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18/10/2016

Resenha - Ilha dos Mortos (Rodrigo de Oliveira)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: DE OLIVEIRA, Rodrigo. Ilha dos Mortos. 1ª edição. São Paulo, Faro Editorial, 2016. 333 páginas.
Gênero: Terror
Temas: Fim do mundo, Zumbis.
Categoria: Literatura Nacional
Ano de lançamento: 2016
Série: O Vale dos Mortos (Livro 1); Batalha dos Mortos (Livro 2); Senhora dos Mortos (Livro 3); Ilha dos Mortos (Livro 4); Elevador 16 (Spin Off).




AVISO: Esta é a resenha de um livro que pertence a uma série, portanto, há spoilers referentes aos livros anteriores. As resenhas das obras anteriores estão nos links acima.



“- Preparar para o impacto! Firmes! – Matheus posicionou um pé mais atrás e se preparou para o choque.
Várias fileiras de soldados o imitaram.
E uma verdadeira onda de seres demoníacos chocou-se contra a Muralha.
O impacto da massa de zumbis contra a Muralha foi ensurdecedor. As fileiras de homens foram se espremendo uma contra as outras à medida que milhares de seres se acotovelavam contra os escudos.
Os mortos-vivos, furiosos e dementes, tentavam enfiar suas mãos esqueléticas por entre os escudos, buscando assim uma forma de alcançar um dos combatentes. Os gemidos e urros dos seres faziam o sangue dos soldados gelar.”
*Ilha dos Mortos (pág. 13).

Muitos anos se passaram desde que a maior colônia de sobreviventes do Apocalipse Zumbi fugiu às pressas de São José dos Campos, pois Ivan e seus comandados não conseguiram fazer frente à Senhora dos Mortos. O destino foi Ilhabela, que é separada do continente por uma faixa de um quilômetro de mar atlântico. A ilha surgiu como um refúgio seguro para as novas gerações e muita coisa mudou desde então.
Fiquei muito tempo pensando em como começar essa resenha. Como muitos devem saber, acompanho o trabalho do autor Rodrigo de Oliveira desde o lançamento de “O Vale dos Mortos” pela Faro Editorial e a cada novo livro lido eu ficava embasbacado com a capacidade do autor de produzir um enredo que fosse superior ao anterior. Eu não conseguia imaginar como a jornada de Ivan e demais personagens iria seguir seu curso depois do desfecho de “Senhora dos Mortos”. Então, vocês devem imaginar o quão forte era minha expectativa para esse livro.
A história começa contando o passado de um novo personagem, Uriel, nas primeiras semanas da aproximação do planeta Absinto, que transformou boa parte da população mundial em zumbis. Após os acontecimentos que marcaram para sempre a vida do personagem, o livro dá um salto no tempo em relação ao livro anterior e esse foi o meu primeiro choque, pois não foi coisa de 1, 5, 10 anos, foram 30 anos! Fiquei surpreso e temeroso, pois uma mudança dessas tem de vir acompanhada de uma boa explicação e logo pensei nos personagens. Ivan, o protagonista dos 3 primeiros volumes estava na casa dos 30 anos, logo ele teria ultrapassado os 60 nessa história. Meu segundo choque foi que, naturalmente, os pequenos cresceram. Na resenha de “O Vale dos Mortos” comentei que o autor poderia explorar mais os filhos de Ivan e Estela e com assombro vi que Matheus, um desses filhos apareceu no livro com mais de 40.
Confesso que não curti muito o tom dessa primeira parte do livro. Talvez pelo meu apego aos personagens anteriores, a nova geração não me passou muita confiança, ainda mais porque houve um fanatismo meio exagerado desses novos personagens, falando coisas como “Nossos ancestrais”, com táticas e maneirismos que me lembraram, por exemplo, um pouco as histórias de vikings que já li, quase como se as pessoas tivessem voltado à cultura dos bárbaros, com direito a guerreiros sendo adorados e reverenciados por sua coragem em combate. Não consegui me identificar e até mesmo pensei que poderia prejudicar o resto da minha leitura. Felizmente, não foi o que rolou.

- Preparem-se! Deixem nossos ancestrais orgulhosos, soldados! – Klaus gritou, de punho cerrado, com seu forte acento nordestino. Nessa hora, todo traço de brincadeira cessava, agora não havia espaço para piadas. Era hora da guerra.
*Ilha dos Mortos (pág. 13).


Alerta de Spoiler. Clique por sua conta e risco.

                Se o salto no tempo foi um baque pra mim, descobrir que uma das pessoas mais carismáticas de toda a saga estava morta foi dez vezes pior. Estela estava morta. Simples assim. E a explicação se encontrava muitas páginas à frente dessa revelação bombástica. Foi então, a partir do quarto capítulo que Rodrigo de Oliveira mais uma vez provou que é um dos melhores escritores de terror da atualidade. De todos os livros, Ilha dos Mortos é com certeza o livro mais carregado de humanidade. Muito mais que lutas contra zumbis, contra outros grupos de humanos ou contra a Senhora dos Mortos, nesse livro, mais que os outros, vemos a luta dos personagens para superar a dor de perder aqueles que ama. Ivan sentiu isso na alma ao perder Estela em uma das passagens mais tocantes de toda a saga.

                Neste livro, Rodrigo apresenta um inimigo que talvez seja ainda mais mortal que os zumbis, ou até mesmo que a própria Jezebel: o tempo. Como apresentado no livro dois, todas as pessoas que não foram transformadas em zumbis no início de tudo sofriam de alguma anomalia no cérebro e sem recursos para um diagnóstico e muito menos para tratamentos, as pessoas começaram a morrer em larga escala, evidenciando um grave problema: os sobreviventes eram em sua grande maioria pessoas que estavam com os dias contados. Então como a espécie humana continuaria a caminhar sobre a terra se aos poucos definhava? Se vocês acham que a Senhora dos Mortos fez um estrago gigantesco na vida de Ivan e dos demais, mal podem esperar para ver a chacina que o tempo fez com eles.
                Sem a menor sombra de dúvida, Ivan foi o personagem que mais cresceu em toda a saga. Aprendendo com os erros do passado, com todo o sofrimento e dor de perder entes queridos ao longo dos anos, o personagem se tornou uma espécie de “sábio” para a nova geração, perdendo quase que completamente aquela impulsividade e teimosia vistas nos livros anteriores. Adorado por muitos, Ivan não só levou os sobreviventes à Ilhabela, como implantou um sistema (embora arcaico) de leis e regras, trazendo de volta os resquícios de sociedade que foram perdidos no Apocalipse. E no meio de tudo isso Rodrigo ainda insere uma crítica ao nosso atual cenário político, onde os personagens precisam votar e criar leis para definir o legislativo e o executivo, além de traçar um panorama real de como eram (são, no caso real) as leis brasileiras antes do apocalipse.

- Minha filha, eu sei que à primeira vista pode parecer um ótimo conceito, mas deixe-me explicar uma coisa, está bem? – Ivan deu a entender que iria demolir os argumentos dos dois vereadores. – No nosso país já tivemos a possibilidade da reeleição consecutiva ilimitada dos poderes Legislativo e Executivo, e isso nunca funcionou muito bem. Nossos governantes, muita vezes, preocupavam-se muito mais com a sua reeleição do que com o cumprimento dos seus deveres. Em alguns lugares, o processo eleitoral era um jogo de cartas marcadas, no qual já se sabia que iria vencer.
Ivan, olhando a filha com ternura, prosseguiu:
- Na prática, para alguns dos nossos governantes grande parte do trabalho consistia em tomar medidas meramente populistas e focadas em garantir votos necessários para assegurar a continuidade no cargo. Era o exercício do poder em função de mais poder. – Ele cruzou as mãos sobre a mesa e encarou Alessandro.
*Ilha dos Mortos (pág. 13).



Por último, e não menos importante, tenho de falar dos zumbis. Saindo mais uma vez do senso comum de que os zumbis são criaturas com andar trôpego e lento, Rodrigo introduziu novas criaturas que sofreram fortes mutações com o passar dos anos, trazendo para o universo da obra novos e poderosos zumbis. Eu os adorei, mas senti que eles poderiam ser um pouco melhor aproveitados nas batalhas contra os humanos. Eles surgiram para tocar o terror, mas na hora do “vamos ver” ficaram um pouco em segundo plano. Não vou me aprofundar tanto para não estragar a surpresa, mas fico me perguntando se o autor não jogou um pouco de Left 4 Dead (para saber mais sobre, clique aqui) em suas pesquisas e se sim, adoraria jogar um Multiplayer com ele um dia.
              Ilha dos Mortos foi pra mim o melhor livro da saga até então. Cheio de reviravoltas, mortes e ação, Rodrigo de Oliveira mais uma vez se superou ao criar uma história frenética que me prendeu, me fez soltar impropérios enquanto lia, me tirou o foco de outras atividades (comer, dormir, estudar, descansar para que, não é?) e me deixou extremamente empolgado com o desfecho, que promete ser épico já pelo título: A Era dos Mortos.
A obra é narrada em terceira pessoa, truncada com passagens no passado, contando o que os sobreviventes tiveram de fazer para conquistar Ilhabela e do presente, com um trecho ao final se passando no futuro. A narrativa é frenética, mesmo nas horas de calmaria do livro, Rodrigo consegue deixar o leitor louco para devorar as próximas páginas para saber o que vem em seguida, tornando a leitura extremamente ágil e dinâmica. A revisão está boa, com alguns erros, mas nada demais. Mais uma vez a Faro fez um ótimo trabalho na diagramação, com letras grandes, bem espaçadas e com folhas amareladas. O livro é dividido em vinte capítulos, com agradecimentos e nota do autor ao final. Há algumas ilustrações no início do livro. A capa é a mais sinistra de toda a saga, mostrando o terrível novo zumbi, um cargueiro e as ondas batendo atrás em uma referência a uma passagem importante do livro.



Rodrigo de Oliveira é Gestor em TI e fã de ficção científica, dos clássicos de terror, em especial da obra de George Romero. A ideia para esta série surgiu após um longo pesadelo tão real que, ao acordar, começou a escrever freneticamente, até concluir seu primeiro livro. Casado, com dois filhos, nasceu em São Paulo, e vive entre a capital e o Vale do Paraíba. Rodrigo é autor da Saga Crônica dos Mortos: O Vale dos Mortos, A Batalha dos Mortos, A Senhora dos Mortos, Ilha dos Mortos e o Spin Off Elevador 16.
Antes de terminar e recomendar essa obra deixo aqui registrada uma ideia, tanto para o autor, como para a editora: com tantos personagens, armas e cenários, seria interessante inserir um glossário com informações mínimas sobre eles e uma linha do tempo com os principais acontecimentos. Vou ainda além: depois do desfecho do livro “Era dos Mortos”, lançar uma “Enciclopédia dos Mortos”, com textos e ilustrações sobre a saga. Compraria sem pensar duas vezes.
Recomendo, como se o mundo fosse acabar amanhã, a leitura desse e dos outros livros da saga, principalmente se você é fã de zumbis. Rodrigo de Oliveira é com certeza o maior nome que temos no Brasil sobre o assunto. Recomendo também para quem quer se jogar no universo dos Zumbis, pois o autor criou um universo tão rico e fantástico que ouso dizer, está em pé de igualdade com publicações famosas como Resident Evil e The Walking Dead. E por se tratar de um cenário nacional, isso engrandece ainda mais o trabalho do autor.
Ilha dos Mortos é, em minha opinião, o trabalho mais primoroso do autor até o momento e que venha a “Era dos Mortos”.


Bibliografia de RODRIGO DE OLIVEIRA (ordem cronológica):

Livros:

  • O Vale dos Mortos –Editora Baraúna (2013); Relançado pela Faro Editorial (2014).
  • Elevador 16 – Faro Editorial (2013)
  • A Batalha dos Mortos – Faro Editorial (2014)
  • A Senhora dos Mortos – Faro Editorial (2015)
  • Ilha dos Mortos – Faro Editorial (2016)

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Comentários
5 Comentários

5 comentários:

  1. Luciano!
    Estou gostando demais das resenhas nesse mês do terror.
    Gosto muito do tema sobre zumbis, embora não tenha lido nenhum dos livros dessa série do autor, achei muito bom e criativo.
    “A simplicidade representa o último degrau da sabedoria.” (Arthur Schopenhauer)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de OUTUBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  2. Eu já ouvi falar sobre essa série, mas não imaginava que podia ser tão boa. Confesso que essa salto temporal também me incomodaria no começo, mas se tiver uma boa explicação, dá pra deixar passar. Os zumbis parecem criaturas mosntruosas e imagino como tudo deve ter sido desenvolvido. Vai para a minha lista de desejados correndo.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Você não vai se arrepender da leitura Eduarda!
      Beijos ;)

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    2. Você não vai se arrepender da leitura Eduarda!
      Beijos ;)

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  3. Venho tendo umas vontade loucas de pegar esses livros. Zumbis e histórias com eles me deixam meio viciada por todo drama e a coisa da sobrevivência. Como as pessoas lidam com um mundo assim, os novos desafios e etc. E esse parece ter uns zumbis um tanto diferentes e nem quero pensar no que eles podem fazer! xD
    A escrita dele é muito elogiada, então acho que a leitura pode ser muito boa. Queria ver como é essa série. E vai ter um livro que será adaptado né? Achei isso tão legal!

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