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11/02/2014

RESENHA - Rio 2054: Filhos da Revolução (Jorge Lourenço)

Capa do Livro "Rio 2054"
Ficha técnica:
Referência bibliográfica: LOURENÇO, Jorge. Rio 2054. São Paulo, Novos Talentos (selo da Editora Novo Século) , 2013. 1ª edição, 374 páginas.
Gênero: Ficção Científica, Cyberpunk.
Temas: Aventura, Ação.
Categoria: Literatura nacional.
Ano de lançamento:  2013
















“’Você  não tem ideia de como as pessoas vivem nas Luzes e no resto do mundo. Nós vivemos hoje numa sociedade voltada para um bem-estar inalcançável, sempre atrás de uma felicidade que nunca vem. Trabalhamos em escalas cada vez mais árduas para manter o Status social de um bom emprego, gastamos todo o nosso dinheiro com coisas que nós não precisamos e esperamos um momento de paz de espírito que nunca chega, a promessa de sucesso definitivo que nunca é cumprida. Diariamente, somos bombardeados por uma quantidade tão grande de informação que nossos cérebros estão entrando em curto.
´Gastamos milhares de dólares para viver num estilo de vida mais estressante e desgastante do que alguém com uma fração dos nossos salários. E tudo isso acontece ao mesmo tempo em que 80% da população mundial se afoga na pobreza, na escassez de alimentos e, agora, na dificuldade até de encontrar água potável. Acho que, em nenhum momento da história da humanidade, a vida dos ricos foi tão supérflua e imbecil.'”

*Rio 2054 (Página 290 e 291).


                Rio de janeiro, ano de 2054. Algumas décadas se passaram depois que uma guerra civil, motivada pelos royalties do petróleo, devastou a cidade maravilhosa. O Rio agora é controlado por um grupo empresarial e sua população encontra-se dividida entre o Rio Alfa, situado ao sul do estado, lar dos ricos, e o Rio Beta, onde o protagonista da história reside com a maioria dos sobreviventes responsáveis pelo movimento separatista. Os dois lados são separados por muros e guardas, pouco se interagindo um com o outro. Os Escombros (como é chamado o lado Beta) eram o que havia sobrado da guerra. Sem abastecimentos de água e comida, saneamento básico, segurança, saúde ou qualquer tipo de administração governamental, sobrava uma terra sem lei onde gangues, traficantes e motoqueiros duelavam entre si por dinheiro, poder e status. As Luzes, o lado abastado da cidade, onde a tríade de empresas internacionais gerencia a parte desenvolvida do Rio, com seus arranha-céus, ilhas artificiais, inteligências artificiais e toda a sorte tecnológica que nos aguarda no futuro. Miguel, o jovem protagonista, tenta se mostrar alheio a tudo e a todos. Sobrevivendo nos Escombros, catando sucata de equipamentos usados ainda na guerra civil como forma de subsistência, ele tenta ao máximo levar uma vida despreocupada. Sem grandes ambições na vida, o jovem é convidado para assistir a um duelo de motociclistas, mal sabendo que o destino lhe reservava algo muito além de qualquer pretensão futura. De morador desconhecido dos Escombros a pivô de uma disputa capaz de mudar o Rio para sempre, ele tem de enfrentar situações num ambiente onde o bem e mal interagem, confundindo-se e abraçando-se. Sem saber o que fazer, ele contará com a ajuda de seus amigos e de estranhas figuras para tentar salvar um Rio de Janeiro partido pela cobiça.
                Jorge Lourenço nos apresenta nessa obra uma realidade não tão distante assim da qual vivemos hoje. Usando elementos reais, tais como a disputa do pré-sal e o avanço da tecnologia, o autor constrói um cenário que  beira ao apocalíptico da Cidade Maravilhosa. O livro inicia sem pretensões, mostrando a vida simples de Miguel e seus amigos, sua ex-namorada, seu amigo motoqueiro e o seu amigo médico. A primeira guinada na trama acontece após o duelo de motoqueiros, onde seu amigo Anderson quase morre na luta contra uma misteriosa mulher de habilidade fora do comum. A partir daí, os eventos se desenrolam, colocando o protagonista numa teia intrincada cheia de intrigas, maquinações e jogos de poder. Não querendo fazer parte daquilo, o jovem tenta pular fora o quanto antes, mas uma descoberta o impede de deixar os holofotes, transformando-o em uma marionete nesse jogo. Após entrar na roda do jogo, o livro dá uma freada brusca nos acontecimentos, narrando a investigação acerca da mulher misteriosa e as histórias de alguns personagens secundários. A grande sacada vem perto do final, onde uma revelação deixa os personagens de queixo caído (e também os leitores, por  que não?). A partir daí, acontecem várias reviravoltas na trama que fazem o leitor querer saber o que acontecerá na página seguinte. Há também referências a outras obras, como Matrix e Tropa de Elite. O ponto fraco da trama é que ela esquenta no começo, mas fica muito parada no meio, o que pode fazer um leitor menos empolgado perder o interesse em concluir a leitura da obra. Porém, todas essas pequenas tramas acabam se interligando com a principal no final, fazendo com que o leitor queira devorar as páginas derradeiras para saber o que vai acontecer.
                  Os personagens são uma obra à parte. Eles são únicos, excêntricos e muitos têm uma história de superação para contar, levando o protagonista e o próprio leitor a refletirem sobre alguns aspectos da vida. Até mesmo aqueles abastados pelo luxo da vida tranquila das Luzes têm uma história envolvente por trás de suas maquinações e sede de poder. Entretanto, alguns desses mesmos personagens, construídos com grandiosidade, acabam por perder parte de sua majestade com o desenrolar da trama, e outros simplesmente não aparecem mais. Não sei se foi algo intencional do autor, mas como leitor, desejava que eles tivessem um desfecho diferente para uma história tão envolvente. Quem sabe num segundo livro?
             O ponto chave na trama como um todo é o apelo social. O autor dá um alerta de como está caminhando a sociedade. O que aconteceu na obra está muito próximo de acontecer no mundo real. As pessoas cada vez mais se afundando em seus próprios mundos virtuais, ignorando as pessoas a sua volta, afastando-se da presença de familiares e amigos em nome de visualização na internet, deixando a vida lá fora de lado.  A discrepância entre o rico e o pobre. A falta de alimentos. A busca pelo poder e pelo dinheiro, fazendo com que povos lutem entre si. Pessoas que se aproveitam uns dos outros. A violência cada vez mais presente. Pessoas que gastam rios de dinheiro pelo Status, comprando coisas cada vez mais supérfluas enquanto o vizinho passa por dificuldades.
                 O Rio de Janeiro fictício criado pelo autor funciona como uma forma de alerta para algo já existente: a divisão de fronteiras. Todo país é permeado por diversas camadas de exclusão, a diferença é que no livro essas fronteiras são mais visíveis.


               "Compraríamos tecnologia barata e viveríamos envoltos numa subcultura marginal. Lutaríamos para tentarmos ser ricos, procurando a felicidade na luta pela ascensão, mas jamais a encontraríamos. E todo o sistema ao nosso redor se alimentaria do esforço que fazemos para atingir esse nirvana ocidental, essa cultura de trabalho que só enriquece alguns e mantém os outros sob controle e dentro de seus próprios sonhos".  Pág 351.


Alerta de Spoiler, clique para ver!
                 
                  Uma questão deixada sem muita explicação é sobre os Psíquicos. A roda da trama gira ao redor deles, o protagonista se descobre sendo um Psíquico. A mulher misteriosa também é uma. De onde vieram? Quantos são? Quem são? Quais seus poderes? Tudo isso é um mistério. O livro não deixa margem para nenhuma resposta, apenas diz que são raros e que mesmo no período pré-guerra, já se discutia a existência de pessoas com dons paranormais, alguns até mesmo estavam trabalhando na guerra civil, numa operação ultra secreta da Otan para conter os separatistas. A história por trás dessas pessoas com dons únicos poderia ter sido mais explorada na trama, não somente seus poderes extraordinários. 
                  A obra é narrada em terceira pessoa. A grande maioria dos acontecimentos ocorrem em torno de Miguel, seus amigos e os "inimigos" da trama, mas alguns acontecimentos se desenrolam longe do grupo, explicando ações de personagens que apareceram no enredo de forma aleatória.                  
                  A fluidez com que a narrativa segue e a forma simples da linguagem tornam a leitura prazerosa até mesmo para os que não estão acostumados a sentar e ler um livro. As referências, tanto no ambiente, mostrando um Rio de Janeiro futurista, quanto nos elementos que permeiam o livro (inteligências artificiais, próteses mecânicas, ilhas artificiais, armas inteligentes etc) são chamarizes para os leitores curiosos e ávidos por uma leitura totalmente ambientada em nosso território. Chama atenção também o uso de palavrões por parte de alguns personagens, elementos esses, não muito usados em obras literárias, mesmo que no mundo real elas estejam presentes no linguajar das pessoas. O uso de datas também é um ponto importante, pois impede que o leitor fique perdido na linha do tempo da obra. Em algumas poucas ocasiões, o autor esquece de usar a pausa gráfica para separar uma cena de outra, fazendo com que o leitor fique meio perdido, mas isso em raras ocasiões. O livro é bem revisado e diagramado, com pouquíssimos erros. 
                  Jornalista e super fã de ficção científica, Jorge Lourenço já escreveu para o Jornal dos Sports, UOL e assinou a tradicional coluna de política do Jornal do Brasil, o Informante JB. Nascido e criado no Morro do Andaraí, cresceu com insônia e assistiu a filmes de ficção científica no Corujão, quando TV a cabo não era tão acessível e a internet engatinhava. Fã de games e mangás, um dia decidiu escrever um livro e a partir dali nascia o mundo de Rio 2054.
                Sem dúvidas, Rio 2054 é leitura certa e obrigatória para os fãs de ficção e de obras que mexem com nossa forma de ver a realidade na qual vivemos.



Bibliografia de Jorge Lourenço (ordem cronológica):

Livros:

  • Rio 2054 – Novos Talentos (selo da Editora Novo Século) - 2013.



Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. Épico. Uma vontade grande de ler, a curiosidade então nem se fala ^^ Ótima resenha ^^

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  2. uau, que resenha incrível! A impressão que deu é que até já sei de tudo..haha! Interessante esses questionamentos! Adorei!

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  3. Adorei a resenha. Estou louca pra ler o livro, parece que é muito bom.

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  4. Oi Luciano,
    Vim te visitar porque estou fazendo um giro pelos parceiros da MODO, quando lançou esse livro fiquei bem curiosa com a leitura, mas não sei se é a minha praia. Desejo ótimas leituras e parabéns pela parceria com a MODO. Bjus Elis!
    http://amagiareal.blogspot.com.br/

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  5. Olha que orgulho. A resenha ficou ÓTIMA!!!!
    Estou mega curiosa para ler esse livro. Realmente parece ser muito bom.

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  6. Obrigado meninas :)
    Elisandra, obrigado! O livro é voltado mais para pessoas que gostam de ação e ficção cientifica, mas eu o recomendo fortemente por conta dos apelos reais que o autor usa no livro. Bjus

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  7. Incrivel a sua resenha. Nem gosto muito de ficção científica ou obras muito futuristas, mas caramba, fiquei curiosa. Parabéns!

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  8. Incrivel a sua resenha. Nem gosto muito de ficção científica ou obras muito futuristas, mas caramba, fiquei curiosa. Parabéns!

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