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25/10/2016

RESENHA - Amor Vampiro (Adriano Siqueira et al)

Giz Editorial
Ficha técnica:
Referência bibliográfica: SIQUEIRA, Adriano et al. Amor Vampiro. 1ª edição, 1ª reimpressão. São Paulo, Giz Editorial, 2009. 176 páginas.
Gênero: Terror;
Temas: Vampiros;
Categoria: Literatura Nacional;
Ano de lançamento: 2008.











“Nesses atos amorosos, assaltava-me a tentação de beber mais sangue do que a prudência aconselharia. Como seria drenar as forças de meu amante, absorver toda sua energia, sentir o momento em que a vida findasse? A delícia da última fagulha se apagando, essa tentação tão irresistível que transforma os vampiros em assassinos, embora não precisemos matar nossas presas para saciar nossa fome. Mas como não ceder à promessa da mais sublime das sensações, o melhor dos orgasmos? O medo por meu belo parceiro era constante, e assim impus como norma jamais visitá-lo sem antes fartar-me do sangue de mendigos, viajantes e outros andarilhos noturnos que surpreendia pelas estradas. Era a morte deles que eu degustava, fantasiando por vezes ser a de meu amado.
Todas as noites, portanto, contentava-me com o menor dos goles do sangue dele, e sonhava com a chance de um dia poder me embriagar com ele, tomá-lo à larga, sem limites, sem o rígido controle que impunha a mim mesma.”
*Amor Vampiro (pág. 58).


                Vampiros.
                Esses temidos seres da noite são descritos em muitas histórias como seres sedutores, sensuais, eróticos. Predicados muitas vezes usados em seus eternos jogos e suas empreitadas em busca de seu tão singular alimento. Mas seriam tão mortais criaturas capazes de amar? Nesta antologia de contos, vários autores nacionais, consagrados no tema “Vampiros”, oferecem ao leitor sua visão do Amor Vampiro.
                E são diferentes as versões desse sentimento encontradas na obra. Há o amor ingênuo e sincero; há o desejo lascivo e carnal; há o amor maternal e paternal; há o sentimento de posse e de subjugação; há até o medo da solidão, pura e simplesmente. Cada autor usou de uma estratégia diferente para elaborar um (ou mais de um) conto que expressasse não apenas suas ideias acerca da relação entre um ser considerado maligno e um sentimento tão sublime, mas também suas próprias marcas pessoais como escritores tarimbados no tema “vampiro”. São 07 escritores e 10 contos no total.

Adriano Siqueira
O outro lado do espelho
         Um conto curto sobre a relação entre um vampiro e uma bruxa poderosa.

O Dia dos Vampiros
         Um vampiro antigo e poderoso, acidentalmente viaja no tempo e troca de lugar com um humano moderno trajando uma fantasia de vampiro. Na atualidade, a esposa do azarado homem o esperava para uma festa em comemoração ao Dia do Vampiro. E o antigo lorde, absorvendo todas as novidades da era moderna, começa a apreciar imensamente o tal Dia do Vampiro.

A grande chance
         Um amor platônico de um adolescente por uma das garotas mais belas e mais populares da escola. Cacá aproveita a festa na casa do amigo para enfim se declarar à Melissa. Mas ela está acompanhada por um cara estranho e todos na festa agem de maneira muito esquisita. Inclusive Melissa...

André Vianco
A canção de Maria
         Margens do Rio Jordão. Muito tempo atrás. Uma mulher grávida e sozinha bate à porta do lenhador Ezra durante uma tempestade. Embora a prudência aconselhasse fazer o contrário, o viúvo solitário lhe concede abrigo. Naquela mesma noite, a jovem Maria dá à luz uma menina, de nome Miriam.  Dias depois, a despeito da generosidade sem julgamentos do velho lenhador, a jovem mãe, atormentada por seus atos precedentes, comete o maior dos pecados: tira a própria vida. Ezra então se vê às voltas com um bebê recém-nascido, por quem começa a nutrir um grande amor paternal. Mas não será somente com as más línguas e os olhares curiosos que o lenhador terá que lidar. Por noites seguidas a jovem e atormentada mãe voltava do túmulo para sugar aos poucos a vida da pequena criança e o prenuncio de sua visita era a canção de ninar que entoava.

Martha Argel
A flor do mal
Florença. Época de Lourenço de Médicis. Giuliano Sacchetti tenta em vão decapitar Francesca Fornasari, uma jovem rica que vivia só e quase reclusa na Villa Il Rossígnolo. Uma vampira que meses antes havia matado seu irmão Domenico. Frustrado em sua tentativa de vingança e tornado cativo pela poderosa vampira, o jovem acreditou que seria morto pelo monstro. Mas a vampira, a muito sozinha, teve seus desejos mais lascivos despertados pelo corpo bem feito do menino-quase-homem. E nos meses que se seguiram, ela o sobrepujou com sua sensualidade ímpar e, a despeito de seu desejo de vingança, o tornou escravo de seus próprios desejos sexuais.

J. Modesto
Amante notívago
         Inquieta em seus aposentos, a condessa aguarda por seu amante.  Quando ele finalmente chega, o quarto vira cenário de um tórrido encontro.  Lá fora, uma tempestade se forma e se avulta. Longe dali, o conde enfrenta a tempestade e os perigos da noite, em desabalado trote, afim de chegar ao seu castelo a tempo de salvar sua esposa das garras de seu mais terrível inimigo: um vampiro.

O anjo e a vampira
         Uma avó narra a seu neto a história do amor proibido entre um anjo e uma vampira.

Nelson Magrini
Isabella
         Acostumada às caçadas noturnas e à solidão, Isabella é surpreendida por uma armadilha sonora e um bilhete estranho: “Eu te amo”.  Outra noite de caçada, novamente o som, mas ela está preparada e, desta vez, encontra o ousado remetente. Para sua surpresa e afronta, ele afirma novamente que a ama e que ela não era uma criatura sobrenatural como acreditava ser. Nas noites seguintes, o estranho humano tentará convencer a antiga vampira que ela era tão humana quanto ele, apenas um pouco diferente. Usando argumentos científicos, ele tentará provar seu ponto de vista e a vampira, sempre solitária, se sentirá tentada a acreditar nele.

Regina Drummond
A velha, o jovem e o casarão
         Em meio aos muitos edifícios que aos poucos foram substituindo as casas do antigo bairro, um palacete centenário ainda resiste. Aparentemente abandonado, ainda uma pessoa vem ali todos os dias, entrando antes do amanhecer e saindo ao anoitecer: uma velha carcomida pelo tempo, sempre vestida de negro. Longe dali, um adolescente briga com o pai por causa da madrasta, sai de casa no meio da noite com apenas uma mochila e, depois de muito vagar, encontra o velho palacete e vê a solitária senhora entrar por uma fenda no muro. O lugar exerce um estranho fascínio sobre o garoto e ele procura abrigo ali. Mas o palacete guarda muitos e obscuros segredos.

Giulia Moon
Dragões tatuados
         Samuel trabalha como olheiro para um Instituto a muitos anos. Sua função: observar e catalogar os vampiros de São Paulo. Ao acordar no quarto do decadente hotel onde vive, sem se lembrar do que aconteceu nas últimas 24 horas e com a inconfundível marca de uma mordida de vampiro no pescoço, ele sabe que alguma coisa deu errado. Juntando os cacos de memória que aos poucos vão retornando com as pistas que encontra, ele acaba no encalço de uma sedutora vampira oriental de nome Kaori.

Com autores diferentes, é de se esperar estilos narrativos diferentes. Alguns contos se sobressaem a outros. Merecem destaque os contos “A canção de Maria”, de André Vianco; “A flor do mal”, de Martha Argel; e “Isabella”, de Nelson Magrini. Vianco apresenta uma narrativa muito bem construída, ambientada às margens do Rio Jordão da época de Jesus Cristo (que no conto é citado usando a forma hebraica de seu nome, Yeshua), onde o foco da história não é a relação entre uma fêmea e um macho e sim de uma mãe com sua filha, e também de um pai postiço. Além da escolha curiosa do tipo de amor retratado, Vianco ganha pontos por mostrar um tipo de “vampiro” bem diferente dos demais apresentados na obra, dos que ele mesmo está acostumado a retratar e dos que os leitores estão acostumados a ver. O segundo destaque vai para a história criada por Martha Argel. Nessa história, a pegada é mais semelhante às demais histórias retratadas no livro (um relacionamento lascivo entre uma vampira e um humano, subjugado pela sensualidade dela), mas a habilidade da autora em construir aos poucos sua narrativa e mostrar as cenas picantes sem pesar a mão na obscenidade merece elogios, isso sem contar a clareza com que a autora expõe os sentimentos da vampira protagonista. Por fim, a visão muito interessante apresentada por Nelson Magrini. A ideia do autor em usar seus conhecimentos (ele é engenheiro mecânico e um estudioso de Física com ênfase em Mecânica Quântica e Cosmologia) para explicar de forma cientifica e não sobrenatural a condição vampírica é estupenda!
Infelizmente, há que se comentar também as histórias não tão bem-sucedidas. Os três contos de autoria de Adriano Siqueira (os três primeiros do livro) deixam muito a desejar. São curtos demais, pouco elaborados (não o mote da história, mas sim o desenvolvimento) e com uma técnica narrativa ainda muito crua e sem traços do refinamento adquiridos por um autor experiente.
                Amor Vampiro não é um livro de terror puro e simples. É até bem suave nesse quesito. Não tem grandes sustos ou cenas chocantes. Não vai deixar o leitor apreensivo ou com receio do escuro. Não. O objetivo de suas histórias não é causar medo e sim apresentar as variadas facetas de um dos monstros mais temidos e amados do imaginário popular. Alguns dos seus contos possuem até uma forte tendência do gênero Hot, tendo narrativas e descrições bem picantes, usando e abusando da fama sensual e erótica dos vampiros.
                Quanto aos aspectos gráficos da obra, há algumas coisas a comentar. A capa, apesar de bonita, utiliza-se de um recurso muito presente em obras do estilo Hot: uma foto retratando um casal. Nada muito inovador ou digno de elogios. Por dentro, os contos são separados por autor, tendo cada um deles uma breve biografia, uma foto e uma reprodução de sua assinatura. Em preto e branco, essas páginas biográficas são bem interessantes visualmente e muito apropriadas para situar o leitor e fazê-lo conhecer um pouco mais dos autores que emprestaram seu talento para compor essa obra. Por fim, é necessário acrescentar que a revisão não teve o cuidado que merecia. São fáceis de encontrar erros de pontuação e de digitação, por exemplo. Umas das coisas que mais surpreende por ter passado despercebido é a troca do nome da mãe (Maria) e da filha (Miriam) em um trecho do conto de André Vianco, “ A canção de Maria”.
                Pela quantidade de autores que colaboram com essa obra, não irei incluir nessa resenha uma breve biografia de cada um ou a lista de suas obras, como costumeiramente fazemos aqui na Academia. Mas abaixo, na galeria de fotos dos autores, os nomes de cada autor é um link para seus perfis no Skoob. Se quiser conhecer mais sobre eles, basta clicar.
                Amor Vampiro é um livro inusitado e intrigante sobre um tema bastante polêmico: os vampiros podem ou não amar? Para os admiradores de uma das mais temidas e misteriosas criaturas da noite, essa antologia é leitura obrigatória. Para quem aprecia uma história mais picante, encontrará nessa obra algumas boas história para se deliciar. Aqueles que gostam de histórias inusitadas irão se surpreender com algumas dessas narrativas brilhantes. 

Adriano Siqueira
André Vianco
Giulia Moon
J. Modesto

Martha Argel
Nelson Magrini
Regina Drummond


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Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Helkem!
    Vampiros são meus seres fantásticos favoritos depois dos anjos, é claro e poder ver reunido uma coletânea de contos, baseados no amor desses seres, seja de que tipo for, deve ser fabuloso.
    Estou curiosa pela leitura.
    "O conhecimento chega, mas a sabedoria demora."(Alfred Tennyson)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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