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18/02/2014

RESENHA - O código élfico (Leonel Caldela)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: CALDELA, Leonel. O código élfico. 1ª edição. Rio de Janeiro, Fantasy Casa da Palavra (selo da Editora Leya), 2013. 573 páginas.
Gênero: Fantasia; ficção.
Temas: Elfos, filosofia, artes marciais, magia, invasão e dominação da Terra, subjugação da raça humana.
Categoria: Literatura nacional.
Ano de lançamento: 2013










“Ela estava pensando, com toda a confiança, em sair do tempo. Ela havia seguido um mercenário, um estranho que deixava uma trilha de cadáveres atrás de si. Ela estava convencida de que tinha como amigo uma criatura mítica. Uma criatura com quem ninguém mais conseguia falar.
_ Estou louca _ disse em voz alta.
Preparava-se para ser treinada por esse homem, esse elfo que falava a língua fictícia que ela aprendera durante a adolescência, por diversão. Após esse treinamento, ela, Nicole Manzini, salvaria o mundo de uma invasão que ninguém mais conhecia. Um treinamento reservado só a ela, porque era especial.
Até mesmo o mercenário sumira, desde que ela entrou nesse lugar maravilhoso onde prometiam transformá-la em heroína, onde haviam lhe explicado a história do secreta do mundo.
Era tudo loucura. Tudo uma imensa alucinação.
Ela estava sendo caçada por homens maus que nunca conseguiam apanhá-la. Encontrava criminosos que morriam sem deixar vestígios. Escapava de massacres que eram abafados por uma conspiração sinistra, impedindo que qualquer autoridade ficasse sabendo. Sentia pavor.
_Meu Deus, o que está acontecendo comigo?”
*O código élfico (pág. 365).


                Os seres humanos são a espécie dominante do planeta Terra, certo? Se não fosse assim, qual seria o papel da humanidade na história?
Quando Astarte – príncipe de Arcádia e último filho da raça dos elfos – completa seu treinamento segundo o código do nobre guerreiro élfico, domina todas as artes e habilidades élficas e se torna um arqueiro, é chegado o momento de enfim conhecer o seu destino e seu papel na sociedade regida por sua mãe, a Rainha da Beleza: abrir o portal a muito selado que conecta Arcádia à Terra e assim permitir que os elfos novamente exerçam seu domínio por direito ao mundo dos homens e recoloque a humanidade em seu devido lugar, escravos de sua raça infinitamente superior. Mas Astarte não conhece seu destino e quando este lhe é apresentado, não parece certo, nobre ou condizente com tudo o que lhe fora ensinado. Quando Nicole – filha de um cultista assassino, princesa das conspirações, famosa em sua terra e fora dela por todas as tragédias, mortes, abduções e estranhas coincidências ao seu redor – se vê obrigada a abandonar seu mestrado quase concluído em filosofia na Europa e voltar para a cidade de Santo Ossário onde nasceu e cresceu e para onde jurou jamais voltar, muito do seu passado e das razões para todas as estranhezas em sua vida serão explicadas. E, na garupa das respostas, muito do seu destino ficará desconfortavelmente claro. Quando mais um Festival de Cinema transformar a pequena e pitoresca cidade interiorana de Santo Ossário em uma passarela onde desfilarão as maiores beldades da Terra; quando o príncipe dos elfos despertar no mundo dos homens pela ciência e a magia combinadas por uma antiga família dedicada ao culto à deusa e aos senhores elfos; e quando a princesa das conspirações estiver de volta à sua cidade natal, um grupo de cultistas de uma deusa antiga e cruel, liderados por Emanuel Montague, o Dragão, estarão preparando o terreno e os rituais sagrados para o retorno da deusa e senhora dos elfos, a Rainha da Beleza. E então, mais uma vez, o domínio desses seres de vida eterna será estabelecido e os humanos serão escravos. Em oposição às forças dos elfos, da Rainha, do Dragão e dos cultistas se postarão Astarte, Nicole e uns poucos conhecedores dos mistérios de Santo Ossário e do verdadeiro sentido do código élfico. Duas espécies diferentes, dois objetivos distintos, quatro seres – dois predestinados (Astarte e Nicole) e dois imbuídos de vontade e poder (o Dragão e a deusa) – com papeis fundamentais no desenrolar dos fatos. Um representante de cada raça em cada lado da balança. A guerra pelo domínio da Terra irá começar.
As páginas dessa narrativa apresenta uma história de transmissão de conhecimentos; de treinamentos e preparação de guerreiros; da supremacia de uma raça superior e do culto a essa raça por uma outra inferior; da tentativa de retorno e dominação dos lordes élficos e de uma deusa maligna; da força e do poder da vontade; de guerra. Nesta história, os elfos personificam uma gigantesca contradição: são seres imortais (a menos que sejam assassinados ou escolham morrer de velhice), belos, em comunhão completa com a natureza, amantes da beleza, das artes, da poesia e da filosofia; e simultaneamente são seres arrogantes e convencidos de sua superioridade, escravocratas impiedosos, cruéis e sanguinários que encontram divertimento em caçar e exterminar humanos. O conceito literário aplicado a eles se assemelha aquele estabelecido por J.R.R. Tolkien, mas, diferente de seus semelhantes da Terra Média, os elfos de “O código élfico” não prezam pela bondade e justiça. Entretanto, um ponto deve ser explanado: a própria narrativa esclarece que houve um passado distante em que os elfos eram bons, praticavam e transmitiam os verdadeiros valores do código élfico (representados pela filosofia e o treinamento na arquearia), mas a raça corrompeu-se e degenerou para os valores atuais. A filosofia élfica, da maneira como é apresentada, parece se inspirar nas culturas orientais e inclusive – dentro da realidade em que se insere a trama – sugere que estas, de maneira inversa, foram inspiradas na cultura élfica. Outro conceito de difícil interpretação é a relação entre a vontade de um ser e o seu poder e sua capacidade de realizar algo. De um modo geral, “abstrato” é a palavra que mais se aproxima da função de traduzir as ideias contidas nessa obra.
A narrativa é intricada e confusa no princípio, repleta de idas e vindas no tempo e no espaço, além da relação temporal divergente entre a Terra e Arcádia, características que podem deixar o leitor um tanto perdido até que ele entenda a dinâmica da história.  Conceitos filosóficos sobre a arte e o pensamento guerreiro – e o próprio treinamento em si – são elementos constantes no texto e transmitem noções bastante subjetivas que requerem um bom nível de abstração para ser assimilado. Mas à medida que o enredo prossegue e as questões vão sendo explicadas, a leitura flui com maior facilidade. E, com a aproximação do ápice da história, a leitura se torna mais dinâmica e fluída em virtude da gradativa aceleração dos acontecimentos. E o auge da narrativa se concentra na batalha final. Muitas reviravoltas e muitos eventos constroem o cenário caótico e intricado de um grande e épico desfecho.
Em todos os momentos da história, é interessante observar a construção dos personagens e o modo como o autor se vale deles. São, em sua maioria, seres pitorescos com características, razões e motivações bastante peculiares. Por mais que a premissa seja simples a princípio – humanos como o elo fraco e indefeso da corrente, elfos como o elo forte e dominante; os que querem dominar, os que desejam servir, aqueles que tentam resistir – as características pré-estabelecidas se diluem e se fundem e, no fundo, cada personagem é muito mais do que parece, muito mais complexo e insondável. Algo importante a ressaltar: mortes são frequentes e corriqueiras. O autor, Leonel Caldela, não vê problemas em se desfazer dos personagens tão criteriosamente construídos, independentemente do lado da balança em que estejam. Uma característica marcante do autor também se faz presente nesta obra: pequenas doses de sadismo permeiam a trama, seja nas experiências realizadas em Nicole durante suas abduções, seja nas atitudes dos elfos dispensadas aos humanos, seja na forma das mortes de vários dos personagens. Não chega a ser chocante mas é, sem dúvidas, bastante inquietante.
Narrado em terceira pessoa por um narrador observador, em “O código élfico” o foco da narrativa se divide entre os conceitos abstratos da Filosofia e do treinamento élfico e a ação dos preparativos e dos atos de guerra.  Como explanado anteriormente, a narrativa é um tanto truncada no início mas ganha maior fluidez com o desenrolar da trama. Os capítulos são divididos em três Partes que dão o tom do ritmo da trama. A formatação do livro é simples mas muito condizente com o espírito da história e o pequeno símbolo do arco e da flecha utilizado nas pausas textuais demostram de forma sutil e delicada o cuidado dispensado à apresentação visual da obra.
                E o mestre dessa jornada ao mundo e aos princípios élficos é Leonel Caldela, brasileiro apaixonado por RPG e morador da cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul. No campo do RPG, Caldela escreve, edita e traduz livros e manuais pela Editora Jambô. Como escritor de romances, o autor teve sua grande estreia com a obra “O inimigo do mundo”, primeiro volume da aclamada Trilogia da Tormenta baseada no cenário brasileiro de RPG de mesmo nome. Possui em seu currículo dois outros títulos, dessa vez em cenário próprio: “O caçador de apóstolos” e “Deus máquina”. Com seu “O código élfico”, Caldela reforça suas marcas registradas e seu talento para criar histórias complexas e bem contadas, onde nem tudo é tão simples quanto parece. E assim, “O código élfico” é um livro para ser apreciado por quem nutre gosto por aventuras e desafios e por aqueles que gostam de ser surpreendidos por um desfecho inesperado.




Bibliografia de Leonel Caldela (ordem cronológica):

Livros:
  • O inimigo do mundo – Jambô (2004);
  • O crânio e o corvo – Jambô (2007);
  • O Terceiro Deus – Jambô (2008);
  • O caçador de apóstolos – Jambô (2010);
  • Deus máquina – Jambô (2011);
  • O código élfico – Fantasy Casa da Palavra (2013).


Participações:
  • Crônicas da Tormenta – Jambô (2011) com os contos “História de Herói” e "Ressurreição". 
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