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04/03/2017

RESENHA – Sacanas do Asfalto (Robson Gundim)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: GUNDIM, Robson. Sacanas do Asfalto. 1ª edição. Rio de Janeiro, Editora Pendragon, 2016. 268 páginas.
Gênero: Young Adult;
Temas: Sexo, drogas, rock, cinema;
Categoria: Literatura Nacional;
Ano de lançamento: 2016











“De repente, o baque: ele estendeu a mão direita e apontou a 38, disparando contra o para-brisa do veículo, que chacoalhou.
As mãos do motorista afrouxaram; a bala entrou na parte superior da cabeça, por cima do olho esquerdo, em linha oblíqua ao ouvido direito, e varou no encosto do banco.
Vana, Daisy e André foram banhados por um líquido vermelho, seguido por pedaços de bolinhas macias, semelhantes a almôndegas cruas.
Eram o sangue e a carne de Júnior.”
*Sacanas do Asfalto (pág. 83).

  Três jovens estudantes de cinema (Rob, Arthur e Stefani) viajam para a Bahia com o intuito de curtir as tão merecidas férias no melhor festival de rock da ilha de Vera Cruz. Movidos por um forte sentimento de companheirismo e amizade, eles tomam a estrada, chamando atenção de todos por onde passam. Chegando ao destino e reencontrando antigos amigos, as noitadas pareciam estar garantidas. Porém, uma gangue mal encarada de motoqueiros resolve acabar com a festa e inicia-se uma corrida contra o tempo onde inimigos espreitam e aliados improváveis surgem.
              Eu ainda não tinha lido nada do autor. Eu já o conhecia pela internet desde 2013 pela internet e tivemos a chance de nos encontrarmos para bater um papo na Bienal do Livro de São Paulo do ano passado. Sacanas do Asfalto é sua primeira obra que tive a oportunidade de ler e como o próprio autor deixa em evidência no livro ela é uma homenagem ao diretor Quentin Tarantino. E quem já viu um filme do diretor sabe que rola sangue... muito sangue.
              E é exatamente isso que o autor entrega em sua obra. Depois de um começo tímido, as tripas começam a rolar pelo chão e a ação toma conta do ritmo da narrativa, com os personagens se metendo com gente da pesada para escapar com vida. Depois que Rob e seus amigos batem de frente com a gangue, as coisas vão de mal a pior e o instinto de sobrevivência do grupo urge em meio a uma narrativa que envolve tráfico de drogas, influência de políticos e luta por justiça.
            Na obra há muitas referências à cultura pop. Como estudantes de cinema, os personagens estão sempre destacando algum filme. No caminho para a Bahia o trio deixa tocar no som do carro muitas músicas, tanto atuais quanto clássicas. Mas talvez a referência mais curiosa seja a que o autor se “divulga” dentro de sua própria história. Um dos protagonistas é um escritor que já havia publicado dois livros e um deles se chamava Uma odisseia além do oceano e se isso não é o bastante, o nome dele é Rob... de Robson.

- Sim, André, sou escritor.
- E você vive disso?
- Bem. Não sou nenhum Best-Seller renomado, se é o que você pensa... lancei o meu primeiro livro há três anos e, apesar de não viver somente da literatura, encaro a minha escrita como uma profissão.
- Isso é demais! – elogiou Júnior.
- Como se chama o livro? – quis saber o magnata.
- Uma odisseia além do oceano.
* Sacanas do Asfalto (pág. 52)

Os personagens têm características bem definidas dentro da obra, mas acho que faltou dar um pouco mais de profundidade emocional, principalmente para os três principais. A vontade de sobreviver foi o ponto-chave que os movia para frente, mas isso meio que nublou o resto. Senti que eles ficaram um pouco mecânicos demais. Do tipo "Ah, ele morreu, mas precisamos seguir". É quase como se eles já estivessem preparados para as adversidades. Tanto que logo no início, os personagens vão para um bar armados. Quem vai para um lugar armado já espera problemas. E em hora nenhuma foi explicado porque Rob, por exemplo, anda com uma espada curta nipônica no porta-malas. Ele já teve que se defender antes? Isso não chega a ser um problema, mas bate aquela curiosidade de saber porque o personagem age dessa maneira.
Pra mim faltou só um pouco mais de foco nos dilemas morais e baques emocionais.  Não sei, na minha visão ficou um pouco estranho, ainda mais para pessoas que, até onde sei, nunca tinham visto alguém morrer, ainda mais pessoas próximas. Essas coisas deixam marcas, cicatrizes difíceis de absorver de um dia para o outro. E por mais que eles estivessem abalados, isso para mim não ficou tão evidente na narrativa.
Também devo ressaltar a participação de certos personagens secundários que na minha opinião tiveram suas motivações exploradas com aprofundamento maior que os protagonistas, principalmente o de Samuel, que faz o papel de anti-herói na trama. Esse sim teve motivações fortes para ir até o fim e sendo o personagem responsável pela maior reviravolta do livro, eu tiro o chapéu para ele.
E por falar em personagens secundários senti falta de uma pincelada maior nas Furiosas. Quem elas são? Como surgiram? O que fizeram? Por que "se aposentaram"? Por onde andam? O que fazem agora que não estão caçando bandidos? Sei que talvez, dependendo da abordagem, responder tudo isso poderia quebrar a sintonia que o autor criou dentro do livro. Quem sabe em um spin-off? As Aventuras das Furiosas, A balada das Furiosas, As Bastardas Inglórias, Um Drink na Bahia. Fica aí a dica.
Crédito: Academia Literária DF
E por fim, tudo se resolveu quase que como um passe de mágica. OK, eles tiveram ajuda para limpar a sujeira que deixaram. Mas escapar sem uma investigação? Gente importante bateu as botas. Mesmo que tivessem influência para tal, ainda assim seria muito difícil escapar de uma investigação de uma Corregedoria ou Ministério Público.
Conversando com o revisor das nossas resenhas (sim, temos um revisor hehe) sobre o assunto, ele comentou comigo sobre o recurso do Deus ex machina. Mas o que é isso? Vocês perguntam. O tio Google, que tem as respostas para quase tudo no universo responde: “A expressão é usada hoje para indicar um desenvolvimento de uma história que não leva em consideração sua lógica interna e é tão inverossímil que permite ao autor terminá-la com uma situação improvável, porém mais palatável”. E foi exatamente isso que senti com o final da obra. Um final agradável, um desfecho feliz para os heróis da trama.
De um modo geral Sacanas do Asfalto é um livro ótimo. Robson Gundim é um autor que tem muito potencial para se destacar no disputado mercado editorial nacional. As cenas de ação são um prato cheio dentro da narrativa, muito bem escritas, assim como as descrições de mortes. Uma última coisa que vale destacar é que o autor teve muito esmero em colocar gírias e jargões atuais, o que deixa o leitor (ao menos os mais jovens) ainda mais ligado e familiarizado com a escrita. A obra é toda permeada pelos “exageros” que fizeram de Tarantino um diretor famoso e tem um enorme potencial para ser adaptado para os cinemas, já que a história se passa em território nacional. 
A história é narrada em terceira pessoa e embora siga a jornada dos três personagens principais, abre espaço para acompanhar a visão de personagens secundários, principalmente os integrantes da gangue de motoqueiros. A narrativa é bem acelerada, com muitas cenas de ação desenfreada e diálogos rápidos, fazendo com que devoremos as páginas com mais velocidade. Os personagens vão sendo apresentados à medida que a história avança, bem como algumas motivações que os levaram até aquele ponto. O autor usa de uma narrativa truncada justamente para poder contar a história de vários ângulos, usando-se de flashbacks como ferramenta para contar certos acontecimentos.
         O autor é conhecido por suas ilustrações e é claro que elas não poderiam faltar em Sacanas do Asfalto. Há algumas ao longo do livro, mostrando alguns personagens e uma em especial chamou muito a atenção por ilustrar um trecho bem sangrento do livro (imagem abaixo) e devo comentar o quão sensacionais são seus desenhos. A revisão está boa, poucos erros aparentes. A diagramação está ótima, com um bom espaçamento e folhas amareladas. No começo do livro temos os agradecimentos e uma pequena prévia da nova obra do autor: Vanishing Point. Por fim, cada capítulo conta com uma numeração e um título.

Reprodução de uma das ilustrações da obra. Crédito: Robson Gundim
Robson Gundim é natural de Gandu, interior da Bahia. Reside em Vitória da Conquista. É estudante universitário de cinema, desenhista e apaixonado por livros. Autor da série de livros Entre o céu e o mar, lançados em 2012, 2013 e 2014, também participou das antologias O último dia antes do fim do mundo, The King e Amores Impossíveis.
Começo recomendando a obra aos fãs de Tarantino. Se você busca por uma narrativa cheia de ação e muito sangue para todos os lados, aqui está uma ótima pedida. Por esse mesmo motivo, e por fazer menção a sexo e drogas, não recomendo essa obra para qualquer um. E por fim, para os habitantes da Bahia. Devemos valorizar quando um autor escolhe situar sua obra em território nacional.
Sacanas do Asfalto é uma paródia de como seria um filme do Tarantino ambientado no Brasil. Robson Gundim fez uma bela homenagem ao diretor com sua narrativa ágil, dinâmica e cheia de sangue... muito sangue!

Bibliografia de Robson Gundim (ordem cronológica):

Livros:

  • Entre o céu e o mar - Nos montes da inocência (livro 1) - Editora Modo (2013);
  • Entre o céu e o mar - Nos montes da inocência (livro 2) - Editora Modo (2014);
  • Sacanas do Asfalto - Editora Pendragon (2016)

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Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. Que resenha incrível! *-* Só devo agradecer a Academia por tamanha atenção e dedicação para com a obra. Agradeço também pela crítica e pelas dicas. De modo geral, estou muito contente por ter gostado do livro, com certeza o primeiro de muitos a ser resenhado no blog! Sacanas do Asfalto é um livro assumidamente exagerado, com passagens loucas à lá Tarantino e a inúmeros filmes e livros que seguem o estilo Exploitation. Caso haja curiosidade nos leitores, eu fiz uma singela matéria sobre as influências desse subgênero, em meu blog pessoal: http://robson-gundim.blogspot.com.br/2016/09/sacanas-do-asfalto-referencias.html

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    1. Fico feliz que tenha curtido a resenha, Robson! Depois de ler, ainda demorei um pouco para escrever, pois queria trazer um texto mais consistente sobre a obra que você gentilmente me cedeu. E espero que as pessoas que vejam essa resenha e o seu post se interessem mais e mais pelo seu trabalho.
      Grande abraço!

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  2. Oi.
    Que resenha interessante, eu não curto muito esse tipo de livro, ama você conseguiu despertar minha curiosidade, adoro quando os personagens são bem construídos principalmente em suas características, eu também não sou muito fã de livros ilustrados, mas fiquei surpresa com a qualidade do desenho, uma pena que achou que faltou foco nos problemas mas infelizmente nem tudo dar para ser perfeito né, mas enfim no geral a obra me chamou bastante a atenção.
    Bjs.

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    1. Oi Marlene! Da uma chance, vai que você começa a curtir esse tipo de obra ;)
      Beijos!

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  3. A edição parece estar um capricho, ainda mais com ilustrações. ADORO!
    Estou gostando bastante de ver divulgações de obras e autores nacionais pela blogosfera!
    O livro em questão parece ser uma leitura ótima, com uma história muito bem desenvolvida e os personagens também, tanto principais, como secundários.
    Sua resenha me deixou curiosa e vou procurar saber mais sobre obra/autor, com certeza.
    Beijos,
    Caroline Garcia

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    1. A edição está um arraso Caroline! Robson é muito bom nos desenhos. Ficamos felizes que esteja curtindo nacionais. Você verá muito disso por aqui.
      Beijos ;)

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  4. Luciano!
    Achei chique ter um revisor para as resenhas, o must...
    Gosto do autor, já tive oportunidade de ler Entre o céu e o mar, muito bem escrita e estou lendo enquanto eles não vem que é terror.
    Bom ver um escritor diversificar a forma de escrita nos livros, nos proporcionando diversos estilos, além de suas ilustrações fabulosas.
    Bom final de semana!!
    “Se sabemos exatamente o que vamos fazer, para quê fazê-lo?” (Pablo Picasso)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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    1. Rudy, querida! Obrigado pelo apoio de sempre! <3 Um cheiro!

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    2. Poxa, que legal! Ainda lerei as outras obras dele! Tem resenhas no seu blog? Vou procurar :)
      Beijos!

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    3. Tem sim resenha dele lá no blog.
      http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/2014/07/resenha-50-entre-o-ceu-e-o-mar-nos.html
      E logo teremos a outra...
      cheirinhos
      Rudy

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  5. Olá!
    Nossa, amei a indicação do livro e a resenha!
    Nunca li um livro do tipo, mas sou apaixonada pelas obras do Tarantino, e por ser uma obra inspirada em seus filmes, o livro me interessou muito.
    E a resenha deu aquela ajudinha pra aumentar minha curiosidade!
    Livro acrescentado à minha lista de leitura com toda certeza!
    Beijos!

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    1. Oi Karine! Fico feliz que tenha curtido meu texto. Depois me diga o que achou do livro ;)
      Beijos!

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  6. Oi Luciano,
    Gosto de livros com muita ação, com bastante cenas que nos prendam e que tenha uma narrativa fluida e rápida. A premissa do livro é muito boa, começando pelo nome que me fez imaginar milhares de tramas mas nenhuma delas chegou perto da proposta da obra. Quando um autor propõe algo tão violento e com muitas mortes, quero sentir uma profundidade maior durante a leitura, pois não dá para criar personagens que estão lutando para sobreviver e fazer deles umas máquinas agindo no automático, tem que ter momentos de medo e vulnerabilidade para deixar a história mais real e humana. Mas ao mesmo tempo me vejo pensando que se é algo no estilo Tarantino, algumas coisas da para relevar, pois condizem com a trama e curtir a leitura. Sua resenha ficou ótima e deu para ter uma boa ideia sobre o livro!!

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    1. Obrigado pelas palavras, Gislaine! Quando colocamos pela ótica que o livro é uma homenagem aos filmes do Tarantino, fica mais crível não ter tanto emocional na narrativa. Boa analise da resenha, obrigado!

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