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04/10/2016

Resenha – Elos do Mau Agouro (Tiago Santos-Vieira)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: SANTOS-VIEIRA, Tiago. Elos do Mau Agouro. 1ª edição. São Paulo, Editora Giostri, 2015. 151 páginas.
Gênero: Terror;
Temas: Morte, religião, estupro, canibalismo;
Categoria: Literatura brasileira;
Ano de lançamento: 2015













“Quando tentou gritar, não conseguiu. O pai arrancara sua língua. Puxou-a o máximo que conseguiu com alicates, passou o bisturi e cauterizou. Acondicionou-a numa caixa de isopor com gelo. O algoz foi cuidadoso. Desceu ainda a lâmina garganta abaixo, desatando-lhe as cordas vocais. Mas mesmo que pudesse gritar, ninguém ouviria. O sítio estava vazio e não havia vizinhos em um raio de cinco quilômetros.”
*Elos do Mau Agouro(pág. 19).

No Brasil, um padre comete uma atrocidade que é rapidamente acobertada pelo Vaticano. O ato tem macabras implicações na história dos três personagens centrais da trama: o padre, uma noviça e um terrorista do ETA. Mas antes de entender o presente, se faz necessário voltar ao passado, no íntimo de uma comunidade fechada na Espanha, na região do país Basco, onde tudo começou.
Se precisasse definir essa obra em uma palavra, ela com certeza seria: perturbador. Elos do Mau Agouro apresenta uma tétrica história onde o mal espreita em todas as direções, mas ao contrário do que as pessoas podem pensar, esse mal não é uma entidade e sim a propensão da humanidade de fazer o mal quando é estimulada a tal. A obra começa contando a história de Marco Muñoz, um garoto de catorze anos que vivia em uma comunidade fechada no país Basco. Ele nutria uma relação com sua prima Helena, na qual ambos se encontravam às escondidas. Um primo de ambos, Guilhermo, praticava voyeurismo e certa vez foi pego pelo primo, levando uma surra na sequência. Por vingança, o primo denunciou o casal. O clã, que era fervorosamente católico, resolveu expulsar ambos da comunidade, mandando Marco para um seminário e Helena para um convento. E como diria Confúcio: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas”. Anos depois, Guilhermo perdeu o pênis em um acidente com uma máquina agrícola. A partir dessa sequência de eventos, Tiago Santos-Vieira narra uma história macabra em que certas escolhas podem ter nefastas consequências no futuro.  



Num primeiro momento acreditei que a força do mal provinha de alguma entidade maligna acima da compreensão humana (por conta do texto da contra capa), mas ao longo das páginas percebi o óbvio: a maldade era inerente aos humanos. O autor apresenta uma narrativa crua e pesada de pessoas que possuem dentro de si seus piores demônios aflorados por outros demônios ainda mais nefastos. E novamente, não estamos falando aqui de alguma entidade maligna e sim do que há dentro de nossas almas.
O que me incomodou na leitura foi o seguinte: o livro é muito truncado. Sei que isso foi proposital do autor, mas a salada mista de narrativas, que ia e vinha, alternando entre passado e presente, entre personagem A e B muitas vezes me tirou o foco. A parte em que mais consegui me focar foi na narrativa da noviça Helena (que por sinal, na minha opinião, foi a que mais sofreu e por quem eu mais torci para ter um fim diferente). Além disso, o autor usava de muitos termos pouco usuais como “passamento”, “ulcerda”, “quisto”, “xifópagos”, “apoteose”, etc . Não que isso seja ruim, até aumentou minha lista de novas palavras, mas me tirou muito tempo de leitura. E o fato de não ter indicativo de tempo prejudicou muito minha leitura. Do tipo: “Espera, isso aconteceu antes ou depois dessa parte?”.
Tenho de dizer que em alguns momentos me perdi completamente em relatos de personagens que (aparentemente) nada tinham a ver com os apresentados no início do livro e já achava que o autor tinha se perdido na história. Para então meu queixo cair com a revelação bombástica de que tudo o que era sem nexo, se conectava de uma maneira tão bizarra que não parecia ser possível à vida dar uma volta completa em si mesma. Coisas assim muito discutidas na Teoria do Caos, na qual o autor se apoia: um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. E é isso que Elos do Mau Agouro é na sua essência: uma sequência de eventos terríveis que tiveram início no momento em que um simples menino denunciou um amor proibido.  
Aí vocês podem até perguntar: mas e aí, gostou do livro? Minha resposta para essa pergunta é: não consigo dizer se gostei ou não porque ao mesmo tempo em que fiquei animado com certas partes, fiquei desanimado com outras. Não gosto de ficar em cima do muro, mas aqui está uma exceção à regra.
A história é narrada em terceira pessoa, apresentando em seus dez capítulos os acontecimentos dos seus três personagens centrais, alguns coadjuvantes e suas nefastas consequências. Embora seja um livro pequeno, não o considero rápido de ler. Primeiro porque apresenta uma narrativa crua, que pode assustar os de coração fraco; segundo, por ter muitas palavras de difícil compreensão no texto e mudar em alguns pontos o estilo da narrativa; e por último, pela história ser muito truncada, indo e voltando no passado e presente quase que sem aviso (algum indicador de datas ajudaria muito). A revisão pecou bastante. O autor usa aspas nas falas do personagem em boa parte do livro e de repente usa travessão e logo em seguida volta para aspas. Outra coisa que causou estranheza foi as alterações do tempo verbal. Em uns momentos, o autor usa os verbos no passado e em outros momentos, ele usa os verbos no presente. Não entendi bem se isso foi proposital ou um erro de revisão. Encontrei alguns errinhos de gramática também. A diagramação está boa, com bons espaçamentos e folhas amareladas. Na capa temos a imagem de um tridente, uma alegoria ao “Tridente do Diabo”.
Tiago Santos-Vieira é natural de Caratinga – MG. Formou-se em jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora. É analista do Ministério da Fazenda. Trabalhou para veículos como Rolling Stone, TPM (Trip Para Mulheres), Riders e Diário de Guarulhos.
Recomendo o livro para quem gosta de uma leitura mais pesada e curiosos de plantão que queiram se aventurar nesse tipo de narrativa. Como eu já comentei acima, esse livro não é para corações fracos, logo, não recomendo de forma alguma para pessoas que tenham algum problema em ler sobre assuntos que abordam assassinatos, estupro, religião e outras coisas mais violentas.
Elos do Mau Agouro é uma obra literalmente agourenta e que por mais que se trate de uma ficção, é totalmente plausível de acontecer na vida real.


Bibliografia de TIAGO SANTOS-VIEIRA (ordem cronológica):

Livros:
  • Elos do Mau Agouro – Giostri (2015).


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Comentários
5 Comentários

5 comentários:

  1. Luciano!
    Gosto de livros de terror e gostei de saber que tem um padre envolvido e que o Vaticano encoberta tudo, como sempre fazem, né?
    Mesmo com suas restrições a leitura, ainda daria uma chance, afinal, é um escritor nacional que gostaria de conhecer a escrita.
    “A sabedoria consiste em ordenar bem a nossa própria alma”. (Platão)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de OUTUBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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    1. Olá! Toda leitura deve ser compartilhada e indicada. O meu gosto não é o mesmo gosto dos leitores e vice-versa! Vamos dar sim uma chance a nova literatura nacional.
      Boas leituras!
      Beijos!

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  2. Estava curiosa com a história, mas perdi bastante da vontade de lê-la ao ver que é uma narrativa muito pesada. Não gosto de livros assim, por que tenho o "estômago fraco". Quem sabe um dia, mais à frente eu venha a ler esse livro, mas por enquanto não é algo que me interesse.

    Abraços :)

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    1. Olá, Ingrid!
      Realmente, tem de ter estômago para ler essa história. Não é para qualquer um.
      Abraços!

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  3. Parece ser um livro ótimo, mesmo com os pontos negativos que você citou., principalmente por causa dessa pegada histórica. O suspense me pegou de jeito e gostaria muito de conhecer. Aliás, adorei a resenha, super completa.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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