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08/05/2015

ENTREVISTA: Enéias Tavares

Olá, leitores! Como estão? 
Hoje é dia de entrevista na Academia! Depois de dar uma voltinha em um Zepelin, ser atendido por uma secretária robótica modelo F-16 (sério, preciso de uma dessas) e visitar o Palacete dos Prazeres (nunca esquecerei), conversamos com o nosso ilustre autor parceiro Enéias Tavares e ele nos conta um pouco sobre o processo de criação de sua obra de estreia e outras curiosidades sobre o universo Steampunk! Ficou muito legal! Confiram abaixo:

Academia: Para começar, gostaríamos de agradecê-lo por aceitar ser parceiro da Academia Literária DF. Nós, assim como nossos leitores, queremos saber: Quem é Enéias Tavares? Conte-nos um pouco sobre você.

Enéias: Eu também estou tentando saber quem é Enéias Tavares, Luciano. Brincadeiras à parte, acho que sempre tive um pouco de inquietação com isso, com a nossa busca incessante, em especial num século essencialmente freudiano e pós-psicanalítico, por uma definição identitária. Hoje, posso resumir minha biografia a duas informações: leciono literatura clássica na Universidade Federal de Santa Maria (RS), com ênfase nos livros iluminados de William Blake, e escrevo literatura fantástica retrofuturista, também conhecida como steampunk. Do resto, moro com minhas duas gatas, milhares de livros e outras bugigangas que gosto de colecionar. Ah... e claro, também passo tempo com meus amigos.


Nota do entrevistador: Adoraria fazer um tour na casa do Enéias para conhecer suas bugigangas retrofuturistas e seus milhares de livros \0

Academia: Você escreve dentro de um gênero pouco explorado por um autor nacional. Não é todo dia que vemos em destaque uma obra com essa temática. Poderia explicar o que é o Steampunk?

Enéias: Trata-se de um gênero de ficção científica voltado para o passado. Diferente do cyberpunk ou do space opera ou da ficção distópica, trata-se de olhar para o passado brincando não com o que aconteceu mas com o que poderia ter acontecido do ponto de vista social, cultural e tecnológico. No universo de Brasiliana Steampunk, por exemplo, carruagens e bondes convivem com zepelins vaporentos e com autômatos inteligentes. Quanto ao “pouco explorado”, não sei se isso é totalmente verdade neste momento, uma vez que temos vários autores nacionais recorrendo ao steampunk como forma de ambientar suas histórias, como é o caso de Andre Cordenonsi, Nikelen Witter, Bruno Accioly, José Roberto Vieira, Flávio Medeiros Jr. e Carlos Relva, entre outros.
Nota do entrevistador: Tenho que conhecer essa galera. Quem sabe um evento só com escritores do gênero? Olha eu sonhando alto aqui.
Academia: Como foi seu contato com o Steampunk? Você já se interessava por esse universo de máquinas a vapor ou o interesse surgiu junto com a ideia do livro?

Um pouco caro, mas valeu a pena.
Enéias: Eu sempre fui um grande admirador da estética retrofuturista, que acho charmosa e imaginariamente estimulante. Meu primeiro contato com o gênero foi a “Liga Extraordinária” de Alan Moore, seguida do romance “Anno Dracula”, de Kim Newman, duas obras que usam elementos do steampunk e que reinterpretam personagens históricos e ficcionais num mesmo universo. Em ambas, encontro a base do que iria fazer em Brasiliana Steampunk. Originalmente, “Lição de Anatomia” era um conto de suspense calcado no conflito entre Louison e Pedro Cândido. Apenas no último ano da escrita, lá por setembro de 2013, é que o elemento steampunk e as narrativas múltiplas, com vozes surrupiadas dos grandes heróis da nossa literatura do século 19, foram acrescentados à idéia, o que, em minha opinião, resultou num salto de qualidade visível em todo o manuscrito. De uma previsível história de suspense, “Lição de Anatomia” se tornou um livro divertidíssimo tanto pela estrutura narrativa polivalente quanto pela ambientação retrofuturista.



Academia: A partir do Steampunk você deu vida a sua obra de estreia. Poderia nos contar como surgiu a série Brasiliana Steampunk?

Enéias: De duas motivações. Primeiro, queria que fosse “steampunk” porque a série partiria de um gênero fantástico consolidado lá fora e estava começando a surgir em terras brasileiras. Como vivemos num momento em que as distâncias geográficas praticamente inexistem em função da rapidez com as informações atravessam o globo, não achei que o “estrangeirismo” seria um problema, mas tive de explicar isso a editora e defender a necessidade do termo, dizendo que mesmo tratando-se de um estrangeirismo, o termo comunicava muito do cenário, da moda, da cultura e da ambientação do próprio universo da série. Segundo, precisava ser “brasiliana” porque não queria abrir mão de ambientar minha história em cenários brasileiros, com heróis nacionais e com problemas próprios da nossa realidade. Não funcionaria, ao menos na minha opinião, alocar o enredo em Paris ou Londres, por mais que adore as duas cidades, sobretudo porque já tínhamos muitas histórias fantásticas nessas paisagens. Por outro lado, queria escrever sobre uma cidade que eu conhecesse, na qual havia morado, pela qual tinha uma relação de afeto e ao mesmo tempo de desconforto. Diante disso, não poderia não ser a “exótica e úmida” Porto Alegre, mas não a antiga Porto dos Casais e sim a Porto Alegre dos Amantes, cuja geografia, apesar de ser baseada na capital que existe, não passa de criação da minha cabeça. Gosto de dizer que a cidade do romance não é a cidade que existe ou na qual morei, e sim a cidade na qual gostaria de habitar em meus sonhos. 
Nota do entrevistador: Temos um carinho especial para com obras que façam uma ambientação em território nacional. Não que seja ruim ter uma obra ambientada em outro país, mas da uma emoção a mais ver que uma obra cujos cenários são em nossas próprias terras. Parabéns pela escolha.
Mapa conceitual de Porto Alegre dos Amantes. Nota: Um dia farei um post sobre mapas \0/

Academia: Na obra, você trabalhou em uma ideia (genial, diga-se de passagem) de inserir personagens tão icônicos da literatura brasileira. Como surgiu essa ideia e porque usá-los?

Enéias: Que bom que vocês gostaram. A ideia surgiu, à princípio, de uma feliz coincidência. Enquanto escrevia o romance, lá por outubro ou novembro de 2013, estava também relendo, por puro gosto pessoal, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” de Lima Barreto e “O Alienista” de Machado de Assis. Certa noitinha, ao interromper a leitura de um deles para começar a escrever, me vieram duas frases: E se Isaías Caminha escrevesse uma reportagem sobre Louison? E se, ao ser encarcerado, Louison ficasse aos cuidados do alienista Simão Bacamarte? Destas duas perguntas e das risadas subsequentes, veio todo o resto, tanto o Parthenon Místico quanto o Palacete dos Prazeres e os respectivos heróis, já em domínio público, que comporiam esses cenários e suas relações com Louison, Beatriz e Cândido. Quanto ao por que usá-los, primeiramente porque tratava-se de uma boa e divertida ideia, o que sempre é o primeiro elemento a se levar em conta na construção de qualquer história. Em segundo lugar, porque me ressentia da forma historicista e formalista com que nossos heróis são ensinados na escola. Queria, por mais ousada que essa idéia me parecia naquele momento, recuperar na série a energia, o encanto, a violência desses personagens. Não se tratava apenas de usar seus nomes, mas sim de estudar sua linguagem e de recriá-los a partir de suas contrapartes literárias. Por fim, o fato de “Lição de Anatomia” se passar em 1911 deu-me a oportunidade de “continuar” a história desses personagens. Por exemplo, o que aconteceu com Simão Bacamarte depois do fechamento de Casa Verde? O que aconteceu com Rita Baiana depois do “Cortiço”? Sergio e Bento Alves, amigos/namorados do “Ateneu”, voltariam a se encontrar? “Para saber esta e outras tantas respostas, leia Brasiliana Steampunk!” Risos. Em resumo, acho que a ideia é bem divertida e me presentou com noites insones bem gostosas ao tentar montar esse quebra-cabeça literário. Espero que o leitor ou a leitora se divirta tanto quanto ao eu. 
Nota do entrevistador: As ideias ousadas são aquelas que mais nos deixam orgulhosos quando dão certo. Já imagino num futuro próximo alunos de escolas pegando seu livro para estudo. Tenho um amigo que vai adorar saber dessa sua ideia ousada. 
Academia: A publicação do seu livro foi um dos prêmios que você recebeu por vencer o concurso “Fantasy quer o seu mundo”, do Selo Casa da Palavra da Editora Leya. Como foi a experiência de participar e vencer um concurso tão acirrado, que atraiu milhares de aspirantes a escritores?

Enéias: Foi um sonho, em todas as etapas. Não só foi um exercício rico em termos de contenção, uma vez que as primeiras duas fases do concurso exigiam resumos concisos do romance e do universo, como também uma excelente oportunidade de “testar” a qualidade do meu manuscrito. Mas a experiência posterior ao concurso também foi muito rica. Tanto a criação da capa, em parceria com Affonso Solano (editor), Rodney Buchemi (ilustrador) e Rico Bacellar (designer) quanto as discussões sobre o texto, em especial com Beatriz Sarlo (revisora e preparadora) foram muito estimulantes e agradáveis. Quanto ao período posterior à publicação, tem sido uma grande aventura viajar e participar de eventos literários ou então contatar jornalistas e ter conversas como essa. A recepção do público tem sido muito positiva e eu sinto-me apenas mais compelido a continuar trabalhando na expansão do universo da série, algo que temos feito com os conteúdos inéditos disponibilizados em brasilianasteampunk.

Essa e outras ilustrações fantásticas, vocês podem encontrar no site.
Academia: Além do estudo de todo o universo ambientado no Steampunk, no que mais você se inspirou para escrever sua história?

Enéias: Há Anne Rice e Alan Moore do início ao fim. A minha Porto Alegre dos Amantes é a Nova Orleans dos romances de Rice. A presença de Moore é ainda mais notável. O título é uma homenagem à primeira saga de Moore no “Monstro do Pântano”. O romance tem uma dimensão mística que lembra “Promethea” e “Do Inferno”, além do Louison ser uma versão de Jack o estripador. As personagens femininas apresentam uma complexidade que homenageia “Lost Girls”. Tanto esta quanto a “Liga Extraordinária” de Moore prenunciam essa reinterpretação ou revitalização de personagens literários clássicos. Por fim, o exercício de múltiplos pontos de vista de “Lição de Anatomia” refere, obviamente, a “Watchmen”. Não quero com isso sugerir que eu chegue aos pés desses monstros, mas as referências estão lá e eu não teria como não usá-las. Além de tudo o que já disse sobre os autores nacionais que referencio, há também alusões explícitas e implícitas a Dante, Shakespeare e Blake, entre outros.


E então, leitores? O que acharam da nossa entrevista? Semana que vem iremos postar a segunda parte! O conteúdo ficaria extenso demais em um só post \0/

Enquanto isso eu vou ali numa sessão do Cinematógrafo Falante em um Volksfuligem mecanizado. (esse chofer autômato que arrumei é uma figura).

Aguardem!
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Realmente fantástico!
    Primeiramente foi fisgado de cara pelo título muito instigante. A bela capa deixou tudo mais curioso.
    Fico muito feliz que Enéias tenha mostrado o potencial da literatura brasileira. Estou muito ansioso para os livros que nascerão desse autor :)

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