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02/01/2014

RESENHA - Terras Metálicas (Renato C. Nonato)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: NONATO, Renato C. Terras metálicas. São Paulo, Novos Talentos (selo da Novo Século), 2012. 1ª edição, 615 páginas.
Gênero: Ficção Científica.
Temas: Futuro pós-apocalíptico; cotidiano em ambiente artificial; preservação da espécie humana.
Categoria: Literatura nacional.
Ano de lançamento: 2012.
SérieTerras Metálicas (Livro 1).









“– A Esfera é uma coisa fantástica, Raquel – ela falou ao acaso, sem se importar de estar mudando totalmente o assunto. – Uma estrutura inimaginável que consegue sobreviver à parte de qualquer ambiente externo. Eu não tiro o mérito das pessoas que construíram algo assim, elas tiveram os seus motivos, mas eu não consigo deixar de pensar que, para as pessoas que viviam no exterior terem de se trancar no fundo da terra... Bem... é um fim no mínimo triste para qualquer civilização.
Raquel concordou sem interromper o monologo.
– Quando percebi isso foi impossível não sentir... certa... tristeza... Ou deveria dizer solidão? – questionou a Sibério, abrindo a mão e encarando sua palma. – Pelas imagens e informações que o Setor de Memórias recolhe você, talvez melhor do que ninguém, pode perceber que tudo o que temos na Esfera é uma adaptação de coisas que existiam anteriormente. Nossos prédios, nosso modo de vida, nossa hierarquia, até nossa diversão não passa de uma reprodução do passado... Eu não duvido que até mesmo a formatura e esse baile sejam reproduções de coisas que aconteciam antes de nós.
– Que identidade nós temos, Raquel? – Isabela perguntou com um pesar tão denso que se Raquel esticasse os dedos poderia tocá-lo. – O que sabemos sobre nós mesmos além de que somos frutos de uma civilização incompetente a ponto de se matar numa guerra? E mais importante: se não sabemos o que levou a essa guerra como podemos evitar o mesmo erro, já que não fazemos nada além de seguir os mesmos passos deles? Como eu posso negar que tudo, talvez, não tenha começado em um baile como este?
– A história se repete... – Raquel disse ao acaso, uma frase que já ouvira o pai dizer.”
*Terras Metálicas (pág. 344 e 345).


                Em um futuro muito distante e não determinado, a Esfera, uma atmosfera artificial criada no fundo da terra, abriga uma sociedade sobrevivente de uma guerra nuclear que devastou a superfície do globo em um passado perdido e esquecido. Lacrados no seio do planeta, incontáveis gerações floresceram e viveram em uma utopia sob o lema “para a Esfera e pela Esfera”. A Elite geria a vida no ambiente artificial, o Grupo de Proteção assegurava a paz e um poderosíssimo IA garantia a sobrevivência de todos. Em substituição à natureza perdida – não há mais plantas ou animais – a tecnologia avançou a passos largos. Largos ao ponto de possibilitar às pessoas o despertar de habilidades especiais em função do implante de um pequeno chip. Raquel, Camila, Tales e Ângelo, juntamente com os demais formandos de primeiro nível da Academia, estão em polvorosa com a proximidade da Cerimônia de Implante. A possibilidade de se tornarem Sibérios, Túneis, Bios e os raríssimos Antenas enchem de expectativas os corações dos jovens estudantes de 12 e 13 anos. A possibilidade – não tão remota quanto gostariam – de se tornarem Exilados os amedrontam na mesma intensidade. Mas logo após a tão aguardada Cerimônia de Implante, a descoberta de um segredo sobre um defeito que compromete o funcionamento do mainframe do IA que mantém a Esfera viva colocará Raquel e seu grupo de amigos numa corrida frenética por respostas e, principalmente, por uma solução que possa salvar a todos. Paralelamente, a Facção, um grupo terrorista que apavora os habitantes da Esfera, dá sinais de que pretende por em prática um grande plano de finalidade desconhecida. Envoltos com um conhecimento – incógnito para a grande população – que pode mudar o destino de todo um povo e de tudo que conhecem, o grupo de amigos encabeçado por Raquel contará com seus poderes recém-adquiridos, com a ajuda dos tashis – pequenas mascote esféricas dotadas de inteligência artificial – Tashi, Liceu e Nirvana e de uma improvável aliada. O tempo se esgota em uma contagem regressiva e o problema parece grande demais para simples estudantes serem capazes de solucionar.
                “Terras Metálicas” é uma arrebatadora ficção cientifica. Ambientada em um futuro pós-apocalíptico onde a humanidade vive em um ambiente artificial mantido por um IA. Tudo corria bem, as pessoas viviam em um ambiente seguro e tranquilo. Mas a descoberta de um segredo que comprometia o funcionamento da Esfera por um grupo de estudantes transforma a história numa corrida frenética pela sobrevivência. Enquanto um mundo novo e um novo modo de vida são apresentados ao leitor, com conceitos típicos de uma ficção cientifica, o provável fim deste mesmo mundo e modo de vida é delineado perante os olhos do leitor-observador. Este observador presencia a ignorância dos personagens da trama, descentes de uma civilização quase aniquilada pela guerra e pela radioatividade que ela própria criou, sobre seu passado e as causas que os levaram ao seu mundo atual – uma guerra civil e um defeito na armazenagem de dados no mainframe muitos séculos após sua construção e muitos anos antes do tempo atual em que a trama é narrada – e da provável tragédia que se avizinha. O conhecimento do passado foi perdido e o enorme problema que ameaça o futuro da Esfera é mantido oculto. E a trama que o leitor tem em mãos exemplifica que a ignorância pode ser uma benção mas que a verdade e o conhecimento é o motor que move as pessoas a seguir em frente e a fazer o necessário e o certo.  E em “Terras Metálicas”, o conhecimento que se concentra nas mãos de uns poucos privilegiados – a Elite, como em uma paródia da vida real – escapa ao controle daqueles que o detêm – novamente como invariavelmente ocorre fora da ficção – e, por motivos a princípio alheios ao seus destinatários, caem em mãos de um grupo de estudantes recém implantados. E a estes adolescentes, ainda que aparentemente fora de seu alcance, cabe tentar encontrar respostas e alternativas.  Eles, diferente dos que detêm o poder, não se resignam diante das adversidades e mobilizam todos os recursos de que dispõem – e também da rebeldia e ousadia tão própria da idade – em busca de uma solução.  E a trama se constrói em torno desse grupo de estudantes, acompanhando sua rotina de aprendizados na Academia, agora divididos segundo suas habilidades recém-adquiridas com os implantes (“Túneis movem objetos à distância, Antenas controlam a mente, Bios controlam o corpo, Sibérios fazem coisas esquentarem ou esfriarem, e os Exilados... bem , eles não fazem nada” - pág, 37); as confabulações em torno do mistério do defeito no IA da Esfera; as decisões e atitudes desse grupo de amigos dispostos a fazer o que outros possivelmente mais capazes não fizeram; e as atividades ainda obscuras do grupo terrorista conhecido como Facção.
                A trama de “Terras Metálicas” foi elaborada para um público infanto-juvenil. Aborda questões como educação e vida acadêmica, algo bem parecido com a série Harry Potter. E assim como a saga do bruxo, também há um grupo de estudantes tentando salvar o mundo que conhecem. Mas nesta história não há um vilão todo-poderoso tentando impor sua supremacia a qualquer custo. Nesta história há pessoas lutando segundo suas próprias perspectivas em prol de algo maior. Há pessoas tentando fazer algo ainda que em detrimento de muito e de muitos. E há, sobretudo, uma corrida contra o tempo, uma contagem regressiva incógnita a muitos e de conhecimento de poucos. Há uma luta pra não repetir erros passados, ainda que esses erros tenham sido apagados da história e somente suas consequências estejam presentes. Nesse ponto, o livro faz uma critica velada aos hábitos e costumes humanos de lutar entre si em prol de causas mesquinhas e muitas vezes irrelevantes quando comparadas ao todo, emprestando a uma história em princípio infanto-juvenil um quê de alerta, de lição a ser aprendida e repassada. Outra questão que vale ser ressaltada é a ambientação da história em um refúgio subterrâneo – porque é nisso que consiste a Esfera, um refúgio – onde a vida se desenrola muito semelhante e, simultaneamente, muito diferente daquilo a que o leitor está acostumado a vivenciar: hábitos alimentares diferentes; festas e celebrações familiares e dispares; ausência de natureza vegetal e animal; convivência estrita com máquinas pensantes entre outras particularidades. Nesse ponto o livro faz lembrar uma outra saga conhecida e aclamada: a trilogia cinematográfica “Matrix”. Tanto em uma quando em outra, o centro da Terra torna-se uma última opção, um último núcleo de sobrevivência humana frente a algo que eles próprios causaram.
Independente de quaisquer mensagens e lições que o livro pretende passar, “Terras Metálicas” é um texto leve e prazeroso de ler. A linguagem abstém-se de rebuscamentos desnecessários e a narrativa é fluida. Os personagens são cativantes e verossímeis, e os integrantes do grupo protagonista, e também seus futuros aliados, possuem personalidades complementares entre si. A ambientação em um mundo futurista é bastante crível e muito interessante de observar. As situações e pequenas reviravoltas da trama são colocadas de maneira a prender gradativamente a atenção do leitor. Ainda que haja uma grande questão a ser resolvida na história – o defeito no IA do mainframe da Esfera –, as subquestões que vão surgindo ao longo da narrativa são igualmente instigantes e emocionantes de acompanhar. O leitor se vê tentando decifrar os pequenos mistérios junto ao grupo protagonista, suspeitando de intenções e acontecimentos, tentando juntar as pontas a fim de visualizar o panorama geral. E é delicioso ver cada pergunta respondida, não apenas no gran finale, mas ao longo de todo o texto, somente para formular outras e outras mais. E o final... bom, o final é ainda mais instigante porque, mesmo fechando o arco com maestria, deixa as portas escancaradas para um nova história, uma nova aventura. E vale ressaltar, a continuação da saga desse bravo grupo de estudantes terá sua continuação em Terras Verdes, quase concluído e em processo de negociação com a editora. É segurar a ansiedade e esperar por mais emoções e desbravamentos.
                E o criador dessa emocionante história é Renato C. Nonato, autor veterano na arte da escrita para deleite pessoal – começou a escrever livros aos 16 anos e antes disso se dedicava à criação de gibis e contos – e que fez sua estreia profissional em grande estilo com “Terras Metálicas”. Graduado em Engenharia Química, mestrando em Engenharia de Materiais e professor de boxe chinês, este paulista de Rudge Ramos (distrito de São Bernardo do Campo) nascido em 1987 já deu mostras de seu enorme potencial na arte da escrita e da criação de histórias. “Terras Metálicas” é um livro leve e divertido que traz em suas páginas uma reflexão sobre o modo de agir dos seres humanos. É uma aventura que tem tudo para agradar quem busca diversão e entretenimento. É uma ficção científica que agrada aos fãs do gênero por trazer vários de seus elementos clássicos e, simultaneamente, é um representante descomplicado do gênero e simples ao ponto de cativar aqueles que não possuem a paciência necessária para as minúcias da ficção científica. Em suma, “Terras Metálicas” é aposta certa para quem gosta de uma boa e bem contada história.




Bibliografia de Renato C. Nonato (ordem cronológica):

Livros:

  • Terras Metálicas – Novos Talentos (2012).
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