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22/12/2015

RESENHA - Peter Pan tem que morrer (John Verdon)

John Verdon
Ficha técnica:
Referência bibliográfica: VERDON, John. Peter Pan tem que morrer. 1ª edição. São Paulo, Arqueiro, 2015. Tradução: Ivanir Calado. 398 páginas.
Gênero: Romance Policial.
Temas: Assassinato, investigação criminal.
Categoria: Literatura estrangeira; Literatura norte-americana.
Ano de lançamento: 2014 nos Estados Unidos; 2015 no Brasil.
Série Dave Gurney: Eu sei o que você está pensando (Livro 01); Feche bem os olhos (Livro 02); Não brinque com fogo (Livro 03); Peter Pan tem que morrer (Livro 04).









“Esti deu de ombros.
– Sabemos que é um assassino profissional.
Gurney assentiu.
– O que mais?
– É caro, especializado em contratos difíceis.
– Serviços impossíveis, que mais ninguém aceita, segundo o que Donny Angel disse. O que mais?
– É um psicopata?
Hardwick interveio:
– O psicopata do inferno. Com pesadelos. Pelo que vejo, esse escrotinho é uma máquina de matar tremendamente motivada, raivoso, maluco, sedento de sangue e sem a menor chance de mudar de vida tão cedo. E você, Sherlock? Tem alguma outra ideia para nós?
Gurney bebeu o resto de seu café morno de um gole só.
– Estive tentando juntar tudo isso e ver no que dá. A absoluta insistência dele de fazer tudo a seu modo, sua grande inteligência combinada com uma absoluta falta de empatia, sua fúria patológica, suas habilidades de matador, seu apetite para assassinato em massa, tudo isso junto poderia tornar o pequeno Peter o exemplo máximo do fanático por controle saído do inferno. (...) Ah, e mais uma coisa que o Angelidis me disse, que quase esqueci de mencionar. O pequeno Peter gosta de cantar enquanto está atirando nas pessoas.(...)”
*Peter Pan tem que morrer (pág. 308).

                Um rico empresário no início de uma promissora carreira política sofre um atentado durante o enterro de sua mãe. A bala de fuzil, disparada de um prédio muito distante, destrói boa parte de seu cérebro, deixando-o num estado vegetativo, terminando por matá-lo durante o julgamento da principal e única suspeita pelo crime: a esposa infiel. Com o homem morto, a mulher condenada e sentenciada pelo crime, estaria encerrada a história. Mas não estava. Quando Jack Hardwick, um ex-investigador do Departamento de Polícia de Nova York, procura Dave Gurney, detetive aposentado,  pedindo sua ajuda para provar que o processo de acusação e consequente condenação da viúva havia sido fraudulento, a investigação independente que se inicia sugere que há muito mais por trás desse crime tão chocante, e que nem tudo é o que parece. E, pior que tudo, a trilha parece levar a um assassino incomum e muito, muito perigoso.
                Peter Pan tem que morrer é um thriller policial cheio de suspense, mistérios e reviravoltas.  A princípio, Dave Gurney está tentando (um tanto contra sua vontade) se adaptar a sua pacata vida rural nas montanhas. Mas a chegada intempestiva de Jack Hardwick e o caso que ele traz consigo acabam por originar muito mais agitação que o detetive aposentado esperava e, com certeza, bem mais que Madeleine, sua esposa,  gostaria. Ressentido por sua expulsão da corporação, Hardwick deseja entrar com uma apelação para o Caso Spalter (marido assassinado, viúva condenada e sentenciada pelo crime) e provar que todo o processo de acusação havia sido fraudulento. Mas para Gurney, provar a ineficiência (ou a fraude deliberada) do Investigador Chefe não é razão pela qual ele aceita entrar no caso. Ele precisa saber se a mulher é inocente. E, mais que tudo, ele precisa saber o significado por trás daquela expressão de terror nos olhos de Carl Spalter (a vítima), na foto tirada durante o julgamento, pouco antes de sua morte. Assim, com motivações muito diferentes, Gurney e Hardwick embarcam numa investigação independente do caso, uma busca que mostra que o inquérito original negligenciou muitos detalhes e aspectos importantes e, ao que tudo indica, ignorou propositalmente vários outros, tudo com o objetivo de incriminar a viúva assumidamente infiel, Kay Spalter.
                Mergulhando cada vez mais fundo nesse crime tão estranho, Gurney percebe que nada ali parece fazer sentido. São muitas as pontas soltas. São muitas as incongruências. São inúmeros os "ses" e os "porquês". Para Gurney, desde o início fica claro que o tiro disparado contra Carl Spalter foi obra de um profissional. Então o caso, e toda a história do livro em si, giram em torno de três perguntas fundamentais: quem é o assassino?; quem encomendou o assassinato?; e porquê?
                O autor valeu-se de um recurso interessante nesse livro: a identidade do assassino é revelada bem cedo na história. Então, a primeira pergunta fundamental é parcialmente respondida logo de início. Mas a parcialidade da revelação torna-se o motor fundamental para a trama. Ok, eu explico. Apesar de o nome (ou apelido) e a assustadora fama do assassino ser revelado, ninguém (nem mesmo a Interpol) conhece sua aparência ou sua origem. Sabe-se apenas que ele é muito caro, muito bom no que faz, especializado em alvos impossíveis e praticamente impossível de identificar e capturar. E isso torna a trama mais e mais complicada. Ainda mais complicada quando o misterioso assassino começa a enviar "recados" macabros e assustadores para que Gurney e sua pequena equipe informal pare de investigar o caso. É nesse ponto que a história começa a ter uma sucessão de reviravoltas, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e as descobertas de vários crimes estranhos conectados ao caso Spalter. Uma teia incrível de conjecturas  e novos fatos é formada até chegar a um final que, vale ressaltar, foi eletrizante!
                A verdade é que Peter Pan tem que morrer é muito fascinante. Com tantas possibilidades, tantos mistérios e tantas reviravoltas, é impossível impedir a mordida da pulguinha da curiosidade. John Verdon, o autor, consegue fazer com que o leitor progrida rapidamente na história, virando uma página após a outra vorazmente. Muito disso se deve à consistência da trama, mas também muito disso se deve ao ritmo narrativo que se acelera progressivamente e à combinação peculiar dos personagens. Alguns coadjuvantes importantes  como Kay Spalter,  Jack Hardwick e até a vítima Carl Spalter, mesmo não sendo detalhados a fundo, tem os traços marcantes de suas personalidades bastante evidenciados no livro. O antagonista, ainda que misterioso, também recebe tratamento parecido, deixando satisfatoriamente claro o padrão de raciocínio de sua mente incomum e um tanto perturbada. Já o protagonista Dave Gurney é bastante esmiuçado. Algo curioso é a inegável semelhança entre ele e o protagonista da série "Dr. House" no que tange às motivações de ambos para o trabalho.
               
            "A verdade era que um caso complexo de assassinato atraía sua atenção e sua curiosidade mais do que qualquer coisa no mundo. Ele podia inventar motivos para isso. Podia dizer que era uma questão de justiça. Corrigir um desequilíbrio terrível no esquema das coisas. Defender os que tinham sido injustiçados.
            Mas havia outras ocasiões em que considerava que isso não passava da vontade de solucionar quebra-cabeças de alto risco, um impulso obsessivo-complusivo de encaixar todas as peças soltas. Um jogo intelectual, uma disputa de mente e vontade. Um tipo de jogo em que ele podia ser excelente."
(Pág. 56)

                Embora muito focado e obcecado em "resolver o quebra-cabeça", Gurney é sim um tanto recluso e um pouco avesso a interações sociais, mas não chega nem perto de alcançar o nível de antipatia do rabugento Dr. House, o que faz dele um personagem muito mais carismático.
                É importante ressaltar que Peter Pan tem que morrer é o quarto livro de uma serie batizada de "Série Dave Gurney" em homenagem ao detetive protagonista. Mas é igualmente importante ressaltar que cada livro é fechado em si mesmo, ou seja, cada livro tem uma história independente. Embora eu não tenha lido os outros volumes da serie e só tenha percebido que se tratava de uma ao pesquisar sobre o autor para construir essa resenha, não senti qualquer prejuízo na minha compreensão da trama. Lendo as sinopses dos predecessores, percebi que esta obra faz referência ao livro imediatamente anterior – "Não Brinque com Fogo" –  de forma muito natural, apenas citando um caso passado em que o protagonista e seu "parceiro" Jack Hardwick trabalharam. Da maneira como a trama foi construída, e acredito que os demais sigam a mesma lógica, não parece haver a obrigatoriedade de que a leitura siga a ordem de publicação dos livros. Essa estratégia é algo muito recorrente em series policiais clássicas como Sherlock Holmes (de Sir Arthur ConanDoyle) e Hercule Poirot (de Agatha Christie).
                Narrado em terceira pessoa, a trama tem foco em Gurney e em suas deduções e descobertas, sempre acompanhando os passos desse personagem. Exceto por dois trechos, dois prólogos (sim, isso mesmo, dois prólogos: um evidentemente no começo do livro e outro abrindo a quarta e última parte, antes do capítulo 54!) que focam no estranho assassino. A obra é composta por 62 capítulos divididos em quatro partes, cada parte vinculada à resolução de um aspecto importante do crime. Não há erros evidentes na tradução ou na revisão. A capa é simples e remete aqueles jogos de montar palavras através de letras soltas, bastante condizente com a temática policial. Mas há um crítica importante a ser feita: embora a identidade do assassino não seja o principal mistério da trama, o título do livro (transcrição literal do original em inglês "Peter Pan Must Die") entrega muito mais do que deveria.
                Assim como o detetive protagonista de seus livros, John Verdon abandonou a vida agitada da cidade grande para desfrutar a tranquilidade da vida aos pés das Montanhas Catskill. Verdon foi publicitário, marceneiro e chegou a tirar uma licença de piloto comercial. Em seu paraíso rural, seu amor pelos romances policiais de autores consagrados como Conan Doyle, Ross Macdonald e Reginald Hill floresceu. Foi por sugestão de sua esposa que John Verdon deixou de apenas ler histórias policiais para escrever histórias policiais. E assim, com o sucesso absoluto de seu livro de estreia "Eu sei o que você está pensando" (Think of a Number, no original) e de seu astuto protagonista, Verdon trouxe para a literatura contemporânea uma serie policial nos moldes clássicos do gênero.
                Este  livro vai agradar em cheios os fãs de histórias detetivescas que usam e abusam do raciocínio do leitor para decifrar as pista. Os fãs da literatura policial clássica certamente não irão se decepcionar. Aqueles que gostam de personagens intrigantes também irão encontrar nesse livro alguns belos exemplares. Por fim, aqueles que apreciam uma narrativa bem construída, terão uma leitura bem mais prazerosa.
               



Bibliografia de JOHN VERDON (ordem cronológica):

Livros:




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Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. Sua resenha está muito boa, me interesso e pretendo ler Peter Pan Tem Que Morrer, já li muitos comentários positivos em relação a história desse livro, e isso só me deixa mais ansiosa para lê-lo.

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    1. Oie. Mariele
      Eu gostei muito livro. Sou uma fã antiga de livros policiais. Quando adolescente, li vários do Sherlock Holmes.
      Espero que goste. Quando ler, volte pra nos dizer sua opinião.

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  2. Gostei muito desse livro, mas te confesso que achei ele bem complicadinho da metade para frente.

    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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  3. Nossa, gostei muito da resenha! Sobre o livro, só o nome e a capa já atraíram minha atenção. Percebi que, mesmo não tendo lido muitos livros policiais, gosto bastante. Gostei da premissa, e acho que vou colocá-lo (ou melhor, os anteriores) na minha lista. E como você disse que tem um "toque" de Agatha Christie, gostei mais ainda.
    Bjos
    Coisinhas Aleatórias

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  4. Posso dizer que o nome por si só já me interessou a princípio, mas depois de ler essa resenha, este é um livro que quero passar para primeiro lugar na minha lista de leitura. Sério, não esperava que ele fosse tão eletrizante assim, e eu sou muito fã desse tipo de livro, principalmente envolvendo mistérios a ser revelado. Isso de o autor já revelar parcialmente quem era o assassino, achei uma sacada genial, realmente, me despertou o interesse. E não tinham nem ideia de que era uma série, bom saber ��

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  5. Olá!
    Gosto muito de livros policiais e tenho bastante vontade de ler esse. Inclusive o recebi de parceria com a Arqueiro, mas foi outra menina do meu blog que leu. Um dia ainda pego emprestado com ela!
    Beijo.

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  6. Olá, ótima resenha. Tenho bastante curiosidade para ler esse livro, o título já é instigante, e a trama parece super interessante.

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  7. Oi, tudo bem?
    Fui um pouco tola porque quando li o título achei que tivesse alguma relação com o Peter da Sininho, mas ao desenrolar da leitura da sua resenha percebi o porquê deste título. Achei o livro bem interessante, ainda mais porque não tenho o costume de ler Thrillers e a sua resenha me envolveu bastante com livro, achei muito bem detalhada.
    Beijos, Larissa (laoliphant.com.br)

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  8. Oi Hel, tudo bem? Não sabia que esse livro era um thriller policial, mas adorei saber um pouco mais sobre a história.
    Eu gosto de livros policiais (meu preferido até agora é da autora de Identidade Roubada). Mas sua resenha está ótima e acho que quando puder vou solicitar ele. Parabéns pela resenha ;)

    Beijos
    Leitora Sempre

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  9. Olá! Nossa, parabéns por sua resenha! Gostei bastante! Amo livros policiais, que nos prendem, nos fazem entrar no mundo deles e instiga nossos instintos de detetives. Gostei muito da premissa do livro, deu para perceber que tem bastante ação e conspiração, muito bom! Abraços

    http://livrosepergaminhos.blogspot.com.br/

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  10. Oie
    Fiquei curiosa pela leitura do livro por gostar do gênero e não ler tanto, além do mais vi várias resenhas elogiando e o enredo está bem legal

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  11. Oi, tudo bem?
    A cada resenha que leio do livro bate aquele arrependimento por não ter solicitado, espero em breve conseguir lê-lo, adoro a premissa desse livro!
    Bjs

    a-libri.blogspot.com.b

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  12. Não leria por não se um gênero que eu me arrisque muito, mas sua resenha está muito bem escrita e desenvolvida, parabéns!

    Abraços e até!!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

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  13. Olá,
    Gosto bastante de livros de detetives, mesmo que algumas coisa sejam repetidas ainda assim sempre me interesso pelo gênero. Quanto ao personagem tem mais jeito de ser o Sherlock Holmes mesmo.

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