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19/01/2018

Fazer ou não fazer críticas “negativas” de obras nacionais?


            Não muito tempo atrás publiquei um Academia Opina sobre como os leitores poderiam ajudar autores nacionais sem gastar muito com isso. Não viu? Olha aqui o post. Depois de publicado e receber elogios de alguns autores pela iniciativa, perguntei no stories do nosso Instagram (SIGA NOSSAS REDES! ❤) se os leitores que nos acompanham praticavam alguma boa ação para com a Literatura Nacional. Foi com felicidade que recebi no direct respostas de alguns leitores da Academia com depoimentos de suas ações e sugestões para alavancar a carreira dos autores nacionais sem necessariamente ter de comprar o livro.
            Porém, foi o direct da Luiza, do blog Choque Literário (visitem o blog!) que mais me chamou atenção. Ela disse o seguinte: eu tenho uma duvida sobre isso! Mesmo que o feedback seja negativo? (ela estava se referindo a resenhas “negativas” sobre os livros). Porque o que eu vejo às vezes são os autores ficarem chateados e não conversarem mais com você, aconteceu com parceiros aqui do blog”.
            Tentei dar uma resposta opinando sobre o assunto, mas era impossível dar todas as minhas impressões sobre essa questão em um único storie (ou seria stories? Me ajudem ai!). Resolvi então fazer um “Academia Opina” e o tema de hoje é: devo ou não fazer críticas “negativas” de obras nacionais?

Obs: a palavra negativa aparece entre aspas porque sabemos que nem sempre a crítica negativa é depreciativa.

               Antes de destrinchar sobre o assunto, vamos entender o que é uma crítica. De acordo com o Dicio (Dicionário Online de Português): crítica é a análise avaliativa de alguma coisa. Ação de julgar ou de criticar: "submeteu o livro à crítica do professor". Dentro da Literatura é a atividade que consiste na examinação e avaliação de uma obra. Ok, entendido o que é crítica, precisamos agora dividi-las em dois aspectos: a crítica construtiva e a crítica destrutiva. Vamos olhar uma por uma para voc entenderem onde quero chegar:

Crítica construtiva – são críticas que podem ajudar o outro a refletir sobre algo. Seu principal objetivo é ajudar a pessoa a melhorar em algum aspecto e progredir. Nota: Esse tipo de crítica pode ser mal interpretada e algumas vezes entendida como ataque. A pessoa que recebe a crítica precisa estar disposto e receptivo para ouvir.

Crítica destrutiva – são críticas que ofendem, agridem ou denigrem a imagem de outro. Podem vir em forma de acusação e quem escuta/lê esse tipo de crítica costuma se sentir  desqualificado e inferiorizado. Nota: Nem sempre uma pessoa que faz uma crítica destrutiva é uma pessoa má.


            Estamos entendidos? Agora vem a parte que nos interessa: li um livro e não gostei da história. Devo ou não fazer uma resenha/crítica “negativa”? Na verdade a pergunta que você deve se fazer é: Eu sei fazer uma resenha/crítica que irá apontar as falhas da obra de forma coerente e respeitosa, com o objetivo de ajudar o autor a melhorar sempre e não simplesmente atacar a pessoa do autor? É importante separar o "profissional escritor" da "pessoa escritor". Como qualquer pessoa em qualquer profissão, são "duas entidades" diferentes dividindo o mesmo corpo. E é de suma importância que qualquer pessoa que usufrua do trabalho desse profissional, ficando satisfeita ou não, saiba fazer essa diferenciação. Você pode avaliar o trabalho, não a pessoa.
          Agora vamos supor que você sabe diferenciar os dois e você sabe a diferença entre crítica construtiva e crítica destrutiva. Devo publicar uma resenha “negativa”? A resposta é: SIM!!!. Você pode (ou deve, depende de você). Você não é obrigado a nada, mas se for o seu desejo falar sobre um determinado livro, fale!
   Quero que todos vocês entendam uma coisa: ainda que intrinsecamente ligado à várias setores do mercado editorial, o trabalho dos blogueiros tem como foco os leitores. Fazendo uma analogia: um arquiteto não faz um projeto de arquitetura para agradar outros arquitetos e engenheiros, ele faz para atender as necessidades de seu cliente, o usuário final do espaço construído. Do mesmo modo, ao fazermos uma resenha de um livro, nós blogueiros temos que atender as necessidades dos leitores (o consumidor final), oferecendo a eles nossa opinião sincera e uma análise pautada em nossa experiência e conhecimento acerca do assunto. Apontar acertos e falhas de uma obra literária, qualquer que seja ela, além de refletir em seu público alvo, os leitores (influenciando ou não em seus escolhas de leitura), pode também impactar de alguma forma outros membros da cadeia produtiva do mercado editorial (escritores, editoras, outros blogueiros, etc). Traduzindo: o trabalho do blogueiro é agradar os leitores, e não os escritores ou as editoras ou os outros blogueiros. E quando eu digo agradar, não é fazer qualquer coisa só para ter aprovação de meia dúzia de pessoas. É ser verdadeiro no que diz, transparente, coeso e ciente do que está entregando para o leitor.
   Como blogueiros, somos influenciadores digitais e como tal, nossa palavra pode ser a diferença para um leitor apostar ou não em um livro. Já tivemos casos aqui de leitores que compraram livros porque dissemos que era bom e sei que muitos leitores levam em consideração a opinião de outros colegas blogueiros. Agora imagine a seguinte situação: você, leitor, lê uma resenha super elogiosa sobre uma obra que você desconhecia ou que até conhecia mas estava em dúvida se valeria a pena ou não incluir na sua lista de leitura. Então, convencido pela resenha, você compra o tal livro e, ao lê-lo, você se decepciona amargamente. Mas, veja bem, a leitura é decepcionante não porque você não se identificou com a história ou com os personagens ou ainda com o estilo literário (ou seja, por questões de gosto pessoal). Você se decepcionou porque a narrativa foi mal construída, porque há falhas na lógica estabelecida, porque os diálogos são pobres e superficiais, porque não há construção de personagens ou por qualquer um dos tantos outros tipos de falhas que denotam uma história mal elaborada. Aí você se pergunta: como um livro tão ruim recebeu uma resenha tão boa? Certamente você irá concluir que ou o(a) blogueiro(a) que fez a resenha omitiu informações ou, pior ainda, mentiu descaradamente (por qualquer que seja o motivo). Resultado: adeus credibilidade!
          Vocês devem saber que, por mais que nos esforcemos para ser o mais sinceros, idôneos e respeitosos possível, nossa credibilidade como blogueiros é posta em xeque toda vez que publicamos uma resenha. Opiniões divergentes sempre vão existir.e sempre existem aqueles haters que adoram "causar". Se dizendo a verdade isso já acontece, imagina omitindo fatos. Massssssssssssss entenda que é importante saber o que você está escrevendo e avaliar uma obra não pelo seu gosto pessoal, mas pela qualidade (ou falta dela) na narrativa em questão. E por falar em gosto pessoal, listei 3 situações que podem influenciar uma resenha “negativa”.

1- O livro não é meu gênero de leitura

       Essa é bem comum: você pegou parceria com um autor que não escreve sobre o gênero que você, blogueiro, não gosta. Acontece. Exemplo pessoal: eu não gosto de romances. Sério, não consigo me identificar. Uma vez eu li um livro que tinha um romance "pesado" e toda aquela trama melosa não me descia e eu ainda achava a protagonista meio “blerg”. O que eu fiz? Dei o livro para minha colunista ler. Eu não tinha capacidade de escrever uma resenha daquele livro porque não era um gênero que eu curtia e aquilo provavelmente influenciaria minha resenha. E isso é um dos grandes problemas de blogueiros que aceitam “qualquer” parceria e de autores que não avaliam bem os blogueiros que querem para parcerias.
Entretanto, vejam bem, não estou dizendo que isso sempre acontece, só que acontece com alguma frequência. Podemos sim nos deliciar e surpreender com obras de gêneros que não lemos e até recomendo que façamos isso com alguma regularidade. “Mas você acabou de dizer que não lê romance!”. Eu disse que detesto romance, não que não leio. Quer um exemplo pessoal? Leiam a trilogia “A Caçadora” da autora Vivianne Fair. Nunca soltei tanto “affz” na minha vida (por conta da carga romântica da obra) e adorei a história. Tem resenha dos três volumes “aqui”.
Ah, esqueci de mencionar: minha colunista amou a história.


2- Não gostei do personagem tal

     Outra bem comum. A pessoa detestou a obra por conta de um personagem, mas sua resenha se concentra unicamente em falar mal desse personagem, pois por algum motivo você não foi com a cara dele (Eu já li resenha assim). E o resto da história? Será que um único personagem (mesmo que seja o principal) é suficiente para derrubar toda uma história? Não tem pontos positivos? Ninguém para recomendar?
Na minha opinião todo livro deve ser lido. Alguém, em algum lugar do planeta vai se identificar com a história que você não gostou, tenho 99,9% de certeza. Pode falar que não gostou do personagem X? Claro! Mas tem de deixar claro que aquela é uma visão SUA e não generalizar. Às vezes você está desencorajando pessoas que poderiam estar amando aquela história a troco de uma opinião pessoal. Lembram-se do exemplo que dei acima? Do livro da Vivianne? Tem umas atitudes da Jéssica (a protagonista) que não curti muito e falei na resenha. E continuei gostando da obra. Foi só uma opinião pessoal que de forma alguma deve usar como argumento chave na resenha, afinal, um livro não é feito apenas de um personagem (por mais que as vezes tenha apenas um personagem na trama toda).

3- O livro tem sexo demais (coloque aqui outro tema, como violência)

   Digamos que por algum motivo qualquer você, blogueiro, não gosta de narrativas de sexo em um livro. Mas que por alguma razão do destino você pegou um livro hot para ler (em razão de alguma parceria, talvez). No fim do livro você está puto(a) da vida porque o livro “só tem sexo”. Sua crítica se baseia no fato do autor(a) ter focado demais no sexo. E vamos supor que o foco do texto seja realmente esse. Entende que esse tipo de crítica não está refletindo no teor da obra e sim no seu gosto pessoal? É importante deixar claro que você não gostou porque esse é o seu gosto e não porque o livro é narrativamente mal construído nesse aspecto. E se for, deixei claro também sua opinião sobre as tais falhas.


            Podem observar que nenhum desses tópicos a culpa é do autor. É o gosto pessoal do blogueiro. E não tem nada de errado não gostar de algo. Somos livres para decidir o que gostamos ou não e mais livres ainda para expor nossas opiniões (respeitando o próximo, obviamente). Então, colegas blogueiros, criticar um livro somente por não ter gostado de um personagem, não é uma resenha/crítica. É só um comentário pessoal. E falar “não gostei do livro por conta de fulano”, não é uma resenha. Isso deve vir acompanhado de outros aspectos, como a qualidade da narrativa, o uso correto da ortografia, o que é ou não crível dentro da história… etc. E esse tipo de opinião, autor, não deve ser levado como uma verdade absoluta para definir a qualidade de sua obra, afinal, outros podem gostar do seu personagem.
            E para meus colegas deixo o conselho: escolha bem os autores com os quais querem uma parceria. Veja outras resenhas, analise o estilo de escrita do autor. Veja se você se identifica. Se mesmo assim você foi lá, fez força para ler e não se identificou com a história por um motivo pessoal, cuidado com sua resenha/crítica. E se a obra não for boa mesmo, como diz o ditado: “desce a lenha”. Não tenha medo de apontar falhas. Você pode até não ser um crítico literário (aquele cara que estudou para isso), mas no fim das contas você é um leitor tanto quanto aquelas pessoas na qual você está passando a mensagem. Essa é a essência dos blogueiros. Apesar de sermos profissionais,  porque eu me vejo como profissional e você, colega blogueiro, mesmo que encare como um hobby, deve se ver também,  no fundo, somos como cada um de vocês que leem blogs: leitores. E obviamente, vamos expor nossas opiniões de forma a não denegrir a imagem de ninguém.

O lado do autor

            Agora vamos analisar o outro lado da moeda: os autores nacionais tem pavor de resenha “negativa” e com certa razão. Ser autor no Brasil é uma parada muito louca. E quando digo louca, não é louca de quando você você faz algo impensado, é louco das pessoas acharem o autor biruta por seguir esse caminho e não o de Médico ou Engenheiro (coloque aqui a profissão que seus pais já disseram que era o melhor para o seu futuro). Não vou estender muito sobre o assunto (outro Academia Opina sobre vida de autor, quem sabe), mas grande parte dos autores já é pouco lido com todo mundo elogiando suas obras, então imagem só se um blogueiro detona o livro em uma resenha. 
Essa é uma das principais razões (que eu vejo por aí) para um autor detestar quem publique resenhas “negativas” de suas obras. Eu disse principais e não única, certo? Existe o autor que acha que é o senhor das letras, intocável (tem blogueiro assim também). Esses não vão encontrar falhas em suas obras e atacam blogueiros que “falam mal” de seus livros. Uma amiga blogueira sofreu de um ataque gratuito por ter dado sua opinião sobre o livro de um autor x. Não lembro exatamente o contexto, mas sei que rolou de xingamento para baixo e até um “chamado às armas”, onde a autora em questão chamou um fã clube para denegrir a menina. Claro que não é todo mundo que faz isso. Tem autores maravilhosos espalhados por aí que não só aceitam, como levam pra frente as opiniões daqueles que leem suas obras.
Esse é só um exemplo de que existem autores que não sabem levar numa boa (e para o lado profissional) uma crítica. E de blogueiros que tem receio (diria até medo) de escrever resenhas/críticas negativas. Tem uns que nem parcerias fazem mais por causa desse tipo de situação. Porque se tem uma coisa que a história nos conta é que levou para o lado pessoal (atacando ou se defendendo) é confusão na certa. O caso mais absurdo que ouvi falar do assunto foi de um autor Y que disse o seguinte para o blogueiro: não gostei da sua resenha (a pessoa leu antes de ir ao ar), não quero que você publique.
Vou nem comentar.
Então, querido autor, antes de enviar sua obra ao blogueiro, pergunte o gênero que ele mais se identifica. Veja suas resenhas. Analise seu contato com outros autores. Se você não tem noção de como faz isso (vou vender meu peixe SIM) a Academia faz consultoria na área. Temos uma rede de colegas, experiência com editoras, outros autores e profissionais da área, podemos analisar e apontar caminhos para você investir o seu suado livro (mais informações, envia e-mail pra gente).
Esses simples gestos podem fazer uma diferença enorme e evitar possíveis dores de cabeça. Novamente, essa não é uma regra que deve ser seguida, é só uma recomendação. E porfavorzinho: um blogueiro fez a resenha do seu livro, o mínimo que você pode fazer é ir lá, deixar um comentário, curtir e compartilhar nas suas redes. É impressionante o tanto de autor que não dá valor a esse pequeno gesto. Eu vejo blogueiros surtando de felicidade quando um autor curte uma foto no Instagram, imagina compartilhar uma resenha! Aliás, parabéns aos autores (e editoras) que têm esse carinho com os blogueiros. Sério, fico extremamente chateado (ficava, no caso. Deixei de ligar para essas coisas) quando fazia a resenha do livro de um autor que sabia que eu estava lendo o livro dele e ele nem se dar ao trabalho (sendo que isso nem dá trabalho) de mostrar para a rede de leitores dele o que eu tinha feito. Concordam que todos saem ganhando?
Valorizem o trabalho do blogueiro.
Valorizem o trabalho do autor.
Tem espaço para todo mundo. Pode não parecer, mas tem.

         Agora a pergunta que eu sei que alguns de vocês devem estar querendo fazer: Luciano, você já deixou de publicar uma resenha negativa?
            Sim, uma vez.
            É, não sou perfeito.
            Não, não vou dizer qual. 

            Beijos e abraços.


          Querido leitor, agradeço demais se você chegou até aqui (palmas). Sei que o texto é grande, mas não tinha como abordar o assunto de forma leviana. Ainda acho que não falei o suficiente, mas posso muito bem fazer uma parte 2 sobre o assunto, basta vocês demonstrarem interesse.
E Luiza, se um autor leu sua resenha “negativa”, não absorveu as críticas e não quis mais saber de falar com você, deixa ir. Não tem porque se preocupar com pessoas assim. E se ela “xingar muito no Twitter”, deixa xingar. Você tem convicção do que escreveu, não deve descer ao mesmo nível. E se você algum dia errar, saiba reconhecer o erro. Não há vergonha alguma em admitir que errou. Lembre-se também que existem outras dezenas de autores doidos para saber as suas impressões de suas obras. Uma pessoa que abandona o barco porque você tem uma opinião divergente da dela não deve ser chamado de parceiro. Pode chamar de qualquer coisa, menos de parceiro.


Até a próxima.


Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Depois de milênios, eu consegui vir aqui comentar essa postagem maravilhosa. Primeiro eu queria pedir desculpa pela minha demora.
    Já tínhamos conversado, mas o que eu acho que falta em grande parte é a comunicação entre blogueiro e autor, porque aí, como você disse, quase metade da dor de cabeça seria evitada.
    Também é importante que haja maturidade pelas duas partes: o autor, que pode reconhecer críticas consideradas construtivas e usá-las para melhorar os livros que escreve e a carreira; e o blogueiro, que com a experiência precisa aprender a ter o tato de separar o que é uma obra mal escrita e o que é uma obra que não se encaixa no gosto literário dele.
    Por fim, obrigada pelas palavras e por ter levado a minha resposta no Instagram a sério, não achei que ela fosse frutificar tanto.
    Luiza.

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