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20/06/2017

RESENHA – Guanabara Real: A Alcova da Morte (A. Z. Cordenonsi, Enéias Tavares, Nikelen Witter)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: Cordenonsi, A.Z.; Tavares, Enéias; Witter, Nikelen. Guanabara Real - A Alcova da Morte. 1ª edição. Porto Alegre, Editora AVEC, 2017. 240 páginas.
Gênero: Ficção Steampunk
Temas: Mistério, ocultismo, assassinatos, investigação.
Categoria: Literatura Nacional.
Ano de lançamento: 2017
Série: Guanabara Real - A Alcova da Morte (livro 1)
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  “O homem fez um gesto para o Intendente e ambos puxaram as cordas que ali estavam simbolicamente. Os longos panos inaugurais foram puxados por uma máquina instalada junto ao pedestal e, ao caírem, finalmente revelaram uma estátua impressionante.
         Era descomunal e chocante nos seus trinta e oito metros de altura. Fruto de uma engenharia avançada até para os padrões europeus.
         Com os braços abertos, a figura longilínea, de barbas e cabelos longos, contemplava carinhosamente o Rio de Janeiro aos seus pés.
             Os “ohs” foram logo abafados por fortes aplausos.
*Guanabara Real – A Alcova da Morte (pág. 18 e 19).

Rio de Janeiro.
A cidade se encontrava em polvorosa com a inauguração de um gigantesco monumento no morro do Corcovado. A alta sociedade carioca estava presente no que parecia ser uma noite memorável e que seria por muito tempo lembrado por todos. Porém, chegado o grande dia, um horrendo crime choca a todos: um cadáver é encontrado em uma câmara enigmática escavada dentro do morro que rapidamente foi apelidada de “Alcova da Morte”. Maria Tereza, uma detetive particular, estava na festa e se envolve na investigação junto aos seus dois associados da Agência de Detetives Guanabara Real. O que parecia ser apenas mais um caso, aos poucos se transforma em uma intrincada trama de poder e corrupção que põe em risco não só a Cidade Maravilhosa, mas todo o Brasil.
Guanabara Real – A Alcova da Morte é o primeiro volume de uma série concebida pelas mãos de três autores: Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi e Nikelen Witter. A obra conta a história de três detetives de uma agência chamada Guanabara Real. Eles são investigadores particulares, desvendando crimes que ora são ignorados pelas forças da lei, ora nem a própria polícia dá conta de resolver. Maria Tereza, fundadora da agência, é incumbida por um contratante misterioso de solucionar um caso de assassinato no dia da inauguração de um monumento do magnata Barão do Desterro. Junto a seus associados – o Dr. Firmino Boaventura e o dândi místico Remy Rudá – Maria Tereza começa a descobrir que o assassinato era apenas a ponta de um Iceberg profundo e sombrio.
(imagem)

Sensacional! Acho que usaria essa palavra se pudesse resumir minha experiência com a obra. Embora soubesse de antemão que o trabalho dos autores era bom, tive um pouco de receio, já que são três cabeças pensantes em um único livro. Se já é complicado centrar ideias com um, com dois, imagina com três autores! Mas eles cumpriram com êxito o desafio e entregaram um livro brilhante, instigante e muito bem escrito.
O livro é ambientado em um Brasil pós-Proclamação da República, e embora tenha a cidade do Rio de Janeiro como cenário, Guanabara Real está em um universo alternativo steampunk, onde máquinas a vapor e engenhocas avançadas demais para a época eram coisas corriqueiras. Posso citar como exemplo a mão robótica de Firmino, que consegue reproduzir com perfeição os movimentos de uma mão comum e seu carro-caldeira, seu meio de transporte mecânico. Além de outros apetrechos que o engenheiro utiliza em suas investigações. E ao mesmo tempo, a obra respeita muitas das características da Cidade Maravilhosa, dando um tom crível para a narrativa, com a única peculiaridade de estar inserida em um universo mais fantástico.
Cada capítulo é focado em um dos personagens. Isso é interessante porque os três são muito diferentes entre si. Cada qual com sua perspectiva de mundo, suas experiências, e suas crendices (ou falta delas). Isso é amplamente ilustrado na relação entre Remy e Firmino. O primeiro acredita em forças que vão além da compreensão humana, enquanto o segundo é pragmático e acha que Remy é apenas um charlatão. E existe a figura de Maria Tereza para segurar as rédeas e dar um jeito nas “crianças”. E essa troca de visões entre os autores faz com que a leitura fique ainda mais dinâmica.

       “Vasculhou a valise atrás de uma máquina ferrótipa de papel albuminado, posicionando-a no centro da câmara. Remy já devia estar chegando e era melhor ele terminar o seu trabalho o quanto antes. Não suportaria ver o místico invadir o local com seu olhar superior, enquanto passava as mãos pelas paredes, colhendo ‘vibrações’. Não entendia como Maria Tereza tolerava aquele embusteiro”.
*Guanabara Real – A Alcova da Morte (pág. 29).

(imagem)
Da esquerda para a direita: Remy, Maria Tereza e Firmino
O ponto alto do livro são as críticas sociais abordadas pelos autores ao longo da narrativa. Guanabara Real é um tapa na cara da sociedade, pois retrata, na forma de seus personagens, todo o preconceito que as pretensas minorias sofrem apenas por serem quem são. Livrando-se de estereótipos, os autores entregaram personagens incomuns até mesmo para a nossa literatura contemporânea. Sem contar que a obra é ambientada em uma época em que ser machista, racista ou homofóbico era praticamente comum. Fora isso, temos o abismo socioeconômico no qual vivem os habitantes. Os mais abastados vivendo em mansões luxuosas, com acesso a boa saúde, educação e segurança, enquanto os pobres vivem em favelas mal cheirosas, onde a criminalidade domina tudo e a todos.

“O bilheteiro, que viajava em pé, com cara de quem gostaria de estar em qualquer outro vagão, desdobrava-se em explicações aos passageiros. Era o progresso, respondia ele, enquanto atentava ao rangido das engrenagens de sua mão mecânica e para a cor de sua pele. O dinheiro era tão bom quanto o de qualquer outro e o patrão o demitiria se não o recebesse. Era a Lei e a companhia teria problemas se não dispensasse um tratamento mínimo aos novos cidadãos.
Firmino ajeitou a luva na mão direita. Era um gesto automático e ele se irritou. Ao esconder as engrenagens, parecia estar dando vazão aos sentimentos alheios, reforçando a tese do seu não pertencimento àquele lugar”.
*Guanabara Real – A Alcova da Morte (pág. 29).

E isso é retratado com muito êxito na figura dos três personagens centrais: Maria Tereza, por ser uma mulher que comanda um negócio, tem de conviver com o machismo, sendo sempre vista com olhares tortos pelos homens, já que a mulher daquela época era submissa às vontades dos homens. E a detetive tinha de conviver e lidar diariamente com essas pessoas por ser a líder da agência. Firmino é negro, e isso por si só já é o suficiente para que seja tratado com inferioridade por todos a sua volta. Nem mesmo seu conhecimento avançado de engenharia o salva do racismo. E por fim, Remy possui traços indígenas, é bissexual e lida com o misticismo. Em um país conservador e majoritariamente cristão, o dândi é visto com maus olhos por todos. Juntos, os três personagens são personificações da luta contra o preconceito que as minorias sofrem perante a sociedade. Porém, isso acaba por se tornar combustível para fortalecê-los. A cada tombo, eles se levantam mais fortes e mais capazes de transpor todos os desafios, mostrando que o primeiro passo para combater o preconceito é se levantar e erguer a cabeça.

“Remy adentrou o espaço centenário, ignorando os poucos visitantes que ainda estavam por perto e suas piscadelas de reprovação. Era uma existência interessante, ser um pária em todos os lugares e diante de todas as gentes.
           E Remy se divertia com isso. ”
*Guanabara Real – A Alcova da Morte (pág. 67).

            A obra foi escrita em terceira pessoa. O interessante é que a cada capítulo acompanhamos a história pela ótica de um dos três personagens centrais. Ou seja, cada capítulo é escrito por um dos autores do livro. Nikelen Witter se encarregou de dar voz a personagem Maria Tereza. Andre Zanki Cordenonsi ao personagem Firmino, enquanto Enéias Tavares deu voz ao personagem Remy.
Mas não pensem que os capítulos são focados em apenas um personagem. Embora seja central, eles interagem entre si na maioria dos capítulos. Cada vez que o foco muda, podemos descobrir um pouco mais sobre aquele personagem em destaque. Para aqueles que acham que isso pode comprometer o ritmo da história, digo que não foi o caso. Os três souberam dosar bem a trama, amarrando todas as pontas sem deixar qualquer disparidade ou erros de continuidade na troca de capítulos. A fluidez da narrativa é veloz. Embora a linguagem empregada no livro seja propositalmente adaptada para replicar a época em que a história ocorre, isso não chega a atrapalhar em nada o entendimento do livro.
Cada novo capítulo nos faz ficar ainda mais curiosos com o seguinte, prendendo ainda mais a atenção. Os autores fizeram questão de terminar um capítulo com alguma coisa importante e enquanto você lê o próximo, fica louco para saber o que vai acontecer com o outro personagem e assim a obra caminha até o final (e que final, meus amigos, que final!). A revisão está muito boa, quase não vi erros. A editora AVEC está de parabéns pelo trabalho feito na diagramação. O livro é lindo. Destaque especial para os recortes de jornais usados em algumas passagens do livro. Cada capítulo (são 21 ao todo) vem com uma identificação de quem é o personagem, a data, o local e o horário dos acontecimentos (foto abaixo). Elementos esses que ajudam demais o leitor a se situar na trama A capa mostra os mocinhos, com a fantástica Maria Tereza no meio, o enigmático Remy à esquerda e o gênio Firmino à direita.
(imagem)

Andre Zanki Cordenonsi é um autor gaúcho de fantasia e aventura. Ele foi finalista do prêmio Argos 2014, a principal premiação nacional do gênero. É romancista, membro do Conselho Steampunk – Loja Rio Grande do Sul e contista, com mais de uma dúzia de textos publicados. Atualmente é professor da Universidade Federal de Santa Maria e palestrante. Andre nasceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, onde mora com a esposa e dois filhos.
Enéias Tavares é professor de Literatura Clássica na Universidade Federal de Santa Maria e diretor do Centro de Pesquisas William Blake. Escreve ficção desde que tinha seis anos de idade (se é que rabiscos num pedaço de papel que o próprio considerava histórias em quadrinhos podem ser chamadas de ficção). Criou Brasiliana Steampunk em setembro de 2013, aglutinando velhas ideias para romances não terminados, heróis da literatura brasileira e verniz retrofuturista. Desde então, tem sido visto na companhia de pessoas suspeitas em fantasias exóticas. Sua base de operações é Santa Maria (RS).
Nikelen Witter é uma escritora que se define pela necessidade insufocável de contar histórias. Amante da leitura, se encontrou como escritora de Literatura Fantástica em 2005. Os contos começaram a ser publicados em 2011, em diversas antologias de editoras de diferentes partes do Brasil. Seu conto Mary G. foi finalista do Prêmio Hydra de 2014. Seu romance Territórios Invisíveis (2ª ed. 2017, Avec Editora), foi finalista do Prêmio Argos de 2013. É uma das organizadoras do projeto Odisseia de Literatura Fantástica. É também historiadora, professora e pesquisadora das questões de feminismo e de gênero.
          Guanabara Real - A Alcova da Morte é um livro que começo recomendando para os aficionados em literatura fantástica. Temos conceitos do gênero Steampunk, temos boas doses de misticismo. Além do fantástico, os fãs do suspense vão encontrar uma narrativa regada a mistérios, assassinatos e maquinações que farão você devorar as páginas para tentar descobrir o que está acontecendo. Mas não se engane com o que digo, não só de morte e ação vive a obra. Há espaço para romances e até mesmo pitadas ácidas de erotismo.  Porém, acredito que o grande atrativo de Guanabara seja as toneladas de críticas sociais. Sem levantar bandeiras, os autores exploram de forma brilhante o preconceito impregnado na sociedade.
          Com um enredo fascinante, personagens carismáticos, um final surpreendente e um gancho gigantesco para a próxima aventura dos detetives, Guanabara Real - A Alcova da Morte foi uma agradável surpresa e mal vejo a hora de ter em mãos o próximo volume.



Bibliografia de A. Z. Cordenonsi, Enéias Tavares e Nikelen Witter (ordem cronológica):

Livros:

  • Guanabara Real: A Alcova da Morte – Editora AVEC (2017).
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