniciado. “A idade tem função para certos marcos escolares, rituais escolares. E muitas vezes não tem fundamentação científica nenhuma. Muitas vezes, é uma questão simples, são vagas que estão disponíveis”, alerta a educadora. “A oportunidade de a criança ler ou ouvir textos é imprescindível, e isso é desde bebê.”

***

                Então é isso, queridos companheiros de paixão. A ciência está pesquisando e produzindo evidências daquilo que todos nós já sabíamos: ler faz um enorme bem à mente. E se traz tantos e tantos benefícios ao cérebro e à alma de adultos, qual não será o seu potencial na mente tão cheia de possibilidades de uma criança?
                Fica a dica, galera: leia para seus pequenos, conte histórias para eles. E tão logo eles comecem a dominar os mistérios das letras, os incentive a ler por conta própria. Eles só terão a ganhar.




Referência do texto:
- MACHADO, Roberta. Leitura na infância favorece a inteligência. Publicado em “Correio Brasiliense”, domingo, 24 de agosto de 2014.

Referência da imagem:
- Blog Estante Virtual.
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EVENTO: “Palavras Brasilienses em Sampa”

Bom dia, leitores! Vamos falar de evento?

Autores de Brasília estão a caminho de São Paulo para divulgar suas obras e mostrar que a literatura daqui também tem força e expressão no mercado editorial. Confiram o release:


Atividades na tradicional Casa das Rosas e assim como na Bienal de São Paulo, marcarão a passagem de Brasília para falar sobre temas relevantes como distribuição, novas plataformas e paradigmas.

Duas atividades literárias denominadas “Palavras Brasilienses em Sampa” serão realizadas em São Paulo e integram um conjunto de ações que procuram ajudar a divulgar o escritor brasiliense, assim como buscar ferramentas que dinamizem a comercialização de suas obras. Nesta terça-feira (26/08), a partir das 19h, na tradicional  Casa das Rosas (Av Paulista 37 - onde fica o espaço “Haroldo de Campos” administrado pelo escritor Frederico Barbosa), será realizada a primeira atividade do "Palavras Brasilienses em Sampa". Será um animado bate bate papo mediado pelo jornalista e escritor Marcos Linhares, com os escritores brasilienses Basilina Pereira, Cristiane Sobral, Dinorá Couto Cançado, Jorge Amâncio, Sandra Fayad e Wélcio de Toledo.

Esses autores falarão sobre as obras, trajetórias e novos horizontes da literatura incluindo, plataformas digitais, divulgação e eventos.

Na Bienal de São Paulo

A última atividade será no dia posterior, na quarta (27/08). Dessa vez, o encontro dos escritores brasilienses com seus leitores será no estande da Scortecci, na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Os escritores de Brasília poderão ter seus livros comercializados no estande.

Todas as atividades de “Palavras Brasilienses em Sampa” são inteiramente gratuitas e abertas a todos nossos escritores regionais, independente de grupo o coletivo literário ao que pertençam. A coordenação é do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Bibliotecas do DF e os responsáveis são Marcos Linhares e Raúl Larrosa Ballesta.

Parceiros

A Casa das Rosas, desde a sua reinauguração como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, no final de 2004, tem oferecido à população de São Paulo cursos, oficinas de criação e crítica literárias, palestras, ciclos de debates, lançamentos de livros, apresentações literárias e musicais, saraus, peças de teatro, exposições ligadas à literatura, etc. Transformou-se, portanto, em um museu que se notabiliza pelo trabalho de difusão e promoção da literatura de escritores muitas vezes deixados de lado pelo mercado e pela oferta de oficinas e cursos de formação para aqueles que pretendem se tornar escritores ou aprimorar sua arte.


A Editora Scortecci já é parceira faz tempo do Sindicato dos Escritores do DF, e agora esta disposta a comercializar os livros de todos os escritores do DF. Não mediaremos nenhuma negociação as que devem ser realizadas diretamente por cada escritor com a Editora. Este é o primeiro ponto de venda no Eixo Rio- SP para os escritores brasilienses.


Parabéns pela iniciativa. 

A Academia Literária DF apoia e deseja boa sorte aos nossos autores locais. 


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22/08/2014

O Viúvo





            Na véspera de partir para a Europa, o doutor Claudino, sem prever o fúnebre espetáculo de que ia ser testemunha, foi despedir-se do seu velho camarada Tertuliano.
            Ao aproximar-se da casa, ouviu berreiro de crianças e mulheres, e a voz de Tertuliano, que dominava de vez em quando o alarido geral, soltando, num tom estrídulo e angustioso, esta palavra: “Xandoca”.
            O doutor Claudino apressou o passo, e entrou muito aflito em casa do amigo.
            Havia, efetivamente, motivo para toda aquela manifestação de desespero. Tertuliano acabava de enviuvar. Havia meia hora que dona Xandoca, vítima de uma febre puerperal, fechara os olhos para nunca mais abri-los.
            O corpo, vestido de seda preta, as mãos cruzadas sobre o peito, estava colocado num canapé, na sala de visitas. À cabeceira, sobre uma pequena mesa coberta por uma toalha de rendas, duas velas de cera substituíam, aos dois lados de um crucifixo, o bom e o mau ladrão.
            Tertuliano, abraçado ao cadáver, soluçava convulsivamente, e todo o seu corpo tremia como tocado por uma pilha elétrica. Os filhos, quatro crianças, a mais velha das quais teria oito anos, rodeavam-no aos gritos.
            Na sala havia um contínuo fluxo e refluxo de gente que entrava e saía, pessoas da vizinhança, chorando muito, e indivíduos que, passando na rua, ouviam gritar e entravam por mera curiosidade.
            O doutror Claudino estava impressionadíssimo. Caíra de sopetão no meio daquele espetáculo comovedor, e contemplava atônito o cadáver da pobre senhora que, havia quatro dias, encontrara na rua da Carioca, muito alegre, levando um filho pela mão e outro no ventre, arrastando vaidosa a sua maternidade feliz.
            Tertuliano, mal que o viu, atirou-se-lhe nos braços, inundando-lhe de lágrimas a gola do casaco; o doutor Claudino estava atordoado, cego, com os vidros do pince-nez embaciados pelo pranto, que tardou, mas veio discreta, reservadamente, como um pranto que não era da família.
            - Isto foi uma surpresa... uma dolorosa surpresa para mim, conseguiu dizer com a voz embargada pela comoção. Parto amanhã para a Europa, no Niger... vinha despedir-me de ti... e dela... de dona Xandoca e... vejo que... que... que...
            E o doutor Claudino fez uma careta medonha para não soluçar.
            - Dispõe de mim, meu velho; estou às tuas ordens, bem sabes.
            - Obrigado, disse Tertuliano numa dessas intermitências que se notam nos maiores desabafos; o Rodrigo, aquele meu primo empregado no foro, já foi tratar do enterro, que é amanhã às dez horas.
            Fazendo grandes esforços para reprimir a explosão das lágrimas, o viúvo contou ao doutor Claudino todos os incidentes da rápida moléstia e da morte de dona Xandoca.
            - Uma coisa inexplicável! Nunca a pobre criatura teve um parto tão feliz... A parteira não esperou cinco minutos... Uma criança gorda, bonita... Está lá em cima, no sótão... hás de vê-la. De repente, uma pontinha de febre que foi aumentando, aumentando... até vir o delírio... Mandei chamar o médico... Quando o médico chegou já ela agoniza... a... va!...
            E Tertuliano, prorrompendo em soluços, abraçou-se de novo ao doutor Claudino.
            No dia seguinte, a cena foi dolorosíssima. Antes de se fechar o caixão, Tertuliano quis que os filhos beijassem o cadáver, medonhamente intumescido e decomposto. Ninguém reconheceria dona Xandoca, tão simpática, tão graciosa, naquele montão informe de carne pútrida.
            Fecharam o caixão, mas Tertuliano agarrou-se a ele e não o queria deixar sair, gritando: - Não consinto! Não quero que a levem daqui! – Foi preciso arrancá-lo à força e empurrá-lo para longe. Ele caiu e começou a escabujar no chão, soltando grandes gritos nervosos. Três senhoras caíram também com espetaculosos ataques. As crianças berravam. Choravam todos.
            De volta do enterro, o Doutor Claudino, conquanto muito atarefado com a viagem, não quis deixar de fazer uma última visita a Tertuliano.
            Encontrou-o num estado lastimoso, sentado numa cadeira da sala de jantar, sem dar acordo de si, rodeado pelos filhos, o olhar fixo no mísero recém nascido, que a um canto da casa mamava sofregamente numa preta gorda.
            - Tertuliano, adeus. Daqui a meia hora devo estar embarcado. Crê que, se pudesse, adiava a viagem para fazer-te companhia... Adeus!
            O viúvo lançou-lhe um olhar vago, um olhar que nada exprimia; sacudiu molemente a mão, e murmurou:
            - Adeus!
            Às sete horas da noite o doutor Claudino, sentado na coberta do Niger, contemplando as ondas esplendidamente iluminadas pelo luar, pensava naquele olhar vago de Tertuliano, naquele adeus terrível, e pedia aos céus que o seu velho camarada não houvesse enlouquecido.
            Meses depois, a exposição de Paris atordoava-o; mas de vez em quando, lá mesmo, na Galeria das Máquinas, no Palácio das Artes, ou na Torre Eiffel, voltava-lhe ao espírito a lembrança daquela cena desoladora do viúvo rodeado pelos orfãozinhos, e repercutia-lhe dentro d’alma o som daquele adeus pungente e indefinível.
            Interessava-se muito por Tertuliano. Escreveu-lhe um dia, mas não obteve resposta. Pobre rapaz! Viveria ainda? A sua razão teria resistido àquele embate violento?
            Depois de um ano e quatro meses de ausência, o doutor Claudino voltou da Europa, e sua primeira visita foi para Tertuliano, que morava ainda na mesma casa.
            Mandaram-no entrar para a sala de jantar. Tertuliano estava sentado numa cadeira, sem dar acordo de si, rodeado pelos filhos, o olhar fixo no mais pequenito, que estava muito esperto, brincando no colo da preta gorda.
            - Tertuliano? Balbuciou o doutor Claudino.
            O viúvo lançou-lhe um olhar vago, um olhar que nada exprimia; sacudiu molemente a mão, e murmurou:
            - Adeus.
            Depois, dir-se-ia que se fizera subitamente a luz no seu espírito embrutecido. Ele ergueu-se de um salto, gritando:
            - Claudino -, e atirou-se nos braços do velho camarada, exclamando entre lágrimas:
            - Ah! Meu amigo! Perdi minha mulher!...
            - Sim, já sei, mas já tinhas tempo de estar mais consolado... Que diabo! Sê homem! Já lá se vão quatorze meses!...
            - Como quatorze meses? Seis dias...

            - Ora essa! Pois não te lembras que acompanhei o enterro de dona Xandoca?
            - Ah! Tu falas da Xandoca... mas há três meses casei-me com outra... a filha do Major Seabra, há seis dias estou viu... ú... vo!
            E Tertuliano, prorrompendo em soluços, abraçou de novo ao doutor Claudino.

Artur Azevedo

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