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09/10/2013

CONTO - De quando a conheci


Título: De quando a conheci
Classificação: Livre
Gênero: Romance
Sinopse: Este conto é uma singela homenagem a uma mulher muito especial que não mais esta entre nós. Devo minha devoção pela arte de escrever em grande parte a ela e mesmo depois que ela se foi ainda vive em mim o doce acalentar pela literatura e escrita, muito mais forte e vivo do que nunca antes foi.



De quando a conheci





"Existem três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas, ou torná-las literatura."


Era o meu primeiro semestre na faculdade. Todos os dias, às cinco e quarenta da manhã meu celular me despertava. Volume máximo, claro. E ele tinha que ficar muito longe de mim, a uma distância que seguramente me obrigaria a levantar para desligá-lo. Não fosse assim, eu não sairia do conforto da minha cama. Depois de semi-desperto, um café da manhã rápido e, na maioria das vezes, antes do sol nascer eu saía de casa para mais um dia na faculdade. Ônibus sempre lotado. Quando eu subia, já devia ter aproximadamente sessenta pessoas dentro do transporte. Tenso, com certeza. Foi assim por muitos meses. Fora o engarrafamento quilométrico próximo à cidade de Santa Maria. O mais irônico de tudo isso era que eu chegava à universidade antes mesmo dos portões abrirem e antes de qualquer outro colega meu, porém se eu pegasse o ônibus quarenta minutos depois do que eu costumava pegar ― os ônibus vinham de quarenta em quarenta minutos ―, eu com certeza chegaria atrasado à faculdade. A vida de universitário não começou fácil. Era um mundo completamente novo, estava me acostumando a ele. Somente o ônibus me chateava todos os dias. Ir em pé todos os dias cansava. Até o dia em que eu a vi.
 Geralmente eu entrava no ônibus, colocava meus fones de ouvido e pronto. Ficava no mundo da música até chegar ao meu destino. Alguns amigos iam comigo de vez em quando, eu conversava com eles para passar o tempo. Não me lembro exatamente quando foi a primeira vez que eu a vi, mas nunca vou me esquecer de como foi isso. Ela sempre se sentava nos bancos altos do ônibus, onde qualquer um podia vê-la. Não sei por que raios eu não a tinha visto antes, mas isso pouco importava, eu passei a vê-la. Ela era morena, um pouco mais bronzeada do que eu. Os cabelos eram de um castanho beirando ao negro, encaracolados que chegavam abaixo do ombro. No entanto quase sempre estavam amarrados por um prendedor. Eu me perdia em seus olhos negros e penetrantes, mesmo de longe. Eram como janelas para um mundo totalmente novo. Sentia-me tímido e um pouco constrangido quando olhava para seus olhos. A boca era grande e os lábios carnudos. Eu sempre a via sentada, então não podia falar muito do corpo dela. O rosto era o que me interessava naquele momento.
Um fato importante: eu era incrivelmente tímido. Apesar de não conseguir desviar o olhar, eu não tinha coragem nenhuma de ir falar com ela. Alguns dias depois ela notou que eu sempre olhava para ela e começou a me encarar e desviar o olhar no instante seguinte. Aquilo com certeza era um alerta. Um aviso de que eu estava olhando demais.
“Que garoto chato, não vai parar de ficar me olhando não?” – era o que ela dizia. Se eu fosse telepata, teria parado de olhar para ela no mesmo momento em que ela pensasse na frase.
 Mas eu não era.
 As semanas foram passando e todo dia era a mesma coisa. Já estava ficando maçante. Eu tinha de tomar uma atitude quanto a isso, mas qual? A timidez era o meu ponto fraco, não sabia como me aproximar dela. E se eu chegasse e tomasse um fora colossal? Ficava pensando no que de negativo poderia acontecer e minha coragem era sempre abalada por causa disso. Então eu tive uma ideia. Provavelmente minha ideia mais idiota, imbecil, absurda de todos os tempos: iria mandar um bilhetinho.
 Mas quem diabos manda bilhetinho em pleno século XXI?
 Existia o celular e seus torpedos e ligações; programas de bate papo virtual, como o MSN; telefone fixo; até pombo-correio. Qualquer outro meio tecnológico seria melhor. Mas bilhetinho? Fala sério! Era pior do que carta romântica.
Porém, eu não tinha à minha disposição tais meios para me comunicar com ela. Era isso ou nada. E foi o que eu fiz.
No dia seguinte à ideia mirabolante, lá estava eu com um papel do tamanho da minha palma da mão. Dobrei-o e entrei no ônibus. Nele dizia: "Oi. Tudo bem? Meu nome é Luciano, adoraria conhecê-la". Idiota. Quem diz algo assim em um bilhetinho? Algo tão... tão... nem sei dizer o que seria. Já imaginava a resposta: “Tudo bem, poderia, por favor, parar de me encarar?” Isso não iria dar certo de jeito nenhum. Na saída do ônibus eu olhei para ela. Os sismógrafos haviam registrado nove pontos na escala Richter nas minhas pernas. Estava literalmente tremendo nas bases. Um terremoto interno. Estava tão nervoso que tive a impressão que iria explodir por dentro. Sentia o corpo queimando. Mas que inferno! Ela era só uma garota, não tinha porque eu ficar assim, mas estava, não sabia por quê. Eu estiquei o braço e mostrei o bilhete, ela o pegou e eu saí do ônibus com uma celeridade tão impressionante que até a velocidade da luz bateria palmas. Quando desci percebi a burrada que havia feito. Agi como um completo idiota. Comecei a rir como o idiota que eu sabia que era. A risada mais idiota para a ideia mais idiota. Pensei até em parar de pegar o ônibus. Outra ideia idiota.
Passou um dia e lá estava eu dentro do ônibus. Não queria olhar, mas era impossível não fazê-lo. Ela me olhava do mesmo jeito de antes. Não havia como saber qual fora a reação dela. Na minha mente ela tinha me achado um idiota mesmo. Foi burrice o que eu fiz e eu estava convencido disso. Porém, para minha total surpresa, na minha descida ela estendeu o braço e em sua mão estava um bilhete! Não estava acreditando naquilo. Eu desci do ônibus e abri o pequeno pedaço de papel, simples, mas aquilo mais parecia um prêmio de loteria acumulada de tão feliz que eu fiquei ao recebê-lo. Um sorriso largo brotou no meu rosto quando eu li o que estava escrito: Oi. Estou bem sim. Meu nome é Mariana e eu gostaria muito de conhecê-lo também. Abaixo disso estava o telefone dela. Pronto. Não havia como ficar melhor que isso.
 Estava enganado de novo.
 Fiquei o dia todo com aquele bilhete na mão. Devo ter lido ele mais de cem vezes, só para ter certeza que não estava lendo errado. E não estava. Lá dizia que ela queria me conhecer. Ponto.
Naquela noite eu liguei para ela. Foi a primeira vez que eu escutei a voz dela. Era linda e tinha um leve timbre inocente. Conversei com ela apenas pelo tempo de dizer que eu desceria na parada dela no dia seguinte para conhecê-la. Não sabia bem o que dizer, não queria fazer papel de bobo pelo telefone, apesar de ser exatamente isso que eu estava fazendo.
Depois de falar com ela, estava com um sorriso idiota na cara e aquele semblante abestalhado me acompanhou madrugada adentro. Não conseguia dormir, apenas pensava naquela voz, naquele olhar e naquele nome. Continuei com o bilhete dela em minha mão e finalmente adormeci. Quando acordei de meu breve sono, o bilhete ainda esta em minha mão, dobrado do mesmo jeito que ela me entregou.
     Então, como combinado, descemos juntos. A parada dela ficava sete quadras depois da minha. Eu teria de andar um bocado para voltar à UNIP. Estávamos na W3 sul, seguindo andando até as quadras da L2 sul.
    - Então, Mariana... – comecei, sem saber bem o que dizer. Meus passos ainda estavam incertos e a insegurança ainda assolava minha mente. – Você está em que série? – indaguei, foi a primeira coisa que me veio à  cabeça. Ela carregava uma mochila nas costas e um único caderno na mão que eu havia insistido em levar para ela.
      - Eu estou na oitava série.
     Oitava série? Como assim? Só havia duas explicações óbvias: repetência ou eu errei ao julgar sua idade. Chutei que ela tinha dezessete anos.
       - Quantos anos você tem?
       - Quatorze – ela respondeu com um sorriso tímido.
     Eu tinha dezessete na época. Jesus, estava interessado em uma garota três anos mais nova que eu. Não que eu me importasse com isso. Idade quase nunca revela o caráter físico e mental de uma pessoa. Mas nunca havia me ocorrido. Digo, a diferença de idade era relativamente alta, era como se eu estivesse me relacionando com alguma amiga do meu irmão que era quatro anos mais novo que eu, um pouco estranho, mas nada que pudesse nos prejudicar, ao menos por enquanto.
     - Você não tem cara de quatorze – disse ainda surpreso. E realmente ela não tinha. O corpo dela era incrivelmente evoluído para a idade dela. Era um corpo voluptuoso capaz de deixar muita mulher mais velha com inveja estampada no rosto. Provavelmente ela tomou hormônios ao invés de sucrilhos no café da manhã. Difícil imaginar que ela tinha apenas quatorze.
     - Bastante gente diz isso – ela sorriu acentuando as covinhas que exibia em ambas as bochechas. – E você, tem quantos?
      - Dezessete.
      - Não tem cara de dezessete. Parece mais novo.
     - Já ouvi muito isso – comentei. De fato, muita gente dizia que eu era pelo menos dois anos mais novo. Não que eu me importasse, é claro.
     Conversamos mais um pouco sobre nossas respectivas vidas e eu tive a certeza de que ela não era uma simples garota. Apesar de ser um tanto inocente, a mente dela era mais evoluída que a média. Digo, ela não era uma garota de quatorze anos que pensava em maquiagens o tempo todo ou em que roupa ir para a próxima festa. Apesar de bem arrumada, não tinha o estilo patricinha. Nada contra, mas não me apetecia nem um pouco garotas produzidas demais. Pelo menos essa foi a primeira impressão, que mais tarde se confirmaria. Cinco minutos depois paramos um pouco. Eu olhei nos olhos dela e me perdi de novo. Naquele momento eu descobri porque ela desviava o olhar sempre que me encarava: ela ficava muito sem graça e para me fazer parar de olhar para ela, fechava a cara. Essa estratégia não havia funcionado. Foi bom ter sido tão teimoso afinal.
    - Você é muito bonita – eu disse segurando o queixo dela, fazendo meu olhar ir novamente de encontro com o dela. Não sei de onde eu tirei coragem para fazer aquilo, mas estava feito. Ela sorriu meio constrangida, mas manteve o olhar fixo no meu por um tempo que era impossível de determinar.
      O que veio a seguir foi inevitável e eu jamais iria esquecer.
      Ela alargou o sorriso e um vento frio balançou seus cabelos encaracolados. Ela não usava nada que prendesse o cabelo naquele dia. O frio a fez se aproximar ainda mais de mim, encostando seu rosto no meu. Naquele momento senti meu corpo paralisado, o ar preso na garganta e ela, sem perder mais um segundo, pressionou seus lábios contra os meus e tudo dentro de mim pareceu derreter-se. O frio havia desaparecido. Foi um beijo suave, demorado, quase eterno.
     O primeiro beijo.
     Seu rosto se afastou apenas o espaço suficiente para que seus olhos mergulhassem de encontro com os meus. Não sabia o que dizer, acho que não havia o que dizer. Minhas pernas tremiam de leve, aquela mulher mexia comigo de uma forma que nenhuma outra poderia fazer igual.
     Ela me beijou outra vez, agora com mais vontade, a timidez havia desaparecido e eu me entreguei ao momento. A mente vazia, voltada apenas para a sensação daqueles lábios colados aos meus, na vontade de estar com aquela garota.
     Ela se afastou mais uma vez e trocamos um sorriso sincero, sem dizer uma única palavra. Depois de vários minutos ela finalmente disse:
     - Tenho de ir para a aula. – O sorriso ainda preenchia por completo o rosto dela e aquilo era hipnótico, demorei um tempo considerável para responder.
    - O dever a chama – eu disse e de mãos dadas fomos para a escola dela, e por todo o trajeto e por todo o dia eu não conseguia parar de pensar naquele beijo.
     O resto... era história. Nossa história.


Obrigado, a doce dama angelical que descansa além do firmamento azul.



Autor: Luciano Vellasco

Idade: 24 anos

Localidade: Brasília

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Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Já li essa história e todo a emocionante continuação dela. Sei que Mariana foi alguém especial na sua vida e a história de vcs te transformou no homem que vc é hoje. Agradeço muito a ela por isso.
    Que descanse em paz.

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  2. Awwn...que lindo...e que triste...u.u

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  3. Sem dúvidas o conto mais bonitos de todos. Um anjo lá do céu fica feliz em saber que foi eternizado em uma história tão bela. Uma história que vai além do amor, ultrapassa a vida e é eternizada na alma. :)

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