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07/11/2014

No Manantial



           –Está vendo aquele umbu, lá embaixo, à direita do coxilhão?
            Pois ali é a tapera do Mariano. Nunca vi pêssegos mais bonitos que os que amadurecem naquele abandono; ainda hoje os marmeleiros carregam, que é uma temeridade!
            Mais para baixo, como umas três quadras, há uns olhos d’água, minando as pedras, e logo adiante uns coqueiros; depois pega um cordão de araçazeiros.
            Diziam os antigos que ali encostado havia um lagoão mui fundo onde até jacaré se criava.
            Eu, desde guri conheci o lagoão já tapado pelos capins, mas o lugar sempre respeitado como um tremedal perigoso: até contavam de um mascate que aí atolou-se e sumiu-se com duas mulas cargueiras e canastras e tudo...
            Mais de uma rês magra ajudei a tirar de lá; iam à grama verde e atolavam-se logo, até a papada.
            Só cruzam ali por cima as perdizes e algum cusco leviano.
            Com certeza que as raízes do pasto e dos aguapés foram trançando uma enrediça fechada, e o barro e as folhas mortas foram-se amontoando e, pouco a pouco, capeando, fazendo a tampa do sumidouro.
            E depois nunca deram desgosto na ponta do lagoão, porque, se dessem, a água corria e não se formaria o mundéu...
            Mas, onde quero chegar: vou mostrar-lhe, lá, bem no meio do manantial, uma cousa que vancê nunca pensou ver; é uma roseira, e sempre carregada de rosas...
            Gente vivente não apanha as flores porque quem plantou a roseira foi um defunto... e era até agouro um cristão enfeitar-se com uma rosa daquelas!...
            Mas, mesmo ninguém poderia lá chegar; o manantial defende a roseira baguala: mal um firma o pé na beirada, tudo aquilo treme e bufa e borbulha...
            Uns carreteiros que acamparam na tapera do Mariano contaram que pela volta da meia-noite viram sobre o manantial duas almas, uma, vestida de branco, outra, de mais escuro... e ouviram uma voz que chorava um choro mui suspirado e outra que soltava barbaridades...
            Mas como era longe e eles estavam de cabelos em pé... – pois nem os cachorros acuavam, só uivavam... uivavam... – não puderam dar uma relação mais clara do caso.
            E o lugar ficou mal-assombrado.
            Mas, onde quero chegar: foi assim, como lhe vou contar. Estes campos eram meio sem dono, era uma pampa aberta, sem estrada nem divisa; apenas os trilhos do gado cruzando-se entre aguadas e querências.
            A gadaria, não se pode dizer que era alçada: quase toda orelhana, isso sim.
            Mas vivia-se bem, carne gorda sobrava, e potrada linda isso era ao cair do laço.
            O Mariano apareceu aqui, diz que vindo de Cima da Sena, corrido dos bugres; uns, porque lhe morrera a mulher da bexiga preta, outros ainda, à boca pequena, que não era por santo que ele mudara de cancha.
            Mas fosse como fosse, chegou e arranchou-se.
            Trazia para o brigadeiro Machado uma carta que devia ser de gente pesada, porque o brigadeiro tratou-o muito bem e decerto foi com o seu consentimento que ele aboletou-se aqui nos pagos.
            Tocava uma carreta de tolda, uma ponta de gado manso e uma quadrilha de ruanos.
            De gente, ele, duas velhuscas, uma menina, uns pretos, campeiros e uma negra mina, chamada mãe Tanásia.
            A menina era filha dele; das velhas uma era avó da criança, e a outra, irmã dessa, vinha a ser tia-avó. Ele dava-se por genro da velha, mas não era: havia suspendido com a moça da casa, e depois nunca se proporcionou ocasião de padre para fazer-se o casamento, e o tempo foi passando até que a defunta morreu, ficando a inocente nesse paganismo de não ser filha de casal legítimo... por sacramento. Mas davam-se bem, todos.
            O paisano era trabalhador e entendido nas cousas; desde o torrão para os ranchos, e quinchar, madeiras, cercados, lavouras, tudo passou pelas suas mãos. E tanto falquejava um linhote como semeava uma quarta de trigo, e já capava um touro como amanonsiava um bagual.
            Quando Maria Altina – era a menina, a filha dele – andava nos dezesseis anos, este arranchamento era um paraíso: o arvoredo todo crescido e dando; lavouras, criação miúda, de tudo era uma fartura; havia galpões, eira, currais, tafona.
            O Mariano e as duas velhas traziam nas palminhas a pequena. Ela era o – ai-Jesus! – de todos, até dos negros.
            Duma feita que a família foi ao povo, para um terço de muita fama que se rezou na casa do brigadeiro Machado, a Maria Altina fez um fachadão entre a moçada; mas de todos ela tomou-se de camote com um tal André, que era furriel e gauchito teso. Não entro nisto mais pelo miúdo porque não vale a pena de falar nestes chicos pleitos de namoriscos e milongagens de crianças.
            Mas segue-se é que na despedida da volta o furriel André deu-lhe uma rosa colorada, com um pé de palmo... e ela atravessou a flor no seu chapéu de palha, ali no mais, com toda a inocência, à vista de todos.
            Cá pra mim havia algum conchavo entre o brigadeiro e o Mariano, porque naquele soflagrante da flor os dois piscaram os olhos um para o outro e riram-se à sorrelfa por debaixo do bigode.
            Ah!... o furriel era afilhado e ordenança do galão-largo... e até diziam mais alguma coisa... vancê entende!...
            A comitiva nessa noite pousou no caminho, e a menina deu jeito e arrumou a rosa numa botija com água, para não murchar.
            De manhãzita, marcharam; e de chegada em casa, o primeiro cuidado da pécora foi cortar a rosa bem rente do cachimbo e plantar o galho numa terra peneirada e fresquinha.
            E tais cuidados deu-lhe que a planta pegou, botando raízes firmes e espigando ramos e folhas; e quando vieram os primeiros botões, ela apanhou-os, fez um ramo todo cheiroso, amarrou-o com a fita dos cabelos e foi prendê-lo no pé da cruz dum Nosso Senhor que estava na frente do oratório... como quem dá uma prenda, a modo de pagamento de promessa feita!...
            Nesse entrementes – cousa arranjada pelo brigadeiro – o furriel pousou em casa do Mariano, de passagem para um destacamento onde ia levar ofícios. Foi um alegrão para todos, mas para a Maria Altina, nem se fala!...
            Vancê pense... a paisaninha só teve alma e vida e coração para o moço... ele também estava entregue, de rédea no chão.
            Aquela visita trazia água no bico... era o trato de casamento.
            Depois que o furriel se foi as velhas pegaram a fazer rendas de bilro e outros preparos do aprontamento da noiva.
            A roseira estava em todo o viço: recendia que era um gosto e bordava de vermelho o caniçado da horta, que se via desde longe.
            Mas, perto da pomba andava rondando o gavião.
            Na Restinguinha, obra de um quarto de légua pra lá do Mariano, morava um tal Chico Triste, que tinha filhos como rato, e o mais velho era já homem feito.
            Este, que pro caso chamava-se Chicão, andava mui enrabichado pela Maria Altina.
            Ele era um bruto, que só olhava, só queria a Maria Altina – de carne e osso. Do mais não se lhe dava; não queria saber se a menina era vergonhosa, ou trabalhadeira ou prendada.
            Ele só olhava para as ancas, e os seios, e para a grossura dos braços; era – mal comparando – como um pastor no faro de uma guincha...
            A rapariga tinha-lhe quase tanto medo como raiva. Uma vez ele pediu-lhe uma muda da roseira, e ela, sem negar, para não fazer desfeita, disse-lhe que tirasse o que quisesse.
            – Mas eu quero é dada pela senhora!...
            – Ah! Não!... tire o senhor mesmo, a seu gosto...
            – Não dá?... pois qualquer dia pico a facão toda essa porcaria!...
            E levantou-se e saiu, todo apotrado.
            Outras vezes trazia-lhe de presente ovos de perdiz, ou ninhadas de mulitas, que ela criava com paciência e logo que podiam manter-se, largava para o campo. Uma ocasião trouxe-lhe um veadinho; ela soltou-o; uns gatos viscachas, soltou-os também.
            O Chicão que não via nunca os seus presentes, soube do caso, e, por despique, apanhou uns quantos filhotes de avestruz, e a tirões arrancou-lhes – ainda vivos, criatura! – as pernas e as asas, e assim arrebentados e estrebuchando, mandou-os à Maria Altina... a pobre desatou num pranto de choro, ao ver a malvadez daquele judeu...
          
            Assim estavam as cousas quando o furriel passou e logo depois correu a nova do casamento.
            O Chicão espumou de raiva... levava os cavalos a sofrenaços, os cachorros a arreador, os irmãos a manotaços e até a mãe, com respostas duras.
            Só respeitava o pai, o velho Chico, e assim mesmo porque este tinha marca na paleta, mas não era tambeiro...
            No dia – véspera da barbaridade, houve na casa do Chico Triste um batizado feito por um padre missioneiro que ia de caminho; a gente do Mariano foi convidada. Nessa noite comeram doces, tocaram viola, cantaram e até dançaram uma tirana e o anu.
            Aí o Chicão cargoseou muito a Maria Altina.
            A jantarola e o resto do festo iam ser no dia seguinte – que foi o do caso.
            Vancê acredita?... Nesta manhã, desde cedo, os pica-paus choraram muito nas tronqueiras do curral e nos palanques... e até furando no oitão da casa;... mais de um cachorro cavoucou o chão, embaixo das carretas;... e a Maria Altina achou no quarto, entre a parede e a cabeceira da cama, uma borboleta preta, das grandes, que ninguém tinha visto entrar...
            Sol nado o Mariano e uma das velhas foram para o riste, para dar um ajutório. Os campeiros, como de costume, para os seus serviços, uns de campo, outros lenhar.
            Na casa só ficaram, para irem mais tarde, a Maria Altina e a outra velha, que era a avó; e para as duas, debaixo do umbu, dois mancarrões encilhados.
            Ficou também a negra mina, que viu tudo e foi quem fez o conto.
            A avó estava na cozinha frigindo uns beijus e a Maria Altina na varanda, apenas em saia, arrematava um timãozinho novo.
            Na cabeça, como gostava, trazia uma rosa fresca, e que ficava-lhe sempre a preceito no negrume da cabeleira. E garganteava umas coplas que tinha aprendido na véspera, quando dançava a tirana e se divertia. Umas coplas que eram assim... e me lembro, porque quem as botou – para uma outra – foi mesmo este seu criado Matias!...

            Quem canta pra tu ouvires:

                        Devia morrer cantando...
                        Pois quando daqui saíres,
                        Do cantor vais te olvidando;

                        E, pode ser que morrendo,
                        Dele então tu te lembrasses:
                        Se visses outro defunto,
                        Ou se outra vez tu dançasses...
                       
                        Minha voz no teu ouvido,
                        Soluçaria de dor,
                        Não por deixar a vid...

            E nem acabou o verso, porque estourou na cozinha um esconjuro e logo a voz da avó, sumida e arroucada, gritando – bandido! Bandido! – e depois um gemido ansiado, uns ais... e um baque surdo...
            De pé, com o timãozinho numa mão e a agulha na outra, pálida como a cal da parede, o coração parado, Maria Altina pregada no chão, de puro medo, ouviu... ouviu... e aí no mais entrou e veio a ela o Chicão... o Chicão, entende vancê? – com uns olhos de bicho acuado, e um bafo de fogo, na boca...
            E como chegou, atropelou-a, agarrou-a, apertou-a, abraçando-a pela cintura, metendo a perna entre as dela, forcejando por derrubá-la, respirando duro, furioso, desembestado... mais mordendo que beijando o pescoço amorenado... e garboso...
            A rapariga gritou, empurrando-o num desespero, arranhando-lhe a cara, ladeando o corpo... por fim atacou-lhe os dentes num braço.
            Ele urrou com a dor e largou-a um momento; ela aproveitou o alce e disparou... ele quis pegá-la de novo, mas no mover-se enredou as esporas no timãozinho que caíra, e testavilhou maneado...
          
            A pobre, ao passar pela cozinha viu a avó estendida, com as roupas enrodilhadas, a cabeça branca numa sangueira... e então desatinada, num pavor, correu para o umbu e foi o quanto pulou a cavalo e já tocou, a toda, coxilha abaixo!...
            Mas, logo, logo, mesmo sem se voltar, sentiu-se quase alcançada pelo Chicão, que também montara e se lhe vinha em perseguição...
            E os dois – à que te pego! à que te largo! – se despencaram por aquele lançante, em direitura ao manantial! E, ou por querer atalhar, ou porque perdesse a cabeça ou nem se lembrasse do perigo, a Maria Altina encostou o rebenque no matungo, que, do lance que trazia costa abaixo, se foi, feito, ao tremendal, onde se afundou até as orelhas e começou a patalear, num desespero!...
            A campeirinha varejada no arranco, sumiu-se logo na fervura preta do lodaçal remexido a patadas!... E como rastro, ficou em cima, boiando, a rosa do penteado.
            E da mesma carreira, o cavalo do Chicão, que também vinha tocado à espora e relho, chapinhou no pantanal, um pouco atrás do outro, cousa de braça e meia... e ali ficou, o corpo todo sumido, procurando agüentar as ventas, as orelhas fora da água.
            O Chicão, agora deslombrando-se em esforços para sair da enrascada, não podia, porque bem sentia as esporas enleadas nas raízes – e os cabrestilhos eram fortes... – e parecia-lhe que tinha um pé quebrado por uma patada do cavalo, que se despedaçava aos arrancos, sentindo-se chupado para o fundo...
            Depois desse estropício, tudo ficou como estava: tudo no sossego, o sol subindo sempre, nuvens brancas correndo o céu, passarinhos cruzando para um lado e outro... os galos cantando lá em cima... uns latidos, muito longe... pios de perdiz... algum inhé de sapo ali perto...
            Parecia que nada se havia dado: se não fosse a rosa colorada boiando, lá, e o Chicão atolado até o peito, mais pra cá.
            O cavalo dele, com a cabeça alinhada, mal podia agüentar fora da água o focinho e ressolhava, o pobre, puxando a respiração em assobios grossos, e o dono, todo salpicado de barro, suava em cordas, cada vez mais ansiado, não podendo desprender-se das malditas esporas, que o sujeitavam em cima do bagual, que ia se afundando... afundando... afundando... E a cada sacudida feita naquele reduto todo o manantial bufava e borbulhava...
            Com pouco mais o Chicão desceu ainda, atolado até os sovacos; o cavalo já se não via e nem bulia, sufocado e morto, pesando entregue no mole do tremedal...
            E as esporas... as malditas esporas, nem nada!...
            Obrigado pela postura em que estava, ele olhava para o buraco que tinha engolido a Maria Altina: sobre a água barrenta, escura, nadavam folhas secas, capins pisoteados, gravetos... e no meio deles, limpa e fresca, boiava a rosa que se soltara dos cabelos da cobiçada no momento em que ela entrava pela morte adentro, dentro do lodaçal...
            E o tempo foi passando, a tranquito, sem pressa nem vagar.
            Vancê lembra-se?...
            Como eu disse, havia ficado em casa, além das brancas, a tia mina – a mãe Tanásia – que, quando sentiu a desgraceira, ganhou no paiol, escondendo-se e daí pode bombear alguma cousa. Quando viu as criaturas montarem e tocarem – como caça e caçador – a mãe Tanásia saiu da toca e voltou à cozinha, dando com a – nhanhã... morta, e logo viu que a sinhazinha fugira. E pensou em ir ao Chico Triste, avisar o Mariano. O mais perto era ir pelos olhos d’água, acima do manantial; desceu o caminho; costeou pelas pedras e quando dobrava a estradinha frenteou com o Chicão...
            A mãe Tanásia ficou estatelada... e daí a pedaço – em que olhou só, sem pensar nada – foi que a coitada falou.
            – Eh! Eh!... sinhô moço!... que é que suncê fez!...
            E o desalmado gritou-lhe:
            – Vai, bruaca velha, vai contar!...
            – Ah! Ah!... Deus perdoe!...
            E foi andando, estradinha afora, lomba acima, apurando o passo, um pouco renga.
            Nesse meio tempo também chegavam à casa os campeiros; era hora de comer; repararam que só estava amarrado um cavalo; a casa aberta, silenciosa; um espiou pela janela da cozinha... e gritou pelos outros, benzendo-se...
          
            Lá estava a senhora, com a cabeça arrebentada a olho de machado... o fogo apagado, a banha coalhada, os beijus frios... e mui a seu gosto, de papo para o ar, dormindo na saia da morta, uma gata brasina e a sua ninhada.
            Chamaram pela mãe Tanásia... gritaram... procuraram... e nada! Um deles, mais alarife, propôs que fugissem... que era melhor ser carambola do que ser estaqueado... que por certo iam acusá-los daquela maldade.
            Porém outro mais precatado disse:
            – Cala a boca, parceiro... Vamos é avisar sinhô velho...
            E ficando uns de guarda, tocaram-se os outros, a meia rédea, para o Triste, onde, fulos de medo, desovaram a novidade.
            Que canhonaço, amigo! A gentama toda se alvorotou; o que era de mulheres abriu num alarido, o que era homem apresilhou as armas, e já se saiu, muitos de em pêlo, cobrindo a marca dos fletes, o Mariano na frente, como um louco.
            Eu estava nessa arrancada. Chegamos como um pé-de-vento e conforme boleamos a perna, vimos o mesmo que os negros contavam. E da Maria Altina, nada; da mãe Tanásia, nada. Apenas no chão da varanda novelos desparramados, a mesa arredada, o timãozinho novo com um rasgão grande...
            Nisto, um aspa-torta, gaúcho mui andado no mundo e mitrado, puxou-me pela manga da japona e disse-me entre dentes:
            – O Chicão repontava a rapariga... ele não estava em casa, nem veio conosco; ela não está... patrício, que lhe parece?...
            – Hom!... respondi eu, e fiquei-me com aquele zunido de varejeira no ouvido...
            Mas o paisano tinha o estômago frio e foi passando língua... daí a pouco todos faziam as mesmas contas, até que um, mais golpeado, disse-o claro ao Mariano!
            O homem relanceou os olhos a ver talvez se descobria o Chicão... depois teve a modo uns engulhos e depois ficou como entecado...
            Pensaria mesmo que a filha tinha fugido com o querendão?... Quem sabe lá!... Que o rapaz rondava, isso ele e todos sabiam e que ela não fazia caso do derretimento, isso também se sabia: agora, como dum momento para o outro os dois se tinham combinado, isso é que era!...
            Mas ao mesmo tempo perguntava-se – quem matou a velha e por quê?...
            E quando estávamos neste balanço ouvimos então a gritaria das mulheres, que tinham vindo de a pé, encontrando no caminho a mãe Tanásia.
            Em antes de chegarem, já os cuscos, ponteiros, tinham começado a acuar, por debaixo dos araçazeiros; as crianças, curiosas e mais ligeiras, tinham corrido pensando ser algum bicho... e recuaram assustadas, fazendo cara-volta, umas chorando, outras sem fala, apenas apontando para o manantial...
            E quando a ranchada das damas chegou perto e viu... viu o Chicão atolado; o Chicão atolado, e logo adiante, no barro revolvido, a rosa cobrada boiando; a rosa boiando, porque a moça estava no fundo, afogada, porque... porque... por causa do Chicão?... por medo dele, que queria abusar dela?... quando as senhoras-donas, todas caladas, viram aquele condenado, e uma, mais animosa, gritou-lhe – cachorro desavergonhado! – foi que a mãe dele, jungindo as lágrimas para não saltarem, perguntou:
            – Chicão, meu filho, que é isto?...
            – Atolado... as esporas... um laço!...
            – Filho!... que desgraça! E a Maria Altina?...
            – Aí!... embaixo da rosa...
            Foi neste ponto que rompeu o alarido, os choros, os chamados que ouvimos lá em cima, nas casas, e descemos logo. O Mariano vinha com os olhos raiados de sangue e batendo os dentes, como porco queixada...
            E quando paramos todos e vimos o jeito daquele rufião maldito, ainda um lembrou, alto:
            – Vamos laçar o homem, e puxar cá pra fora!...
            O Mariano porém, gritou:
            – Espera!... e voltando-se para o atolado, indagou:
            – Por que mataste a velha?...
            – Não!
            – Viste a Maria Altina?
            – Não!
            – Que esburacado é esse, aí na tua frente?
            – Não sei!
            – E aquela rosa... também não sabes?...
            – Pois sei, sim! É dela... e a velha, também, fui eu... e agora?...
            – Vou rebentar-te a cabeça...
            – Arrebenta! Se não fosse as esporas!...
            Então o Mariano amartilhou a outra pistola; o Chicão berrou de lá:
            – Mata! Eu não pude!... mas o furriel também não há-de!...
            Mas nisto a mãe dele abraçou-se nos joelhos do Mariano, e o padre missioneiro levantou a cruzinha do rosário, meteu o Nosso Senhor Crucificado na boca do cano da pistola... e o Mariano foi baixando o braço... baixando, e calado varejou a arma para o lameiro... mas de repente, como um parelheiro largado de tronco, saltou pra diante e de vereda atirou-se no manantial... e meio de pé, meio de gatinhas, caindo, bracejando, afundando-se, surdindo, todo ele numa plasta de barro reluzente, alcançou o Chicão, e – por certo – firmando-se no corpo do cavalo morto, botou-se ao desgraçado, com as duas mãos escorrendo lodo apertou-lhe o gasganete... e foi calcando, espremendo, empurrando para trás... para trás... até que num – vá! – aqueles abraçados escorregaram, cortou o ar uma perna, um pé do Chicão – livre da espora – e tudo sumiu-se na fervura que gorgolejou logo por cima!...
            Imagine vancê, aquilo passando-se ali pertinho a meio laço de distância e ninguém podendo remediar...
            Houve só uma palavra em todas as bocas: Jesus, Senhor!...
            O manantial borbulhava por todas as costuras... se fosse água limpa... credo!
            D’espacito... d’espacito... o missionário foi estendendo o braço, como esperando que as almas subissem... depois riscou uma cruz larga, na claridade do dia; e ajoelhando-se na beira daquela cova balofa, de três defuntos de razão de morrer tão diferente e de morte tão a mesma, começou a rezar.
            E logo no derredor a gentama também se foi arrodilhando... e todos com os olhos firmados no manantial, e todos de mãos postas, todos empeçaram um – Salve-Rainha – que foi alteando e subindo no descampado, tão penaroso, tão sentido, tão do coração, que até parece que amansou os próprios bichos, porque, entrementes, nem um cachorro latiu, nem passarinho piou, nem cavalo se mexeu!...
            Nas paradas da reza só se ouvia os soluços da mãe do Chicão e um leve guasqueio do vento nas talas dos jerivás.
            Acabada a devoção e marchando como uma procissão, fomos para a casa levando a outra velhinha, a irmã da que lá estava, de cabeça esmigalhada. Velamos o corpo e na manhã seguinte fizemos-lhe o enterro, também lá embaixo, na costa do manantial.
            O missioneiro benzeu, e então fincamos uma cruz morruda, de cambará, para vigia às almas dos quatro mortos.
            Depois, cada qual tomou seu rumo.
            Anos depois passei por aqui: cortava a alma olhar para o arranchamento. Os negros tinham tomado a alforria por sua mão, e se foram a la cria!... Ficaram as duas mulheres, a mãe Tanásia e a sua senhora velha, que, por caridade, o brigadeiro Machado mandou buscar pra casa dele.
            O arranchamento ficou abandonado; e foi chovendo dentro; desabou um canto de parede; caiu uma porta, os cachorros gaudérios já dormiam lá dentro. Debaixo dos caibros havia ninhos de morcegos e no copiar pousavam as corujas; os ventos derrubaram os galpões, os andantes queimaram as cercas, o gado fez paradeiro na quinta. O arranchamento alegre e farto foi desaparecendo... o feitio da mão de gente foi-se gastando, tudo foi minguando; as carquejas e as embiras invadiram; o gravatá lastrou; só o umbu foi guapeando, mas abichornado, como viúvo que se deu bem em casado... foi ficando tapera... a tapera... que é sempre um lugar tristonho onde parece que a gente vê gente que nunca viu... onde parece que até as árvores perguntam a quem chega: - onde está quem me plantou?... onde está quem me plantou?...
            Olhe! Veja vancê: ali embaixo... hem? ‘Stá vendo?... aqueles coqueiros, o matinho de araçás?
            Pois é ali o manantial, que virou sepultura naquele dia brabo em que desde manhã tanto agouro apareceu, de desgraça: os pica-paus chorando... os cachorros cavoucando... a bruxa preta entrada sem ninguém ver...
            Sempre dói na alma, mexer nestas lembranças. E há quem não acredite!...
            A cruz... onde já foi!... mas a roseira baguala, lá está! Roseira que nasceu do talo da rosa que ficou boiando no lodaçal no dia daquele cardume de estropícios...
            Vancê está vendo bem, agora?
            Pois é... coloreando, sempre! Até parece que as raízes, lá no fundo do manantial, estão ainda bebendo sangue vivo no coração da Maria Altina...
            Vancê quer, paramos um nadinha. Com isto damos um alcezito aos mancarrões, e eu... desaperto o coração!...
            Ah! Saudade!... parece que ainda vejo a minha morena, quando no rancho do Chico Triste botei-me os versos...

                        Minha voz no teu ouvido
                        Fez seu ninho pra canta...

            – Diabo!... parece que tenho areia nos olhos... e um pé-de-amigo na goela... – Ah! Saudade!...
            É uma amargura tão doce, patrãozinho!...
                       
                        Saudade é dor que não dói,
                        Doce ventura cruel,
                        É talho que fecha em falso,
                        É veneno e sabe a mel...
Simões Lopes Neto

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