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12/02/2015

CONTO - Consulta-Cruel



Título: Consulta-Cruel
Classificação: livre
Gênero: Suspense
Sinopse: Mario sempre teria segredos fortes guardados para si e por isso precisava se consultar frequentemente com um psicólogo. No entanto, o que seu terapeuta não imaginava é que segredos fortes, se revelados, podem gerar consequências cruéis.




Consulta - Cruel

- Eu liguei muito preocupado para essa garota a fim de perguntar se ela usou o anticoncepcional, sabe? Foi horrível como me senti. Então ela contou que eu não precisava me preocupar, já estava tomando o medicamento há 2 meses sem parar. De cara eu fiquei tão feliz!

                O seu confidente terapeuta franze a testa. Confusão mental na certa.

                - Acho que eu não compreendi. Vocês estão saindo há 2 semanas, não 2 meses, correto?

                - Isso. – A felicidade consumia o rosto pálido de Mario. – Significa que eu não devo ser o único da vida dela. Que maravilhoso.

                O doutor faz cara de compreensão perto do que lhe parecera exótico naquele momento.

                - Interessante. – Diz, roboticamente.

                - Isso não é tudo. – Mario fecha seu rosto de um modo inesperado e intrigante. – Na verdade tem a parte ruim. Ela acabou me deixando bem claro... Só usava o medicamento antes de me conhecer por conta dos problemas hormonais dela. Não é por causa de homem. Significa que, como eu inicialmente não imaginava, eu devo ser sim o único da vida dela. Isso é uma droga!

                - Entendo, eu acho. Você pode ser sincero com ela. Querer saber a verdade não machuca ninguém, só impede uma decepção futura. Porém permita-me a pergunta... Qual o motivo de desejar ser só mais um? Você não tinha dito nas outras sessões o quanto era ela magnífica, que lhe desejava pelo resto de sua existência, que nunca havia encontrado ninguém tão incrível quanto e o que mais mesmo? – O doutor ri levemente enquanto encara Mário inclinando-se em sua direção, pensando no resto. – Etc e tal, né? – Desiste de pensar, acomodando-se na poltrona.

                - Exato. – Mario está pensativo olhando para baixo enquanto as mãos estão juntas se mexendo, revelando tensão. – Mas as pessoas a quem eu me apego sempre... sofrem... Eu não posso querer o mesmo para ela, entende?

                - Muitos momentos difíceis ultimamente?

                - Cansei. Não quero mais isso. Eu acabo sendo o que mais sofre. Te contei sobre o que eu ando sentindo... Você sabe que está difícil. Eu sinto que não sou mais o mesmo.

                - Realmente você disse que mudou. – O doutor confere se é verdade folheando suas anotações de sessões passadas. – Mas nunca explicou como.

                - Bem, estão acontecendo coisas estranhas comigo. Esse é o problema. E o pior é que nem você e nem ninguém vai poder ajudar. Você é um homem da ciência, vai ter que ver para crer. E quando ver... vai desejar nunca ter passado por isso. No fim todos morrem.

                - Sofrem.

                - Não, doutor. Eu disse “morrem” mesmo.

                - Ver o que? Mostre-me o que é.

                Mario finalmente levanta seus olhos e encara o doutor.

                - Você não crê em mim. No final eu sou só mais um lunático de mente fraca como qualquer outro que você precisa sempre deixar confortável. E então o dinheiro aparece depois. Muito fácil. Pior de tudo é isso... Como eu queria que fosse exatamente isso. Como eu queria ser um merda no fim das contas.

                O terapeuta se surpreende com a atitude de Mario, sempre tão calmo.

                - Não precisa me alfinetar assim. Estamos no mesmo barco. Eu sou seu amigo. Conte-me tudo. Sou seu ouvinte. E o que pudermos fazer para melhorar será feito.

                O doutor sempre fora tão bom com as palavras e como sempre tocava seu paciente com elas, mas Mário estava longe de ser qualquer um. Não mais. Essas palavras o incomodavam bastante no momento. Mário olha pela janela. A noite está brilhante de tantas estrelas como um presente divino do acaso. A sorte estava lançada aos céus. Momentos românticos ecoariam pela cidade por causa dessa noite e Mário estava com saudades da sua amada.

                - Vou indo. Obrigado por tudo.

                - Mário, nosso tempo ainda não acabou.

                - Nosso tempo já era. Para sempre. Eu não volto mais. Cansei.

                - Você acha que eu não sou o bastante?

                - Não, doutor. – Mário deixa cair uma pequena lágrima do seu olho esquerdo. – Na verdade você é o melhor. – Mário começa a tremer bem devagar. - É exatamente por isso que devo partir. A cada sessão isso fica mais difícil. E você é muito bom para passar por tudo isso. Não... você não.

                - Passar pelo que, filho? Por favor, eu juro... Quero mesmo te ajudar.

                Enquanto o doutor se aproxima de Mário, seu braço passa pela lateral da porta enferrujada e se corta.

                - PORRA. Isso doeu. Espere, Mário, já volto. Fique aí. – O terapeuta vai correndo até uma gaveta no banheiro e pega um Band-Aid a fim de colocar no braço. Ele volta rapidamente. – Onde estávamos?

                O susto aparece quando é observado que Mário está suando frio, aparentemente sem ar, passando mal.

                - Doutor, eu... sai...

                - Mário, o que está acontecendo? Meu deus, vou chamar um médico lá do andar de cima.

                - DOUTOR! SOME DAQUI. SEU BRAÇO...! – O grito assusta. Um calafrio chega com força perfurando a sua espinha rapidamente. Um sexto sentido acusando a existência de algo tenebroso.

                Ao olhar para Mário, seus olhos estão vermelhos e seu grunhido irreconhecível, ou som, ou, enfim, risada, talvez, encontra-se possuída. Sua pele está contida e forçada acusando a existência de tantas veias que em alguns lugares até um médico experiente poderia esquecer que existia. – Doutor, eu tentei... não consigo mais. Sangue, cheiro. É bom... CORRE, PORRA! – Mário grita com uma voz terrivelmente grossa e, ao avisar que ele deveria correr, paradoxalmente e imediatamente avança em seu terapeuta que é logo abatido. A gritaria sonoriza o prédio inteiro e as pessoas de outros locais se espantam tentando identificar o que está havendo e onde.

                O doutor nunca gritara tanto em sua vida e provavelmente nem sentira tanta dor como nesse momento. Mário está preso com seus dentes em seu pescoço, sugando tudo que pode de seu terapeuta. É como se tivesse um ímã em seu pescoço e Mário gosta de ímãs. O prazer é tão forte que um arrependimento é impossível, não até se satisfazer por completo.

                Mário larga-o depois de sugar tudo. O doutor está pálido, sem vida, olhos arregalados e boca aberta numa expressão geral muito sofrível. Fora uma morte dolorosa.

                - Porra, mais um... e logo ele. – Mário chora enquanto volta ao normal. Chora que nem criança. Pega o doutor nos braços. – Não pode. Você não, você não, você não. VOCÊ NÃO!

                Ele se limpa com o sangue escorrendo de seus lábios. Chega no espelho do banheiro e passa a toalha. Mais um caso estranho para desvendarem na cidade. Mais um ato cruel de Mário. Ninguém imagina que um estudante universitário de vida semi solitária e um pouco pacata seja o responsável por esses crimes.

                - Helena. Eu preciso de você.

                Mário abre a janela e pula em direção a um beco escuro nessa noite tão bonita. Ninguém o veria fazendo essa arte e que mal uma queda de 4 metros poderia fazer? Ele estava pronto para Helena. Faria exatamente o que lhe foi ordenado. Seria direto e honesto. Queria saber se ele era só mais um e se não o fosse mesmo, teria que largá-la para sempre. Antes doer o coração do que, novamente, um novo pescoço. Não suportaria ficar sem sua amada, mas matá-la seria ainda pior. A próxima missão vai ser a mais difícil. Maldita doença. Ir contra o amor é quase impossível, porém necessário.



Autor: Felipe de Castro Drummond

Idade: 27 anos

Localidade: Rio de Janeiro

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