RESENHA - A Era dos Mortos (RODRIGO DE OLIVEIRA)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: DE OLIVEIRA, Rodrigo. A Era dos Mortos - Parte 1. 1ª edição. São Paulo, Faro editorial, 2018. 205 páginas.
Gênero: Terror
Temas: Apocalipse Zumbi, Mortes, Traição.
Categoria: Literatura Nacional
Ano de lançamento: 2018
Série Crônicas dos Mortos:  O Vale dos Mortos (Livro 1); Batalha dos Mortos (Livro 2); Senhora dos Mortos (Livro 3); Ilha dos Mortos (Livro 4); A Era dos Mortos; Elevador 16 (Spin Off).




“Ela contornava uma longa curva da estrada de asfalto corroído pelas intempéries, cercada por mata selvagem de ambos os lados, quando arriscou uma breve olhada para trás. E não gostou do que viu: uma imensa massa de seres a seguia, totalmente irracional, trôpega, furiosa, apenas algumas dezenas de metros atrás.
Tratava-se de uma minúscula fração da praga que assolava a Terra havia tempos. Um bando de seres deformados, grotescos, bizarros e selvagens. Criaturas sem sentimentos ou raciocínio, desprovidas de qualquer outro objetivo na vida que não fosse matar e devorar seres vivos – sobretudo os humanos.
Sarah fugia de uma horda de zumbis.”
*A Era dos Mortos (pág. 12).

               A Senhora dos Mortos finalmente foi vencida.
Após um intenso combate que custou a vida de muita gente, os habitantes de Ilhabela mal tiveram tempo de enterrar seus mortos quando um novo inimigo oculto e ardiloso surgiu no interior do que todos julgavam ser o lugar mais seguro do planeta. Infelizmente estavam enganados.
Muitos anos se passaram desde que Uriel aplicara um golpe covarde que o fez assumir o controle da maior colônia de sobreviventes do apocalipse zumbi na Terra. Agindo como um verdadeiro tirano, Uriel arquitetou um intrincado plano que culminou na morte de quase toda a linhagem de Ivan e seus aliados mais próximos. Do grupo original, apenas Isabel, Mariana e alguns poucos escaparam de Ilhabela e o reinado de terror de Uriel e seu filho Otávio começou.
Os anos se passaram e a vida dos sobreviventes sob o comando de Uriel ficou cada dia mais penosa. Qualquer foco de resistência era rapidamente esmagado. Otávio passou vários anos de sua vida dedicado a fazer pesquisas médicas e depois de muita tentativa conseguiu um meio de controlar os berserkes, transformando-os em cães de caça. Como se não fosse o suficiente, por meio de suas experiências ele produziu uma coisa muito pior, algo que poderia até mesmo rivalizar com a Senhora dos Mortos…
Então um fio de esperança surge quando duas crianças chamam a atenção de Isabel. Decidida a prepará-los desde cedo para batalhas sangrentas, com a esperança de que eles acabem com a era de medo.
Décadas haviam se passado desde a chegada de Absinto 

               A Era dos Mortos - Parte 1 é o quinto livro da série As Crônicas dos Mortos (sexto se contarmos o spin off), escrita pelo autor Rodrigo de Oliveira. A obra começa introduzindo uma garotinha de apenas 10 anos chamada Sarah. Ela, que já nasceu no mundo dos zumbis, aprendeu desde muito pequena a sobreviver. Mesmo sendo uma criança, a garota possuía sangue frio e coragem incomuns para aquela idade, em especial na presença dos mortos. E também possuía uma pontaria de fazer inveja até mesmo nos Franco-Atiradores mais bem treinados. Na sequência somos apresentados a um garoto de mesma idade chamado Fernando que tinha as mesmas características ferozes da garota, sendo um matador nato.
             Quem leu “Ilha dos Mortos” sabe o quanto essas duas crianças são importantes para o desenrolar dos acontecimentos posteriores. Seguindo, o narrador conta uma breve história para lembrar os leitores como o mundo havia ficado daquele jeito, desde o dia em que o Planeta Absinto passou pela Terra até os dias atuais, no reinado de terror de Uriel e seu filho Otávio, que não só tomaram o controle de Ilhabela, mas também a maioria dos redutos de sobreviventes espalhados pelo Brasil.   
               Depois de terminar de ler “A Ilha dos Mortos” fiquei intrigado em como a história iria se desenrolar a partir da revelação de Isabel de que Sarah traria destruição ao mundo. O que seria dos personagens sobreviventes? Como uma criança poderia desempenhar um papel tão importante? Eu já sabia o significado por trás do nascimento de Sarah e Fernando, mas o que eu queria saber mesmo era como eles poderiam desempenhar seus papéis naquele jogo. Bom, em pouco tempo deu para notar o potencial dos jovens em matar zumbis (e humanos) sem muito esforço. E olha que eles nem chegaram a adolescência.

Ao ver o que fizera, Sarah ergueu o fuzil e gritou de felicidade. Sílvio, Nívea e Fernando se aproximaram do alvo, incrédulos.
- Querido, você já tinha visto algo parecido com isso? – perguntou Nívea, conferindo o tamanho do estrago.
- Não mesmo. A pontaria dela, na falta de uma palavra melhor, é perfeita. – Sílvio balançou a cabeça, admirado.
Sarah, aos oito anos de idade, era a melhor franco-atiradora que ele conhecera em toda sua vida. Sem nunca ter sido treinada, a menina era uma assassina por natureza. Eles perceberam que precisavam instruir aquelas crianças o mais rápido possível.

Partindo para o time de vilões, temos Uriel, comandando tudo com mão de ferro; e Otávio, que fazia muitas pesquisas sobre os zumbis. Engraçado que no final do último livro, o autor havia prometido um Otávio perverso e o que eu vi no início foi um homem desprovido de coragem e pulso firme, quase um filhinho mimado, que fica chateado e tristonho quando não tem o que quer. E para variar, o autor me surpreendeu mais uma vez ao colocar em prática o plano do filho de Uriel, este que se mostrou um monstro muito pior que o pai, embora ele ainda fosse um homem fraco, se acovardando por trás de seus guarda-costas e seu poder de “Rei da porra toda”.

De todos os lados chegavam notícias de grupos que tinham sido dizimados por terem tentado enfrentar o poder do filho de Uriel. Ítalo não saberia dizer se todas as histórias eram reais – era muito difícil para ele acreditar que alguém fosse capaz de tamanhas atrocidades –, mas se fossem, eles teriam um imenso problema a enfrentar. 
*A Era dos Mortos (pág. 62).

Agora vamos falar dos Berserks. Lembram que comentei na resenha anterior que eles poderiam ter sido melhor trabalhados? Pois bem, aqui eles foram, para a nossa alegria (e pesadelo dos personagens). As criaturas são uma mutação dos zumbis vistos no livro 4. Jezebel havia dado um jeito de torná-los ainda piores e esses foram chamados de Aberrações. E aqui, Otávio conseguiu o feito de deixá-los ainda mais mortais (eu particularmente não achava isso possível) por meio dos seus anos de estudo acerca da anatomia zumbi. Se os monstrinhos de Jezebel já eram aterrorizantes, esperem só até ver os de Otávio. E como se não fosse o suficiente, Otávio ainda criou sua própria versão da Senhora dos Mortos. Sim, exatamente isso que você leu. Otávio detinha o poder absoluto nas mãos e nada na Terra parecia ameaçá-lo… com exceção de Isabel.

As monstruosidades avançaram contra os combatentes, alucinadas de selvageria. Uma delas deu um salto de mais de dez metros de distância e caiu sobre um dos soldados, esmagando-o contra o solo. Em seguida desferiu um murro na testa do homem, e sua cabeça explodiu como uma fruta podre. Pedaços de crânio e massa encefálica se espalharam na via.
*Era dos Mortos (pág. 64).

Se no livro 4 tivemos Ivan como grande destaque por sua mudança de guerreiro para sábio, nessa obra o autor dá um grande destaque para Isabel, que é provavelmente a última remanescente da primeira geração que testemunhou a passagem de Absinto. Agora uma anciã de mais de 100 anos, Isabel serve como conselheira da pequena comunidade em que vive, escondida do radar de Uriel e Otávio, que fizeram dela a criminosa mais procurada do Brasil, dando a ela a alcunha de "Bruxa".

Considerada uma arma viva, estando mais poderosa por conta das experiências adquiridas ao longo de décadas, Isabel ainda demonstra o incrível dom da premonição. E se tem algo que define essa obra é a palavra destino. Isabel, como uma verdadeira profeta, ditava os rumos de seus aliados com base no que conseguia prever. E o que se mostrava uma grande vantagem em relação a seus inimigos também tinha seus pontos fracos. Primeiro que ela não tinha controle sobre as previsões. Elas vinham embaralhadas e ela tentava encaixar as peças. E segundo, que por mais que ela tentasse, não conseguia mudar o resultado daquilo que previa. Nada do que ela fazia era capaz de mudar o que havia visto, fato este que culminou na morte de um personagem muito querido na série (me deixando na bad mais uma vez).

- Mas que merda é essa? O que essa maluca quer conosco? – o oficial vociferou.
- Não faço a menor ideia! – O soldado que realizara o disparo chacoalhou a cabeça. – Ela lembra aquelas feiticeiras das histórias infantis.
Ao ouvir aquela frase, o oficial arregalou os olhos e se sobressaltou. Naquele momento, teve certeza de quem se tratava. Quando a idosa estava a não mais de trinta metros, ele gritou:
- Mas que inferno, ela é a Bruxa! Atirem! Matem a desgraçada imediatamente.
                       *Era dos Mortos (pág. 72).

E por falar em morte de personagem, mais uma vez Rodrigo mostra ser um insano homicida que não tem qualquer amor pelos seus próprios personagens. Era uma morte mais horripilante que a outra, sendo Otávio o autor de atrocidades muito mais perversas que qualquer ataque de zumbis. Sério, quando você pensa que as mortes não podem ficar piores, Rodrigo aparece com umas paradas ainda mais loucas. Teve duas que me marcaram profundamente: um que foi lobotomizado (sim, isso mesmo que você leu) e outro que teve a cabeça arrancada por uma motosserra. E ainda teve uma terceira que encerrou o livro, mas essa foi tão pesada que nem vou comentar sobre ela aqui. Quem leu, sabe. Nem preciso dizer que a leitura desse livro não é para quem tem coração fraco, né?

Alerta de MEGA Spoiler - Clique para ver
           Como se já não bastasse as Aberrações “obedientes” de Otávio, os sobreviventes descobrem um perigo tão ou mais terrível quanto: zumbis inteligentes. Sim! Zumbis inteligentes. Dá para acreditar? O grupo formado por Sílvio, Nívea, Sarah e Fernando estavam passando por Brasília (Aeeee, minha terra!) e se depararam com algo que todos pensavam ser impossível: uma comunidade de aberrações. Não vou me alongar porque isso por si só é um super spoiler, apenas leiam!

De repente, outra aberração surgiu caminhando com algo na mão. Nívea estreitou a vista tentando identificar o objeto que a criatura portava. Parecia uma longa haste de metal com uma ponta aguda, talvez parte de um portão residencial, muito comum antes de o apocalipse zumbi começar.
- Aquela coisa está carregando um pedaço de ferro? –  Nívea sussurrou. –  Desde quando zumbis carregam algo? Eles não têm coordenação motora!  
*Era dos Mortos (pág. 159).




Só duas coisas me incomodaram na leitura: o uso excessivo da expressão “engoliu em seco” e uso constante de superlativo. Exemplo: afiadíssima e perigosíssimo. Sei que essas palavras deixam um ar de que a coisa é pior do que se imagina, mas existem outras maneiras de dizer isso sem precisar usar tanto esse recurso. Fora isso, gente, que livro maravilhoso. Não é só o apocalipse. O autor traz muitas questões morais na sua narrativa. Um recorte de como seria o mundo sem leis. Veladamente (algumas vezes abertamente) fazendo críticas a nossa sociedade, em especial à política brasileira. Nem só de zumbis vive o universo do Rodrigo. Cada livro te leva a uma experiência nova.
               Essa obra para mim foi a mais perturbadora da saga até então. Como dito na contra capa, “E os humanos descobrem que a pior desgraça não são os zumbis”, a parte mais feia e perversa da raça humana se mostrou nas linhas de A Era dos Mortos. Mais do que nunca, aqueles com sede de poder mostraram que eram muito, mas muito piores que qualquer horda de zumbis.
Todos os livros da série lançados até o momento
               O livro é narrado em terceira pessoa. A história acompanha os passos dos sobreviventes em sua luta contra a tirania de Uriel e Otávio, com passagens no passado, contando flashbacks de alguns acontecimentos que servem para ambientar o leitor em meio a tantos anos de história. Como é de praxe, a narrativa frenética de Rodrigo faz com que devoremos as páginas rapidamente, quase sem tempo para respirar. A revisão está ótima, um errinho ou outro, nada que atrapalhe a leitura. Não me canso de elogiar o trabalho da Faro em relação a diagramação. Cada livro é uma surpresa diferente nesse quesito. O carinho que eles têm com as obras de autores nacionais é de tirar o chapéu. O livro é dividido em 8 capítulos, com uma nota do autor ao final falando sobre uma triste realidade brasileira (a morte que mencionei acima).
               Algo que me fez ficar muito feliz com essa obra (mais que o normal) foi ter uma citação minha na orelha do livro (imagem ao lado). Sério, eu fiquei extremamente contente. Eu não sou de olhar a orelha e a sinopse, e depois que vi por acaso a desse livro, acabei descobrindo que tem uma citação minha no livro “A Ilha dos Mortos” também. O nome do meu blog imortalizado em duas obras literárias é a confirmação de que tenho feito um bom trabalho nas minhas resenhas e que as pessoas gostam do que escrevo. Muito obrigado, Faro Editorial.
Rodrigo de Oliveira é gestor em TI e fã de ficção científica, dos clássicos de terror, em especial da obra de George Romero. A ideia para esta série surgiu após um longo pesadelo tão real que, ao acordar, começou a escrever freneticamente, até concluir seu primeiro livro. Casado, com dois filhos, nasceu em São Paulo, e vive entre a capital e o Vale do Paraíba. Rodrigo é autor da Saga Crônica dos Mortos: O Vale dos Mortos, A Batalha dos Mortos, A Senhora dos Mortos, Ilha dos Mortos, A Era dos Mortos - parte 1 e o Spin Off Elevador 16.
               Antes de dar minhas recomendações, lembram que dei a ideia de criar “A Enciclopédia dos Mortos”? Então, além de por informações sobre a saga, seria muito legal criar um mapa do Brasil, apontando os locais que os sobreviventes viviam ao longo da história. Talvez um site com um mapa interativo. Sei que daria um trabalhão, mas seria fantástico poder passear no mapa pelo Condomínio Colinas, Ilhabela e tantos outros lugares memoráveis dessa saga fantástica.
            Agora sim. Recomendo a obra para todo e qualquer entusiasta do universo dos zumbis. Aqui vocês irão encontrar muito material fantástico sobre o tema. Volto a afirmar que o Rodrigo é o maior nome que temos no Brasil sobre o assunto. Quem gosta de The Walking Dead, Resident Evil, Dead Island e similares vai se sentir em casa com a saga. E termino fazendo aquela recomendação para que os leitores leiam cada vez mais nacionais. Temos autores maravilhosos por aí esperando por vocês. Basta dar uma chance.
 A Era dos Mortos é uma obra que prepara o terreno para o desfecho épico que será a parte dois. Ainda há muita coisa a ser explorada e já estou num misto de ansiedade e tristeza pelo capítulo final.

Bibliografia de RODRIGO DE OLIVEIRA (ordem cronológica):

Livros:
  • O Vale dos Mortos –Editora Baraúna (2013); Relançado pela Faro Editorial (2014).
  • Elevador 16 – Faro Editorial (2013)
  • A Batalha dos Mortos – Faro Editorial (2014)
  • A Senhora dos Mortos – Faro Editorial (2015)
  • Ilha dos Mortos – Faro Editorial (2016)
  • A Era dos Mortos – Faro Editorial (2018)


Luciano Vellasco

Sou o cara que brinca de ser escritor e se diverte em ser leitor. Apaixonado por livros, fotografia e escrever. Jogador de rpg nos domingos livres, colecionador de Action Figures e Edições Limitadas de jogos. Cinéfilo, amante de series e animes. Estou sempre em busca de conhecer novas pessoas e aprender com cada uma delas e por último, mas não menos importante: um lendário sonhador.
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