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29/10/2013

RESENHA - As viagens da peregrina do tempo e da terra: O Coletor de Almas (Douglas MCT)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: MCT, Douglas.  As viagens da peregrina do tempo e da terra: O Coletor de Almas. Belo Horizonte, Editora Gutenberg, 2012. 1ª edição, 143 páginas.
Gênero: Dark-fantasy.
Temas: Mitologia nórdica
Categoria: Literatura nacional.
Ano de lançamento: 2012.
SérieAs viagens da peregrina do tempo e da terra: O Coletor de Almas (Livro 1).









“_Ó sim, minha criança. O que achou do poema que acabei de ler para você?
_Tenebroso. Enquanto a senhora lia, senti a vida me abandonar e tive pesadelos desperta, presenciando cada cena como se fosse real.
_ E serão.
_ Espero que não. Mas estou feliz. Esse poema me deixou contente!
_ Que bom, pequena.
‘A mortalha de um mundo extinto’ – ouvi, em sussurros ocultos.
_ Adeus, senhora.
_ Adeus, amada Lisa.
A porta se fechou assim que ela saiu. Mas por um momento pude ouvir sua respiração hesitante, lá do outro lado. E eu sabia que ela também poderia me ouvir.
_Quando a morte alcançar você (e ela vai), seja corajosa, minha criança. Enfrente-a, encare-a. Ela não fugirá de você, mas você poderá derrota-la se assim quiser. Você possui a luz na palma da mão; esse é um poder só seu e é ilimitado. Tudo vai acabar. Este mundo, estas pessoas, estes seres. Até mesmo eu acabarei. Nada restará. Só você... Mas só se assim você desejar.
Finalmente parei de falar. Não havia mais nada a dizer.
E também ninguém mais para ouvir. ”
*O Coletor de Almas: as viagens da peregrina do tempo e da terra (pág. 16 e 17).


                Larval, o Coletor de Almas, desempenha o importante papel de recolher as almas dos mortos e devolve-las ao seio de Yggdrasil, a Árvore-Mãe que sustenta a vida e a realidade da Terra Oca. Ceifador é um assassino que obstinadamente percorre todos os reinos matando reis e decepando suas cabeças, colecionando-as como troféus para um propósito sombrio.  Vasilisa Prekrasnaya, ou apena Lisa, é uma jovem bruxa recém-saída de seu treinamento, portadora da Lanterna das Bruxas e conhecedora de um poema sobre o fim do mundo – o Ragnarok – que profetiza que ela terá a decisão sobre o destino de tudo e de todos. Quando as almas dos mortos e mesmo os antigos fantasmas começam a desaparecer sem explicação, Larval e seu ajudante Bog (um fantasma) partirão em busca de respostas. Lisa, perseguida por praticar bruxaria, também partirá. E o Ceifador continuará sua jornada de reino em reino em busca das cabeças coroadas. Os três, mesmo sem se conhecerem, terão seus destinos entrelaçados e terão papeis fundamentais nos eventos que levarão ao fim inevitável (ou não?) e, numa jornada rumo ao fim de tudo, descobrirão muito de si mesmos.
                “O Coletor de Almas” é o primeiro livro da trilogia intitulada As viagens da peregrina do tempo e da terra, uma série que explora o gênero Dark Fantasy. Neste primeiro volume, a trama aborda os eventos que levarão ao fim da Terra Oca, um mundo habitado por humanos, vampiros, fantasmas e deuses; um mundo sustentado pela Árvore-Mãe  Yggdrasil; um mundo onde magia e ciência coexistem e se aliam. Diferentemente das histórias apocalípticas habituais, aqui o Ragnarok – a versão do Apocalipse segundo a mitologia nórdica – não poderá ser evitado. A finitude é certa e irreversível e as muitas personagens da trama a conhecem e se preparam para ela. Saindo do lugar comum, está história não propõe uma tentativa de salvação. Ela propõe uma busca por explicação, por entendimento. Os três protagonistas – Larval, Ceifador e Lisa –, cada um a seu modo, estão em busca de respostas. O trio tem papel fundamental nos eventos que se desenrolam e nos razões pelas quais tudo acontece, embora somente Lisa, uma adolescente recém-saída da infância, tenha plena (ou quase plena) consciência de sua função. E embora o desfecho culmine no já esperado e anunciado fim da Terra Oca, o desenrolar dos acontecimentos, as voltas e reviravoltas da trama até o desfecho são surpreendentes. E o ápice narrativo desponta um pouco antes do fim, quando tudo é explicado e quando as peças do enorme quebra-cabeça se encaixam.
O modo como a trama é construída; o modo como os fragmentos se entrelaçam e se repelem tecendo a história fazem da alegoria do quebra-cabeça uma imagem mais que perfeita para ilustrar a complexidade desta obra. Apesar de utilizar capítulos curtos com linguagem simples, beirando o coloquial, a narrativa é intrincada e densa. O enredo é denso. A essência da história é densa. E, portanto, é um livro que, apesar de curto (143 páginas) e dinâmico, requer mais de uma leitura para ser compreendido em sua plenitude. Há ainda uma peculiaridade que contribui com essa característica: o autor abdica propositalmente de descrições e explicações mais detalhadas, delineado a narrativa em terceira pessoa com foco nas ações dos personagens.  Há ainda que se ressaltar a atmosfera sombria e a relação das personagens e do autor com a morte. Essa miscelânea de características evidencia que o autor foi beber na fonte dos quadrinhos adultos para criar o seu “O Coletor de Almas”. A maior e autodeclarada inspiração é o sombrio “Hellboy”, de Mike Mignola. Mas muito se vê de outros representantes do gênero, como os famosos “Sandman” (Neil Gaiman) e “Watchmen” (Alan Moore).
O Coletor de Almas” é o segundo romance de Douglas MCT, paulista da cidade de Socorro, atualmente residente na capital do estado. Formado em Criação e Produção Audiovisual, trabalhou por uma década como designer gráfico. Redator e roteirista de games, quadrinhos, animações, filmes e seriados, tem em seu currículo as HQs da Turma da Mônica e as animações da Galera Animal. Como escritor, já publicou contos em várias coletâneas e  lançou três livros. Suas histórias tem uma pegada mais sombria, investindo no gênero Dark Fantasy. “O Coletor de Almas” – e as demais obras de Douglas – é um prato cheio para quem gosta de narrativas mais densas com tramas que escapam ao óbvio.




Bibliografia de Douglas MCT (ordem cronológica):

Livros:
  • Necrópolis – Livro 1: A fronteira das almas – Editora Draco (2010); relançado pela Editora Gutemberg em 2012.
  • O Coletor de Almas: As viagens da peregrina do tempo e da terra – Editora Gutenberg (2012);
  • Necrópolis – Livro 2: A batalha das feras – Editora Gutenberg (2012).


Participações:
  • Anno Domini: Manuscritos Medievais – Andross Editora (2008) com o conto “O misterioso caso do unicórnio azul”;
  • Território V – Terracota Editora (2009) com o conto “Torniquete”;
  • Imaginários – Volume 3 – Editora Draco (2010) com o conto “Bonifrate”;
  • Sagas – Volume 3: Martelo das Bruxas – Editora Argonautas (2011) com o conto “Encruzilhada”;
  • Crônicas da Tormenta – Editora Jambô (2011) com o conto “Revés”;
  • Fantasias Urbanas – Editora Draco (2012) com o conto “Onde termina o inferno”.

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