Tecnologia do Blogger.

04/08/2015

RESENHA - Mar de pedras (Daniel Barros)


ATENÇÃO: A obra resenhada apresenta cenas de sexo explicito. Leitura não recomendada para menores de 18 anos.



Ficha técnica:
Referência bibliográfica: BARROS, Daniel. Mar de pedras. 1ª edição. Brasília, Thesaurus Editora, 2015. 255 páginas.
Gênero: Romance;
Temas: Romance, traições, política, fotografia.
Categoria: Literatura Nacional.
Ano de lançamento: 2015.
















“– Francesca, quer namorar comigo?
            O sorriso provocado pela queda agora se transforma em pasmo. Ela abaixou o rosto e seus olhares se entrelaçaram, e os lábios se tocaram. Henry pôde sentir uma boca como nunca havia sentido, num beijo macio e apaixonante. Um torpor de contentamento e felicidade tomou conta da sua mente. Queria falar, mas as palavras não saíam. A alegria parecia se espalhar fisicamente para os lados; o pensamento por certo momento desvaneceu. Nunca havia sentido algo tão especial. Recomposto, levantou-se e, sem dizer nada, voltou a beijá-la prazerosamente. A cada toque, seus corpos se excitavam e um calor corria por sua pele. Era prazer físico e, ao mesmo tempo emocional. Voltaram abraçados para o hotel. No elevador, já sentiam a falta de outro beijo. Não queriam se despedir, até que ela abriu a porta do quarto e entrou devagarzinho para não acordar Carolina.
            Ao deixá-la, Henry ainda sentia o cheiro dos lábios dela, que permanecia no bigode. Não quis lavar o rosto para não perdê-lo. O fervor de contentamento não o deixava dormir, e o semblante de Francesca não saía de sua mente. Ele fechou os olhos para ver melhor. Não quis deixar de pensar nela, pois queria continuar, mesmo depois de adormecer.”
*Mar de pedras (pág. 129).


                Henry Melo, fotógrafo profissional, solteiro, boêmio e galanteador, divide seu tempo entre a ilha de pescadores no interior do Alagoas onde vive e as várias cidades para onde viaja a trabalho com relativa frequência. Sua profissão lhe permite conhecer muitas mulheres, belas e jovens modelos. Seu estilo de vida lhe proporciona relacionamentos baseados em atração física, sexo e casos de curta duração. E Henry leva a vida à sombra da amendoeira de seu quintal, regado a bebidas e embalado pelo som do mar que banha o vilarejo que tanto ama. Mas os caminhos da vida o levam a se envolver cada vez mais profundamente com os problemas e aflições daquele povo trabalhador e sofrido pelo qual sente afeição verdadeira. E enquanto se vê cada vez mais enredado pelos problemas e, consequentemente, pela política local, Henry se envolve com uma importante personalidade do vilarejo ao mesmo tempo em que, para sua própria surpresa, se descobre apaixonado por uma jovem modelo que acaba de conhecer. 
                Tórridos relacionamentos sexuais, uma pitada de romance e, sobretudo, política. Este é o mote de “Mar de Pedras”. O plano de fundo é um pacato e paradisíaco vilarejo de pescadores. E nele se desenrola uma história em que a “hereditariedade” do poder público, tão comum em pequenas cidadezinhas do interior, se apresenta como um dos grandes males que assolam o pacífico vilarejo. O jovem e questionável prefeito, membro de uma tradicional família de políticos, pouco se interessa pelas questões da vila de pescadores. Negligenciados por seu governante, o povo da vila recorre aos únicos com alguma condição de lhes atender: Padre Francisco e Henry. E a trama é construída em torno de Henry: seu trabalho; suas peripécias sexuais; seu relacionamento afetuoso com Seu Antônio, o velho pescador que o viu crescer, e sua neta Carolina, que cuida dos afazeres domésticos de sua casa; sua amizade sincera com Padre Francisco; seu carinho para com a cadela Lisbela; e seu empenho em ajudar o povo da vila. Há ainda uma questão que anda mexendo com a cabeça, o coração e os princípios do boêmio fotógrafo: Henry está tendo um caso com uma mulher (algo absolutamente trivial para ele) e está apaixonado por outra (algo espantosamente inédito para ele).
                Narrada em 3ª pessoa, a trama se concentra em Henry, sendo a história contada a partir do ponto de vista do protagonista. Com capítulos curtos e narrativa ágil, o texto apresenta diálogos sucintos e precisos. Mas há longos trechos de texto em que não há diálogos, sendo o próprio narrador a apontar o que eventualmente teria sido dito pelos personagens – o chamado “discurso indireto” – e isso pode causar certa estranheza em alguns leitores. As descrições das cenas de sexo não recorrem à vulgaridade, mas é desaconselhável para menores de idade. A construção do protagonista é bastante detalhada e forte. É possível ter uma noção exata de quem é Henry Melo. Quanto aos demais personagens, somente Carolina recebe um tratamento semelhante, mas não igual. Foram poucos os erros de revisão perceptíveis. A formatação é simples e consistente com a proposta. A capa é muito bela. Devo confessar que demorei a entender a relação do nome da obra, “Mar de pedras”, com a história. Mas ao final do livro, o título faz todo o sentido. Só lendo pra ver. Aliás, o final é, até certo ponto, bastante previsível, mas é lindo e comovente.
                “Mar de pedras” é a terceira obra de Daniel Barros, um alagoano que mora em Brasília desde o fim dos anos 1990. Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Segurança Pública, é policial civil há 17 anos. Como escritor, além de seus romances, tem participações em diversas coletâneas de contos em variados estilos, passando pelo erótico, terror e policial.
                De leitura agradável e fluída, “Mar de pedras” faz uma crítica severa à maneira como é feita política nas cidades interioranas e às consequências disso para a população. Além disso, a obra mostra um homem acostumado a um estilo “solteiro pegador” de vida tendo que se redescobrir e se reinventar ao conhecer o amor. Em suma, “Mar de pedras” é um livro para quem aprecia uma literatura crítica e engajada sem abrir mão de uma história sobre o eterno embate entre o desejo carnal e o amor.




Bibliografia de DANIEL BARROS (ordem cronológica):

Livros:
O Sorriso da Cachorra – Thesaurus (2011);
Enterro sem Defunto – Ler Editora (2013);
Mar de Pedras – Thesaurus (2015).

Participações em coletâneas:
Coletânea Contos Eróticos – APED (2013);
Enquanto a noite durar – APED (2013);
Antologia Sombras e Desejos – Ixtlan Editora (2014);
Os bastidores do crime – APED (2014);
Toda forma de amor – Darda Editora (2014).
Comentários
18 Comentários

18 comentários:

  1. Respostas
    1. Fico feliz em poder ajudar a divulgar as histórias criadas por nossa gente.
      Parabéns pelo trabalho, Daniel.

      Excluir
    2. Obrigado Helkem, fiquei muito feliz com a resenha!
      Se interessar, posso te mandar o anterior; Enterro sem defunto.

      Excluir
  2. Parabéns Daniel! Excelente trabalho! Admiro essa vertente literária para além do nosso dia-a-dia! Surpreendente!

    ResponderExcluir
  3. Excelente livro. História cativante com personagens bem construídos.
    Narrativa ágil e objetiva.
    Na minha opinião, é o melhor livro de Daniel.

    ResponderExcluir
  4. Daniel sempre nos reserva uma excelente leitura. Vale a pena conferir.

    ResponderExcluir
  5. É muito bom para uma jovem aspirante observar uma trajetória ascendente de determinação e sucesso. Parabéns ao autor da resenha e parabéns ao autor do livro.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Ta Lita
      Que bom que gostou da resenha. Se ainda não leu, aproveite para ler o livro. Espero que goste.

      Excluir
  6. Mais uma obra prima deste excelente autor brasileiro! Parabéns! Continue com seu trabalho exemplar.

    ResponderExcluir
  7. Na expectativa por ler mais essa bela obra de Daniel Barros, certo de que não me arrependerei. Ótima resenha de Helkem Araújo.

    ResponderExcluir
  8. Comecei a ler o Mar de Pedras há de manhã e já estou na pág 170! Excelente leitura, difícil de largar! Muito feliz de ter um primo escritor competente e de sucesso!! Parabéns! Abraço de seu primo Jairo Melo
    OBs: Patricia é minha filha sou muito ligado ao meio digital.

    ResponderExcluir

Deixe o seu comentário!