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18/04/2014

Chasque do Imperador


Quando foi do cerco de Uruguaiana pelos paraguaios em 65 e o imperador Pedro II veio cá, com toda a frota da sua comitiva, andei muito por esses meios, como vaqueano, como chasque, como confiança dele; era eu que encilhava-lhe o cavalo, que dormia atravessado na porta do quarto dele, que carregava os papéis dele e as armas dele.
Começou assim: fui escalado para o esquadrão que devia escoltar aquele estadão todo.
Quando a força apresentou-se ao seu general Caxias, o velho olhou... olhou... e não disse nada.
Cada um, firme como um tarumã; as guascas, das melhores, as garras, bem postas, os metais, reluzindo; os fletes tosados a preceito, a cascaria aparada... e em cima de tudo, — tirante eu — uma indiada macanuda, capaz de bolear a perna e descascar o facão até pra Cristo, salvo seja!...
Pois o velho olhou… olhou… e ficou calado. E calado saiu.
O tenente que nos comandava, relanceou os olhos como numa sufocação e berrou:
— Firme! E dando um torcicão forte na banda, começou a mascar a pera, furioso.
E ali ficamos; de vez em quando um bagual escarceando, refolhando, escarvando...
Daí a pouco, de em frente, das casas, veio saindo uma gentama, muito em ordem, de a dois, de a três.
Na testa vinha um homem alto, barbudo, ruivo, de olhos azuis, pequenos, mas mui macios. À esquerda dele, dois passos menos, como na ordenança, o velho Caxias, fardado e firme, como sempre.
O outro, o ruivo, assim a modo um gringo, vinha todo de preto, com um gabão de pano piloto, com veludo na gola e de botas russilhonas, sem esporas.
Pela pinta devia ser mui maturrango.
Não trazia espada nem nada, mas devia ser um maioral porque todos os outros se apequenavam pra ele. Quem seria?...
O tenente descarregou umas quantas vozes; e nós estávamos como corda de viola!...
O ruivo passou pela nossa frente, devagar; mirou um flanco e outro, e falou com o velho, mostrando um ar risonho no rosto sério.
O velho acenou ao tenente, que tocou o cavalo e firmou a espada em continência.
Então o ruivo disse:
— ‘Stá bem, Sr. tenente; estou satisfeito! Mande-me aqui um dos seus homens, qualquer...
— O tenente bateu a espada e deu de rédea, e parou mesmo na minha frente... eu era guia da fila testa.
— Cabo Blau Nunes! Pé em terra! Um!... Dois!…
Estava apeado e perfilado, com a mão batendo na aba levantada do meu chapéu de voluntário.
— Apresente-se!
E baixinho, fuzilando nos olhos, boquejou-me: — aquele é o imperador; se te enredas nas quartas, defumo-te!
Ora!... Caminhei firme e quando cheguei a cinco passos do ruivo, tornei a quadrar o corpo, na postura dos mandamentos.
Aí o velho Caxias perguntou:
— Sabes a quem falas?
— Diz que ao senhor imperador!
— Sua Majestade o imperador, é que se diz.
— A Sua Majestade o imperador!
Vai então, o tal, que pelo visto, era mesmo o tão falado imperador, disse, numa vozinha fina:
— Bem; cabo, você vai ficar na minha companhia; há de ser o meu ordenança de confiança. Quer?...
— O senhor imperador vai ficar mal servido: sou um gaúcho mui cru; mas para cumprir ordens e dar o pelego, tão bom haverá, melhor que eu, não!
Aí o homem riu-se e o velho também. E daí este indagou:
— Conheces-me?
— Como não?!... Desde 45, no Ponche Verde; fui eu que uma madrugada levei a vossa excelência um ofício reservado, pra sua mão própria... e tive que lanhar uns quantos baianos abelhudos que entenderam de me tomar o papel... Vossa excelência mandou-me dormir e comer na sua barraca, e no outro dia me regalou um picaço grande, mui lindo, que...
— Bem me parecia, sim... E ainda és o mesmo homem?
— Sim, Sr., com algum osso mais duro e o juízo mais tironeado!
— É que Sua Majestade vai precisar de um chasque provado, seguro... há perigo, na missão...
— Uê! seu general!... Meu pai e minha mãe hoje, é esta!
E beijei a minha divisa de cabo.
O imperador pôs a mão no meu ombro e disse:
— Estimo-te. Podes ir... e cala-te.
E vancê creia... — que diabo! — tive um estremeção por dentro!...
Eu pensava que o imperador era um homem diferente dos outros... assim todo de ouro, todo de brilhantes, com olhos de pedras finas...
Mas, não senhor, era um homem de carne e osso, igual aos outros... mas como quera... uma cara tão séria… e um jeito ao mesmo tempo tão sereno e tão mandador, que deixava um qualquer de rédea no chão!...
Isso é que era!…
Fiz meia-volta e fui tomar o meu lugar; o esquadrão desfilou, apresentando armas e fomos acampar. Logo a rapaziada crivou-me de perguntas... mas eu, soldado velho, contei um par de rodelas, queimei campo a boche, mas não afrouxei nada da conversa; não vê!...
De tardezita já entrava de serviço.
A não ser nas conversas particulares daqueles graúdos — pois tudo era só seu barão, seu conselheiro, seu visconde, seu ministro —, eu sempre via e ouvia o que se passava.
E a bem boas assisti.
Um dia apresentaram ao imperador um topetudo não sei donde, que perguntou, mui concho:
— Então Vossa Majestade tem gostado disto por aqui?
— Sim, sim, muito!
— Então por que não se muda pra cá, com a família?...
Outro, no meio da roda, puxou da traíra, sovou uma palha de palmo, e começou a picar um naco; esfregou o fumo na cova da mão, enrolou, fechou o baio e mui senhor de si ofereceu-o ao imperador.
— É servido?
— Não, obrigado; parece-me forte o seu fumo...
— Não sabe o que perde!... Então, com sua licença!...
E bateu o isqueiro e começou a pitar, tirando cada tragada que nuveava o ar!
Havia um que era barão e comandava um regimento, que era mesmo uma flor; tudo moçada parelha e guapa.
O imperador gabou muito a força, e aí no mais o barão já lhe largou esta agachada:
— Que vossa majestade está pensando?... Tudo isto é indiada coronilha, criada a apojo, churrasco e mate amargo... Não é como essa cuscada lá da Corte, que só bebe água e lambe a... barriga!...
Este mesmo barão, duma feita que o D. Pedro procurou no bolso umas balastracas para dar uma esmola e não achou mais nada, desafivelou a guaiaca e entregando-a disse:
— Tome, senhor! Cruzes! Nunca vi homem mais mão-aberta do que Vossa Majestade…, olhe que quem dá o que tem, a pedir vem... mas... quando quiser os meus arreios prateados... e até a minha tropilha é só mandar... só reservo o tostado crespo e um qualquer pelego...
— Mas, Sr. barão, nem por isso eu dou o que desejara…
— Ora qual!... Vossa majestade não dá a camisa... porque não tem tempo de tirá-la!...
Numa das marchas paramos num campestre, na beira dum passo, perto dum ranchito.
Daí a pouco, com uma trouxinha na mão apareceu no acampamento uma velha, que já tinha os olhos como retovo de bola. Por ali andou mirando, e depois entrando mesmo no grupo onde ele estava, disse:
— Bom dia, moços! Qual de vocês é o imperador?
— Sou eu, dona! Assente-se.
A velha olhou-o de alto a baixo, calada, e depois rindo nos olhos:
— Deus te abençoe! Nossa Senhora te acompanhe, meu filho! Eu trago-te este bocadinho de fiambre!
E abrindo o pano, mui limpinho, mostrou um requeijão, que pela cor devia de estar um gambelo, de gordo e macio. D. Pedro agradeceu e quis dar uma nota à velha, que parou patrulha.
— Não! não!... Tu vais pra guerra... Os meus filhos e netos já lá andam... Eu só quero que vocês não se deixem tundar!...
Houve uma risada grande, da comitiva. A velhota ainda correu os olhos em roda e indagou:
— Diz que o seu Caxias também vem aqui... quem é?
— Sou eu, patrícia!... Conhece-me?
— De nome, sim, senhor. O meu defunto, em vida dele, sempre falava em vancê... Pois os caramurus iam fuzilar o coitado, quando vancê apareceu... Lembra-se?... E vai, quando o seu general Canabarro fez a paz entre os farrapos e os legais, o meu defunto jurou que onde estivesse o seu Caxias, ele havia de ir... mas morreu, pro via dum inchume, que apareceu, aqui, lá nele. Mas, como por aqui, correu que vancê ia pra guerra dos paraguaios, o meu filho mais velho, em memória do pai, ajuntou os irmãos e os sobrinhos e uns quantos vizinhos e se tocaram todos, pra se apresentarem de voluntários, a vancê!… Vancê dê notícias minhas e bote a bênção neles; e diga a eles que não deixem o imperador perder a guerra... ainda que nenhum deles nunca mais me apareça!... Bem! Com sua licença... Seu imperador, na volta, venha pousar no rancho da nhã Tuca; é de gente pobre, mas tudo é limpo com a graça de Deus... e sempre há de haver uma terneira gorda pra um costilhar... Passar bem! Boa viagem... Deus os leve, Deus os traga!...
O imperador — esse era meio maricas, era! — abraçou a velha, prometendo voltar, por ali, e quando ela saiu, disse:
— Como é agradável esta rudeza tão franca!
Numa cidade onde pousamos, o imperador foi hospedado em casa dum fulano, sujeito pesado, porém mui gauchão.
Quando foi hora do almoço, na mesa só havia doces e doces... e nada mais. O imperador, por cerimônia provou alguns; a comitiva arriou aqueles cerros açucarados. Quando foi o jantar, a mesma cousa: doces e mais doces!... Para não desgostar o homem, o imperador ainda serviu-se, mas pouco; e de noite, outra vez, chá e doces!
O imperador, com toda a sua imperadorice, gurniu fome!
No outro dia, de manhã, o fulano foi saber como o hóspede havia passado a noite e ao mesmo tempo acompanhava uma rica bandeja com chá e... doces...
Aí o imperador não pôde mais… estava enfarado!…
— Meu amigo, os doces são magníficos... mas eu agradecia-lhe muito se me arranjasse antes um feijãozinho... uma lasca de carne...
O homem ficou sério… e depois largou uma risada:
— Quê! Pois Vossa Majestade come carne?! Disseram-me que as pessoas reais só se tratavam a bicos de rouxinóis e doces e pasteizinhos!… Por que não disse antes, senhor? Com trezentos diabos!... Ora esta!... Vamos já a um churrasco... que eu, também, não aguento estas porquerias!...


Simões Lopes Neto


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