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16/10/2013

RESENHA - Filhos do fim do mundo (Fábio M. Barreto)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: BARRETO, Fábio M. Filhos do fim do mundo. Rio de Janeiro, Fantasy Casa da Palavra (Leya), 2013. 1ª edição, 287 páginas.
Gênero: Ficção Científica.
Temas: Extinção da raça humana, fim do mundo, mistério.
Categoria: Literatura nacional.
Ano de lançamento: 2013.










“O bebê que o Repórter encontrou no berço parecia estar dormindo; num sono pálido e inerte. Pegou a criança no colo e acariciou o rosto gélido e macio. Intimamente, torceu por um movimento que nunca veio. Pensou em como reagiria quando chegasse a hora de ver o corpo sem vida do filho recém-nascido. O menino tinha um rosto angelical.
Morreu sorrindo.
Mas morreu. Assim como todas as outras crianças no mundo, morreu.”
*Filhos do fim do mundo (pág. 94).


                Em uma noite tão comum e corriqueira quanto qualquer outra, a paz e tranquilidade se desfizeram ante o desespero. Os bebês da maternidade estavam mortos. Não um ou dois ou três bebês. Todos. Absolutamente todos os bebês morreram sem causa aparente. O fenômeno inexplicável estendeu-se por todos os lares onde crianças saudáveis e normais foram encontradas mortas em seus berços. E em todos os hospitais, mães em perfeitas condições clínicas pré-parto deram a luz a rebentos inertes e sem vida. Plantas e animais também compuseram o mórbido mosaico de vitimas do misterioso mal. E toda a cidade foi atingida pela desgraça. Todo o país. Todo o mundo. A dor e o desespero se espalharam rapidamente nas primeiras horas da manhã e o pânico se agigantou perante uma conclusão agourenta e definitiva: com as vidas de todos os bebês ceifadas e sem novos nascimentos, o ciclo de perpetuação da espécie estaria quebrado e o fim da humanidade seria questão de tempo. Pouco tempo. Da dor para o pânico; do pânico para a revolta; da revolta para a barbárie; da barbárie para o caos; do caos para o fim. Ainda nas primeiras horas da primeira manhã, os governos de todos os países firmaram um acordo emergencial a fim de conter a revolta popular diante do até então incompreensível acontecimento e um plano foi montado na tentativa desesperada de encontrar uma explicação e, talvez – somente talvez – encontrar uma cura. Internet, televisões e rádios são suspensos e somente um único jornal de cada cidade, sob supervisão direta do governo, seria o responsável por veicular as noticias e o andamento da crise que se avizinhava.  E nesse turbilhão de acontecimentos encontra-se o Repórter. Enquanto a Esposa grávida espera aflita por boas noticias, ele terá de correr contra o tempo e enfrentar uma frenética jornada em buscas de respostas e em busca da salvação para o Filho prestes a nascer.
                “Filhos do fim do mundo” explora de maneira magistral um tema muito comentado e muito presente no imaginário de todos os povos e nações: o fim do mundo. Nas páginas desse livro, a promessa do fim – e não o fim em si – se dá pela quebra do ciclo da vida. Todos os bebês morrem inexplicavelmente e nenhuma única criança nasce viva. Plantas e animais compartilham a mesma sina. Sem crianças, o destino da espécie estaria selado. Sem plantas e animais, a fome seria o golpe final. Da dor pelas perdas das preciosas jovens vidas ao pânico e caos ante o vislumbre do não-futuro, o leitor presencia o desencadear dos acontecimentos que levarão ao fim. E acompanhará os passos de vários personagens envolvidos na trama, uns mais ativamente, outros menos, mas todos importantes para o surpreendente desfecho. A corrida frenética contra o tempo ficará a cargo do Repórter. A urgência de suas ações se deve não apenas por seu trabalho – seu jornal é a única fonte de informações de sua cidade –, não apenas pela necessidade de encontrar respostas, não pela tentativa de salvar a humanidade do fim certo e inevitável. Sua urgência se deve pela frágil esperança de salvar seu Filho, ainda no ventre de sua Esposa, contando as horas para nascer.
                O autor se esmera em mostrar que a reação das pessoas diante do inexplicável é, naturalmente, a pior possível. Que o medo e a dúvida tornam as pessoas irracionais, se agarrando a qualquer vestígio de segurança que possam imaginar ter. E como qualquer outro animal acuado e sem opções não hesitará em matar. O pânico e o desespero são quase tangíveis assim como o ódio e a intolerância. Os conflitos que se apresentam são de uma verossimilhança que chega a surpreender. Apesar de fictício, muito do que ocorre ali certamente seria presenciado se algo de tamanha magnitude realmente acontecesse, pondo em risco a sobrevivência da raça humana.
Pegando carona no fascínio em torno da data do dia 21 de dezembro de 2012 – data profetizada como sendo o fim do mundo em razão do fim do calendário Maia –, o Evento Zero se desenrola na noite de 21 para 22 de dezembro. Entretanto, apesar de se utilizar da conhecida data como gancho para sua história, o autor Fábio Barreto, não especifica o ano em que os eventos ocorrem. Também não especifica a cidade ou o país onde a trama principal se desenrola. Nem mesmo as personagens são identificadas. São pessoas como o Editor-chefe, o Engravatado, o Capitão, o Médico, o Padre, o Blogueiro, o Radialista, o Governador, a Primeira-dama, a Senhora... e no centro da trama, o Repórter, a Esposa e o Filho. Ao não lhes atribuir nomes, Barreto sugere que qualquer pessoa poderia vivenciar aquelas situações. Que qualquer cidade poderia ser o palco da trama. Que nenhum país estaria livre dos efeitos da tragédia. Ao não especificar um ano, um ponto no tempo, ele insinua que poderia acontecer a qualquer momento, no passado ou no futuro, distante ou não. Abdicando de nomes ou datas, o autor confere um sentido universal e atemporal a sua história.
De ritmo frenético, a narrativa traduz a urgência dos acontecimentos. A trama se desenvolve no espaço de poucos dias e todas as pequenas reviravoltas prendem o leitor página após página, expectante, ávido pelo próximo lance. Ao chegar à ultima página, o leitor perceberá que não é o desfecho da história o que importa e sim o processo, o cenário construído (ou desconstruído?) ao longo daqueles dias. O foco principal da trama é o comportamento do ser humano perante uma ameaça. E isso é transmitido com sutileza e honestidade. Apesar de longos, os seis capítulos que compõem o texto são bem construídos e estruturados com pequenas pausas entre uma ideia e outra. A narrativa em terceira pessoa apresenta um narrador imparcial, que assiste a tudo sem julgar ou emitir opiniões.
Filhos do fim do mundo” é o romance de estreia de Fábio M. Barreto, cineasta, jornalista e escritor paulistano residente em Los Angeles. Nerd de carteirinha, é membro de um dos podcast sobre cultura nerd e pop mais famosos em terras brasileiras: o RapaduraCast. Apaixonado por ficção cientifica, Barreto já trabalhou no Sci-fi News, na CNN e no Brainstorn #9. Os leitores de “Filhos do fim do mundo” verão um escritor consciente e maduro, capaz de emocionar e surpreender e tornar plausível um tema enganosamente clichê. Impossível não esperar ansiosamente por uma nova obra de tão promissor contador de histórias.




Bibliografia de Fábio M. Barreto (ordem cronológica):

Livros:

  • Filhos do fim do mundo – Fantasy Casa da Palavra (2013).
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Gosto demais desse livro. Ele tem um senso de urgência muito top, me deixou ansiosa do começo ao fim. Fora que é uma perspectiva bem original, diferente de tudo que a mídia tava produzindo em cima do dia 21/dez.

    Que bom que tem muitas pessoas lendo esse livro. Considero uma das melhoras obras nacionais dos últimos tempos e estou ansiosa pra ver os próximos trabalhos do Barreto. :)

    Bjs,

    Raquel
    www.pipocamusical.com.br

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  2. Olá Raquel
    Realmente, esse livro é de tirar o folego. E bem diferente da maioria das histórias que abordam o fim do mundo. Estou louca pra ler mais um livro do Barreto e espero, sinceramente, que ele não demore muito a escrever o próximo.

    Bjus

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