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10/06/2014

RESENHA - À Sombra da Lua (Marcos deBrito)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: DEBRITO, Marcos. À Sombra da Lua: o mistério de Vila Socorro. 1ª edição. Rio de Janeiro, Rocco, 2013. 286 páginas.
Gênero: Suspense, Terror.
Temas: Lobisomem.
Categoria: Literatura Nacional
Ano de lançamento: 2013















“As entranhas da carcaça desfigurada de um animal selvagem eram devoradas com avidez por uma criatura monstruosa, semelhante a um lobo. A fera era enorme, ainda que sua postura curvada escondesse seu tamanho assombroso. Pelos negros cobriam quase todo o seu corpo, deixando apenas falhas no peito e o rosto nu. A mandíbula acentuada para frente, com caninos pontiagudos, marcava a ferocidade de suas expressões. Os olhos, que pareciam brilhar como lampião aceso na noite, eram aterrorizantes e vermelhos como sangue .”
*À Sombra da Lua: O mistério de Vila Socorro (pág. 50).



                Vila Socorro seria apenas mais um entre tantos outros vilarejos que estavam se formando no interior de São Paulo, exceto por um detalhe: corpos mutilados de pessoas e animais apareciam nos arredores da floresta que cercava a região, tirando o sono dos habitantes e brincando com os seus imaginários, pois ninguém sabia quem (ou o que) estava cometendo esses crimes brutais. Os representantes do povoado buscavam encontrar uma solução para o fim das mortes que pareciam não ter fim, mas nada parecia surtir efeito e mais cadáveres enchiam o pequeno cemitério local para o desespero e indignação dos habitantes, ávidos por um fim às chacinas que já perduravam por mais de uma década. Em meio a isso, Álvaro, um rapaz humilde que vivia em uma pequena fazenda, afastado do centro populoso da vila, apaixonou-se por Alana, filha do prestigiado e único médico local. Uma paixão aparentemente impossível de se concretizar aflora e ambos estão dispostos a passar por cima de preconceitos, tradições e desavenças para consumar o amor verdadeiro – ao menos até a passagem da lua cheia.
                Assim o autor Marcos DeBrito nos apresenta a sua obra de estreia. "À Sombra da Lua" inicia-se com um prólogo bem curioso que conta a história de um Rei da Grécia antiga, amaldiçoado por ter tentando enganar um deus. Muitos séculos mais tarde, na vinda dos imigrantes Italianos ao Brasil, o autor narra a vinda de Bastiano, sua mulher Clemenzia e sua prole de seis filhas e um filho que ainda viria a nascer. Como muitos outros conterrâneos, eles vieram para tentar a sorte em terras brasileiras. Após um salto de vinte e sete anos na trama, conhecemos Álvaro, rapaz solitário, que vivia em sua fazenda, distante do resto da vila. Sobrevivendo do que produzia em suas terras, ele apenas aparecia na vila para comercializar seus produtos e para ver sua paixão: Alana. Graças à ajuda de Flávia, amiga íntima da moça, os dois conseguem enfim se encontrar e daí floresce a paixão que apenas ficava no imaginário dos jovens. O autor apresenta ainda outros personagens importantes na trama, como o doutor Dário, pai de Alana; Vicente, filho de Carlos George, importante fazendeiro da região e ex-proprietário de escravos; o Alcaide Ronaldo Magalhães, representante da comunidade; Valêncio, um homem misterioso que tem algum interesse oculto em Álvaro; o padre Antônio; entre outros que aparecem no desenrolar da trama. À medida que a narrativa avança, podemos conferir a vida e personalidade de cada um desses personagens e qual o papel deles na trama.
                 A obra é cheia de reviravoltas no que diz respeito a crenças e ideologias. A cada capítulo alguém é alvejado pela dúvida, seja ela baseada na lógica ou na fé em Deus. Mais de uma vez um personagem duvidou daquilo em que acreditava e desesperadamente tentava encontrar algo em que pudesse se apoiar para fugir de uma nova perspectiva, para não ter de descartar aquilo em que acreditava com tanto afinco. Isso é explorado até os momentos finais da trama. Além disso, Marcos DeBrito explora com muita veemência a eterna guerra de ideologias entre os religiosos e os ceticistas. Enquanto os primeiros buscam na fé as respostas e as certezas para suas dúvidas, os segundos buscam na lógica e na razão soluções para o fim das mortes que recaem sobre o vilarejo.               
                 É também impressionante como o autor consegue mesclar romance e terror. Ao passo que em um capítulo rolam cenas de um romantismo digno de um encontro entre Romeu e Julieta, no capítulo seguinte há cenas tão violentas que o leitor tem de parar um pouco para processar o choque.
                Nota-se que o autor teve um extenso trabalho de pesquisa para escrever a obra. Não só pela época em que se passa a trama, mas também pela mitologia por trás do monstro. Mesclando não só o folclore, mas a ciência, religião e medicina para exemplificar as histórias que cercam a lenda do Lobisomem.
    Aí vem o enredo, que parece clichê à primeira vista. Daqueles que você sabe o que vai acontecer no final só de ler a sinopse. Não é o caso de "À Sombra da Lua". O autor distrai com sua narrativa simples para nos dar uma estocada pelas costas com suas reviravoltas.
    O que é instigante na obra é que o leitor sabe até certo ponto o que está acontecendo na vila, mas os personagens envolvidos com o perigo não fazem nem ideia do que está realmente ocorrendo. É como assistir a um filme de terror no estilo Sexta-Feira 13: você sabe o que vai acontecer com o casal que faz sexo na mata, você sabe o que vai acontecer com o adolescente que vai investigar um barulho estranho, você sabe o que vai acontecer com o xerife e fica tentando avisar aos infelizes que Jason está a caminho. E quanto mais perto ele chega, mais apreensivos ficamos. É isso que a trama faz com os leitores: quanto mais próxima a fera está de seu alvo, mais a narrativa nos deixa com o ímpeto de querer saber o que vai acontecer na próxima página e mais queremos tentar avisar os personagens. As contagens das fases da lua são fundamentais para que tudo isso funcione. Sabe aquela musiquinha de fundo que toca quando o Jason, Krueger e companhia estão por perto? O autor habilmente conseguiu o mesmo efeito ao marcar a descrição de qual fase a lua se encontra no trecho narrado. A contagem do tempo tem o mesmo principio de impor terror. A expectativa de alcançar os capítulos de lua cheia é tanta que eu mal percebia o quanto avançava na leitura da obra, devorando as páginas avidamente, até alcançar o dia fatídico, que era consumido com muita calma e imaginação, pois os detalhes são tão vivos que ninguém precisa de óculos 3D para enxergar o sangue voando pelas páginas. Porém, é a partir da metade do livro em diante que o autor mostra a que veio. Não que o começo seja ruim ou descartável, longe disso. Apenas eram coadjuvantes para preparar o território para o verdadeiro horror que é a obra. Cada palavra, cada parágrafo trazia uma sensação de tensão e perigo quase palpáveis. Nas noites de lua cheia essa sensação se multiplica a ponto de nos imaginarmos na pele dos personagens. E como descrito na lombada do livro: “A literatura brasileira de horror não possuía um relato tão tétrico e macabro sobre um personagem tão comum”. Marcos DeBrito certamente cumpriu esse papel com maestria, construindo uma narrativa surpreendente que deixará o leitor de cabelo em pé.

Alerta de Spoiler, clique para ver!
               Dentre todas as qualidades da obra, tenho apenas duas críticas a fazer. Primeiro, em certo momento, o doutor Dário usa o termo “Licantropia” para explicar que o monstro, na verdade é uma pessoa doente. Porém, em minha opinião, a ideia foi inserida na narrativa sem um gancho apropriado. Da maneira que foi colocada, ele poderia muito bem ter refletido sobre a hipótese no dia em que Valêncio encontrou o padrão de ataque que ocorria sempre em noites de lua cheia. Um homem de conhecimento como ele certamente teria levantado a questão na primeira oportunidade. Segundo, algo que ficou um pouco (mas só um pouco) forçado na narrativa é o fato de nenhum habitante da vila ter mencionado em momento algum, mesmo nas reuniões da Assembleia, que um personagem bem relevante para a trama era o antigo padre da comunidade. Em um povoado pequeno como Vila Socorro, o padre local deveria ser uma figura notória e de fácil reconhecimento. Mesmo depois de tanto tempo, as pessoas mais velhas que lá viviam deveriam se lembrar do antigo padre. Ainda mais se formos considerar povoados onde todo mundo se conhece. Alguém poderia muito bem ter revelado esse detalhe na primeira vez que ele apareceu nas reuniões e não somente no clímax da história. Só lendo o livro para entender o quanto essa informação é importante dentro da trama.
                  A obra é narrada em terceira pessoa, sendo o narrador onisciente. O autor usa linguagem de fácil compreensão, mas agregando alguns dialetos populares da época e algumas palavras vindas do idioma italiano, por conta de alguns personagens terem essa origem. A fluidez da narrativa é excelente, sem nenhum entrave maior do que uma palavra mais requintada, ou que era comumente usada na época que o livro retrata (entre 1893 – 1920). O foco está centrado na história funesta que cerca a vila, revelando aos poucos a história individual de cada personagem importante da trama. A narrativa é descritiva e segue de forma a intercalar os textos no presente momento da trama, contando a vida dos habitantes da vila; e no passado, contando a história da família Cesari, sendo que cada quebra de tempo está devidamente identificada com a data (século/dia/mês/ano) de forma que o leitor não se perca na linha temporal. A revisão está impecável, sem nenhum erro perceptível. Já a diagramação poderia ter sido mais elaborada. Não está ruim. A capa é muito bonita e retrata bem o texto, mas passa outra visão inicial da Vila Socorro. Não sei se outros leitores tiveram a mesma opinião, pois da a impressão de que a obra se passa em alguma cidade italiana ou londrina e não em uma vila pequena do interior de São Paulo. Há uma imagem (um pedaço da capa mostrando o lobisomem e a lua) em cada início de capítulo que também poderia ter sido mais bem elaborada, apesar de não apresentar nenhum desconforto para os leitores (mesmo com as folhas brancas). Só uma questão de estética mesmo. Por ter sido uma obra tão bem elogiada pelos leitores e pela crítica, essa obra merece uma segunda edição para ontem.
                +Marcos DeBrito nasceu em Florianópolis (SC) e mudou-se para São Paulo em 1998 com a finalidade de estudar a arte cinematográfica. Formado pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), desde 2001 trabalha como diretor e roteirista, tendo vários curtas-metragens premiados nos principais festivais do gênero. Seu primeiro longa-metragem “Condado Macabro”, ganhou o prêmio do Estado de São Paulo e deverá ser lançado ainda esse ano.
                Com uma excelente narrativa de roteiro de filmes de terror e uma dose teatral de romance, o autor retrata com detalhes impressionantes o mito do homem que se transforma em fera. Esta é uma história de horror que recomendo fortemente aos fãs do sobrenatural. Peço que se preparem para a leitura, pois a frase “felizes para sempre” parece não existir no repertório de Marcos DeBrito.
                Fiquem de olho no calendário, fechem portas e janelas, não saiam de suas casas até o início da alvorada, rezem seus terços com fervor, pois a lua cheia está vindo, e com ela a besta que assombra nosso imaginário.




Bibliografia de MARCOS DEBRITO (ordem cronológica):

Livros:

  • À Sombra da Lua: o mistério de Vila Socorro– Rocco (2013).

Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. Onde consigo balas de prata? -Q
    Apesar de não ser fã de lobisomens (mas sou fã de literatura com muito sangue, se assim posso descrever), fiquei com vontade de ler esse livro. Mais um pra listinha.

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  2. Ótima resenha! Mas, o termo "licantropia" é usado para quem é de verdade um lobisomem, e o termo " licantropia clínica" que é para a doença mental.

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  3. Olá, Bianca! Obrigado, que bom que gostou. Sim, vendo aqui na obra, esqueci de colocar o "clinico" antes de Lacantropia. Obrigado pelo toque ;)

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  4. Fico sempre feliz quando surgem novos autores brasileiros e faço questãod e divulgá-los em meu blog sem firmar nenhuma parceria, apenas para ajudar a divulgar o trabalho. Pois acho que resenhas hipócritas são uma prostituição do ofício do blogueiro. E eis o que achei de à Sombra da Lua.
    Estilo de escrita pomposo, piegas, pedante, cansativo e didático. Personagens rasos, pobre em descrição de cenários. O autor é redundante a ponto de se tornar irritante. Há uma frase onde ele diz " Ele seguiu o mesmo caminho que Flavia, mas como ela veio a cavalo e ele foi a pé, levou mais tempo." É claro que levou mais tempo, afinal ele é lobisomem, não é o Flash. Muitas vezes me senti lendo um livro da coleção vaga lume com tanta imaturidade na narrativa. Sem querer ofender os escritores dessa maravilhosa coleção. E as palavras difíceis que ele usava para impressionar? Verborragia! Quem usa esse tipo de palavra num diálogo coloquial? Afinal a cena se passava no século xx e não em 1500. A história em si até que tinha potencial, mas era muito previsível, eu sempre sabia o que ia acontecer, o que tornou a leitura irrelevante. Uma perda de tempo. Notei que no skoob as opiniões são todas entusiasmadas, mas há casos de de blogueiros que fizeram parceria com o autor, o que torna essas opiniões questionáveis. O que eu recomendo é que antes de comprar o livro, leiam um trecho. Acredito que um capítulo será o suficiente para sentirem a fraqueza de estilo do autor, que ao invés de utilizar uma escrita vigorosa, que seria ideal nesse gênero literário, optou por uma narrativa cheia de floreios.

    http://porquelivronuncaenguica.blogspot.com.br/2014/11/sete-serial-killers-da-literatura.html

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  5. Obrigado pelo comentário, Ronaldo Gonçalves! Cada um tem sua opinião em relação as resenhas que postamos aqui. Aceitamos e respeitamos opiniões de nossos leitores, mas chamar nosso trabalho de "hipócrita" e "prostituição do ofício de blogueiro" foi desnecessário, deselegante e completamente sem fundamento. O fato de termos uma parceria com o autor não interfere em nada nossa posição em relação à obra. Temos um dever com os nossos leitores de dizer aqui o potencial da obra, seja ele positivo ou negativo. Se acha nossa opinião a respeito da obra questionável apenas por termos firmado uma parceria com o autor, sugiro que ignore e siga em frente. Não vejo qualquer necessidade de desmerecer o trabalho do autor/blogueiro porque discorda de uma opinião ou estilo de escrita. Sei que você postou a mesma resposta em vários outros blogs, não sei com qual intenção, mas sei que você não vai durar muito no meio com esse tipo de atitude. Não é atacando agressivamente obras literárias e desmerecendo o trabalho de seus colegas blogueiros que você vai divulgar com êxito a literatura nacional.
    Abraços e volte sempre!

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